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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Lavrando poemas com tractor agrícola

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Ocorrem-me ideias loucas

e não poucas

sentado num tractor agrícola

que pachorrento se arrasta

escarificando a terra em sulcos rectilíneos

 

Fazem-me companhia os cães

divertindo-se em correrias loucas

atrás das lavandeiras que graciosas

catam os vermes no húmus fresco

 

Os meus braços e pernas transformam-se

em alavancas e manivelas da máquina

 

Acabo por sair dali

deixo de ouvir o seu som rouco

e monocórdico

do tractor

que parece gemer

de viva dor

 

À mesma hora um casal jovem

comete adultério num motel da Pensilvânia

e o senhor Obama encerra mais um comício

enquanto o ministro Gaspar diz mal à vida

 

Mas a vida é assim

 

Há quem dispute o domínio do mundo

e quem cometa adultério

quem desespere com o estado da Nação

quem esgaravate a terra à procura de pão

 

Cada vez mais a Civilização é despautério

 

Eu divirto-me remexendo o húmus do olival

que as oliveiras convertem em azeite doirado

indiferente ao vento gélido que sopra da serra da Padrela

por certo já polvilhada da primeira neve

indiciando o Inverno que se aproxima

uivante

 

Não estou seguro de que as ideias que fabrico

introvertido

em cima de tractor agrícola que lavra o olival

se concertarão em poema digno de ser lido

 

Mas vou ter prazer adicional de escrevê-lo

mesmo que fique inacabado

por falta de algum verso esquecido

no chão do olival

 

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