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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Silêncio de amoroso comprometimento

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Dava para ouvir o vento

e o mar

os corações a bater

em silêncio de amoroso comprometimento

 

Eram o vento

o mar

os corações já abraçados

a dizer

«amar, amar, amar…»

 

E nós embaraçados

a sussurrar

baixinho

tão baixinho

que se ouviam os olhos

a gritar:

«Amooo-te»

 

Mas nós não sabíamos quem

quando

e como

começar

 

Como desatar

aquele doce silêncio de amoroso comprometimento

 

^^

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Dou tempo ao tempo

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Apercebo-me de um mais débil pulsar

de badalas langorosas de cansaço

corro a dar corda aos meus relógios

para assim os espevitar

não vão eles parar

e com eles parar o tempo

 

Iludo-me…

 

Pensando que o tempo sou eu que faço

mas o tempo não tem origem em mim

apenas o mais puro sentimento

vem de dentro

 

Ainda assim...

 

Como os maquinismos mecânicos

prolongam as horas e os dias

dos mecanismos do tempo

em badaladas mais sonoras

e prolongadas

 

Também…

 

Os beijos e os mimos

animam o bater dos corações

e reanimam

com seu calor

as maquinações da relojoaria do amor

e dão tempo

ao tempo

 

Mas o tempo…

 

Sempre está a acontecer

esgota-se por si só

e com dor

sem piedade

nem dó

e tudo acaba por morrer

 

A menos que a mecânica celeste

com suas engrenagens cor-de-rosa

nos conduza a viagem

mais esperançosa

 

^^

domingo, 25 de novembro de 2012

E a paixão também poderá ser…

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E a paixão também poderá ser

uma momentânea loucura

que nos toma por dentro

nos destabiliza por fora

e em pouco tempo

deita tudo a perder

 

Um já sofrer

antes mesmo de que nada nos faça doer

embora já sabendo que tal

nos irá acontecer

 

A origem de uma vertigem

que nos leva a nos precipitar

no fogo que nos irá queimar

 

A euforia de uma alegria

sem igual

que nos embriaga

mas que não entendemos

e que acaba por nos abrir uma chaga

no coração

de que só nos apercebemos

quando já não tem reparação

 

E a paixão também poderá ser…

só um querer sofrer

 

^^

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

É pecado emigrar

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É pecado emigrar

abandonar

a nossaTerra Mãe

 

Deitar ao abandono

seus campos, ares e mares

dar a pátria a má lei

e a grei a mau dono

 

Entregá-la ao desdém

de quem

arma a polícia

com estultícia

e dá pedras ao vilão

por omissão

 

É pecado emigrar

abandonar a nossaTerra Mãe

 

Sem saber

quanto se irá sofrer

de saudade

em terras estranhas

 

Só a nossa Terra Mãe

gera em suas entranhas

o pão

o mel e o azeite

o leite e o luar

capaz de nos alimentar

com o mor deleite

do seu amor

 

Só a nossa Terra Mãe

guarda no seu seio

o justo anseio

do nosso coração

 

Terra Mãe que precisa de novo

da força do seu povo

para os campos semear

e a liberdade defender

 

E à juventude

povo impoluto

cabe a virtude de se erguer

e se revoltar

contra o regime corrupto

 

É forçoso ficar

não fugir

resistir

salvar o devir

 

^^

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma amargura da largura da Terra

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O meu estado de espírito dominante

mais do que uma angústia insana

é uma amargura amarga

angustiante

violeta

do tamanho do Planeta

 

Ante a pobreza

a violência

a injustiça terrível

que grassam sobre a Terra

e a ferocidade com que o homem maltrata a Natureza

 

Ante a minha impotência

para algo fazer de visível

Não me sinto suficientemente mau

para neste mundo triunfar

nem bom bastante para me auto imolar

e sorrir

 

Por isso me refugio

me escondo

no mais profundo do meu ser

por não saber

para onde ir

 

Já não há selva

deserto ou montanha

bairro clandestino

artimanha ou destino

longe ou perto

aonde me possa esconder

 

E assim viajo sem tino

para o local mais distante do Cosmos

que me é possível imaginar

 

Embora saiba que nem mesmo aí

me poderei salvar

^^

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Escrever no escuro

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Penso e escrevo

no escuro

 

De mente iluminada

de nada

e sem olhos para ver

 

Como se de olhos fechados

em folha de papel em branco

 

Apenas vejo gatafunhos

que me angustia decifrar

 

Por isso

nem sempre

nem eu

nem ninguém

sabemos ler

o que queremos dizer

 

^^

terça-feira, 20 de novembro de 2012

São só poemas

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Não são

sequer

murmúrios

 

São pensamentos soltos

palavras silenciadas

atiradas aos ventos

 

Palavras que poderão passar

de mão em mão

e dar volta à Terra

 

Pombas de paz

borboletas de ilusão

quiçá falcões de guerra

ou de outra obscena miséria

 

São flores

antúrios perfumados

arrulhos enamorados

 

São palavras perfumadas

trabalhadas

com dores

amores

e dilemas

 

São só poemas

 

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sábado, 17 de novembro de 2012

Sonhar é viver

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Sonho quando durmo

adormecido de amor

sonho acordado

despertado de saudade

 

Sonho quando voo

numa anelada realidade

diferente da que a vida me consente

 

Sonho se sou feliz

sem adormecer

por não acreditar

que tal me está a acontecer

 

Sonho sem querer

e sem ensejo

sonhos súcubos e íncubos

Sonho se adormeço com desejo

e acordo com ansiedade

 

Sonho

mil ideias em atropelo

se a vida é pesadelo

porque sonhar é viver

 

^^

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A paixão é assim

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A paixão é assim

 

Começa por um mero odor

um simples olhar

uma breve fala

por nada que a valha

 

Acaba por tudo querer

em tudo querer ser a maior

mesmo o maior amor

 

Mas por dá cá aquela palha

à mais pequena falha

ao mais leve incidente

tudo deita a perder

 

Paixão é assim

simplesmente

 

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Mais fácil ainda é amar

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Sonhar

é acreditar

seja lá no que for

 

E afinal é tão fácil sonhar

e sem dor

 

Basta olhar distante

perder a noção do tempo

e deixar-mo-nos levar

num instante

 

Como fácil é voar

 

Basta subir

a um ponto alto

abrir a asas

e deixarmo-nos cair

sem sobressalto

 

Como fácil é navegar

 

Basta entrar na corrente

e deixar-mo-nos ir

ao sabor do vento

 

Mas mais fácil ainda é amar

 

Basta sorrir

a esmo

que o amor se basta

a si mesmo

 

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domingo, 11 de novembro de 2012

O vinho do Paraíso

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Deu Deus, a Adão, para, por bem, o alegrar

Eva, a primeira mulher, ser fascinante

E também vinho do Éden, inebriante

Que acabariam por Adão condenar

 

Adão, por Eva se deixou apaixonar

Caindo na frágil condição de amante

E ainda no Éden, já de Deus distante

Usou o vinho para se embriagar

 

Por isso, vida de homem é provação

E o vinho e a mulher bons agasalhos

Que, se bem-amados, levam à salvação

 

Vinho com moderação, fora dos trabalhos

A mulher sempre presente e com paixão

Seja o homem criança ou já grisalho

 

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sábado, 10 de novembro de 2012

Angústias outonais

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Nestes dias anormais

divirto-me a esgaravatar raízes de poemas

no húmus humedecido

pelas primeiras chuvas outonais

 

Agora que a Natureza de novo sorri

verdejante e florida

iludida

travestida de Primavera

quando o longo e frio Inverno

já a espera

 

Apenas desenterro dilemas

angústias e ansiedade

que exponho ao vento e à chuva

ao sol morno de Outono

 

Angústias sem razão de ser

dilemas de verdades

ansiedade sem casualidade

 

Mas nem o sol as seca

nem a chuva as dilui

nem o vento as leva para longe

 

As aves passam indiferentes

em seus voos sorrateiros

no céu azul

maculado de nuvens

 

Procuram sementes nos terreiros

e não poemas

dementes

 

Um ou outro cão ladra

porque o frémito da minha melancolia

lhe fere os tímpanos

e lhes causa frenesia

 

Ponho-me então a sonhar

para lá da morte

 

Sonhos que arrastam consigo todos os meus afectos

para espaços mais amplos e abertos

mas nem assim a angústia se dilui

e mais se concentra

 

Comprovadamente já não fui

que era suposto ser

 

Resta-me a esperança

de que serei

mais do que tudo que sonhei

 

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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Um acaso de amor em Katmandu

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Encontrámo-nos por curioso acaso

quando observávamos em simultâneo

e religioso silêncio

as esculturas eróticas do templo Jagannath

bem no coração da mítica Katmandu

 

Fitámo-nos com fugaz e instintiva malícia

mas ela afastou-se num ápice

rodeada pela colorida e vaporosa comitiva

mal se deu conta da matéria herética

dos meus impensados pensamentos

 

Andávamos por ali em busca de espiritualidade

levados nas asas da mais pura fantasia

mas acabaríamos em mútuo despertar

nu e cru

nos deleites de uma nova virtude

por força do viço da juventude

e dos encantos do verdejante vale de Katmandu

 

Indira era uma linda, tímida e sanguínea viúva

semi-virgem de um machucho lambão

que mal tivera tempo de a lambuzar

muito menos de lhe tocar o coração

 

Eu vivia a ventura da livre aventura

cultivava a mais sã inocência

cruzava oceanos e continentes de continência

e abstenção

na ideia de que assim seria mais livre

forte e feliz e são

 

Indira não despertara ainda para a vida

e trazia um cosmos caótico dentro de si

 

Era uma mágica poção de virtude e paixão

envolvida por véu diáfano de santidade

e aspergida de inebriante perfume de sensualidade

 

Por dentro e por fora era a um só tempo

doce templo de artifício e religião

fascinante fogo de amor e tentação

 

Tornámos a encontrar-nos nesse mesmo dia

por curioso acaso

no átrio do hotel em que nos hospedáramos

na edénica cidade-lago de Pokhara

bem no coração do mítico vale de Katmandu

 

Bastaria agora o meu sorriso discreto e sedutor

em resposta ao seu olhar doce, tímido e tentador

carregado de indizível e oriental fascínio

para me franquear as portas da sua suíte de sonho

que em segredo se abriam amplas de luxúria

sobre as águas plácidas do lago Phewa

iluminadas pelo irreal albedo da neve e do luar

que igualmente doiravam

o seu triste e solitário degredo

 

Com um sorriso de universal feminina sedução

convidou-me a penetrar no seu reduto mais íntimo

discreta e delicada como se me levasse pela mão

 

Aventurei-me inflamado de desejo

inebriado de amor e despido de adrenalina

com a libido em calada combustão

confiante nos desígnios daquela fêmea divina

certo de que seria aquela a noite mais prazerosa

de todos os contos cor-de-rosa

que nem mesmo Sherezade ousara tanta magia

tão deleitosa veracidade e fantasia

 

Permanecemos durante longo tempo

em mútuo e sereno jogo de prazer

nus e melados

deliciados

no fascinante desconhecimento

que cada um tinha do outro

e nem os meus beijos mais apaixonados

nem as minhas carícias mais meigas

pareciam fazê-la rir de prazer como eu pretendia

e abrir-se em toda a sua pureza e verdade

mais parecia mergulhada num etéreo manto

de poética e distante frialdade

 

Apenas quando o meus dedos delicados

ousaram titilar o seu mimoso e melífico clítoris

explodiu então Indira lasciva e langorosa

que nem uma feroz fêmea loba faminta

descida do mais profundo e recôndito fojo

da mais cerrada floresta dos Himalaias

e se pôs a lutar para se dar por vencida

a gritar desmedia que era minha

que eu a poderia possuir e ousar tudo fazer

que a tudo se prestaria e a mais lhe apetecia

 

Quando por fim saciados

e ainda apaixonados por nós

e pelo ambiente de paz e deleite que nos envolvia

eu concluí para dentro de mim

sem nada lhe dizer todavia

que a não amava

 

Por certo

ela pensou o mesmo dentro de si

sem nada me dizer

porque mil vezes me agradeceu

solícita e esmerada

a sublime loucura que lhe propiciara

 

Talvez também porque inexoravelmente

cada um teria que regressar ao seu próprio mundo

de diferentes e afastados continentes

 

E porque aquele sublime acto de amor e sexo

fora imprevisto e não poderia acontecer novamente

já que a nossa vida em comum era imprevisível

e não teria qualquer nexo

 

Passadas que são décadas de doce esquecimento

recordo agora aquele sublime congresso

e concluo que afinal a amei e a amo ainda

também porque a sei agora mulher feliz

e de planetário público sucesso

sublimado produto por certo

da sua erotomania juvenil

 

Agora que coloco este poema memória na Web

e que nada lhe devo e ela nada me deve

talvez Indira acabe, sem querer, por lê-lo

sozinha no seu íntimo silêncio

 

E talvez de novo se acenda

nos seus olhos verde-esmeralda

o brilho carente de feroz fêmea loba dos Himalaias

num ápice semicerrados para o efeito

 

E talvez

como eu

acabe por guardá-lo no seu mais íntimo jardim

e segrede para si mesma

que afinal também ela ainda me ama como me amava

embora nada saiba de mim

 

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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Sonhos suspensos

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Folhas dependuradas nos ramos das árvores

que se libertam pelo Outono

se a brisa

ou o vento

chegam a tempo

de os empurrar para longe dali

levando-os a perderem-se na estratosfera

fugindo a ser húmus

 

Sonhos do espírito

a que o corpo não responde

em seu sono

 

Pesadelos de acordar

na cama da amante que nos abraça

com as pernas e as coxas

pelos quadris

mas nada nos diz

 

Sonhos que sonhamos

mas nada acontece

e que melhor será

nem sonhar

 

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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Só ama quem tem a alma acesa de amor

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Um penedo

surdo e mudo

que seja

perdido no seio da floresta

ou no descampado do monte

é amado pelo poeta

que ali sentado

se perde no horizonte

 

Votado a amar os seres

e as coisas

a quem ilumina

com a luz da poesia

e lhe recolhe o reflexo

 

Mas só ama

quem tem a alma acesa

de amor

capaz de lhe iluminar

o coração

 

Como o Sol

que durante a noite alumia

a Lua

cuja luz reflecte

em luar

 

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domingo, 4 de novembro de 2012

A fulgência de Deus

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Quando, num só tempo, sofremos e amamos

E o coração nos dói do mais puro amor

Ou ainda mais amamos a quem está com dor

E a essa mesma dor também nos entregamos

 

Ou quando de quem amamos nos separamos

E mergulhamos na tristeza e no torpor

Ou quem bem nos ama nos recebe com calor

Se de um longo afastamento regressamos

 

Ou se a morte, a mais cruel realidade

Nos obriga a um definitivo adeus

A alguém a quem muito amamos de verdade

 

E ainda assim damos louvores aos céus

Será quando com a maior claridade

Em nós se faz sentir a fulgência de Deus

 

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quando a hora da minha morte chegar

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Quando a hora da minha morte chegar

se é que algum dia eu vou morrer

 

Quando o sangue se me esfriar nas veias

mais vivas e ardentes se revelarão as ideias

 

Entregarei o corpo com o coração na mão

à Mãe-Natureza para reciclar

que dele melhor fará

o que bem lhe apetecer

 

Serei húmus, seiva, sangue

vinho

aroma de pinho

erva aromática

papel de gramática

grão de jade

 

Ou só

 

Quem sabe?!

 

Por mim

ainda assim

gostaria de me transformar em pinheiro

viçoso

frondoso

altaneiro

novo ser no seio do novo pinhal

que plantei com as minhas próprias mãos

ao sol do sonho

e sem sombra de mal

 

Mãos e braços que se converterão

em ramos

e os pés em raízes

arreigadas bem fundo nas entranhas da terra

já preparada

à minha espera

saradas as cicatrizes

 

E o suor que transpirei agarrado à enxada

será a resina perfumada

que purificará o ar

e dará nova cor e vigor

a novos pulmões

e a outros corações

que pulsarão do mesmo Amor

 

Mais vivas e ardentes se revelarão

então

as ideias

 

Elas serão o germe de novos sonhos

as sementes de novas poesias

de mais lúcidos dias

de mais clara Verdade

as palavras-chave da eterna Eternidade

 

Quando a hora da minha morte chegar

se é que algum dia eu vou morrer…

 

Quem sabe?!

 

Melhor será esperar

para ver

 

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