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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Um acaso de amor em Katmandu

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Encontrámo-nos por curioso acaso

quando observávamos em simultâneo

e religioso silêncio

as esculturas eróticas do templo Jagannath

bem no coração da mítica Katmandu

 

Fitámo-nos com fugaz e instintiva malícia

mas ela afastou-se num ápice

rodeada pela colorida e vaporosa comitiva

mal se deu conta da matéria herética

dos meus impensados pensamentos

 

Andávamos por ali em busca de espiritualidade

levados nas asas da mais pura fantasia

mas acabaríamos em mútuo despertar

nu e cru

nos deleites de uma nova virtude

por força do viço da juventude

e dos encantos do verdejante vale de Katmandu

 

Indira era uma linda, tímida e sanguínea viúva

semi-virgem de um machucho lambão

que mal tivera tempo de a lambuzar

muito menos de lhe tocar o coração

 

Eu vivia a ventura da livre aventura

cultivava a mais sã inocência

cruzava oceanos e continentes de continência

e abstenção

na ideia de que assim seria mais livre

forte e feliz e são

 

Indira não despertara ainda para a vida

e trazia um cosmos caótico dentro de si

 

Era uma mágica poção de virtude e paixão

envolvida por véu diáfano de santidade

e aspergida de inebriante perfume de sensualidade

 

Por dentro e por fora era a um só tempo

doce templo de artifício e religião

fascinante fogo de amor e tentação

 

Tornámos a encontrar-nos nesse mesmo dia

por curioso acaso

no átrio do hotel em que nos hospedáramos

na edénica cidade-lago de Pokhara

bem no coração do mítico vale de Katmandu

 

Bastaria agora o meu sorriso discreto e sedutor

em resposta ao seu olhar doce, tímido e tentador

carregado de indizível e oriental fascínio

para me franquear as portas da sua suíte de sonho

que em segredo se abriam amplas de luxúria

sobre as águas plácidas do lago Phewa

iluminadas pelo irreal albedo da neve e do luar

que igualmente doiravam

o seu triste e solitário degredo

 

Com um sorriso de universal feminina sedução

convidou-me a penetrar no seu reduto mais íntimo

discreta e delicada como se me levasse pela mão

 

Aventurei-me inflamado de desejo

inebriado de amor e despido de adrenalina

com a libido em calada combustão

confiante nos desígnios daquela fêmea divina

certo de que seria aquela a noite mais prazerosa

de todos os contos cor-de-rosa

que nem mesmo Sherezade ousara tanta magia

tão deleitosa veracidade e fantasia

 

Permanecemos durante longo tempo

em mútuo e sereno jogo de prazer

nus e melados

deliciados

no fascinante desconhecimento

que cada um tinha do outro

e nem os meus beijos mais apaixonados

nem as minhas carícias mais meigas

pareciam fazê-la rir de prazer como eu pretendia

e abrir-se em toda a sua pureza e verdade

mais parecia mergulhada num etéreo manto

de poética e distante frialdade

 

Apenas quando o meus dedos delicados

ousaram titilar o seu mimoso e melífico clítoris

explodiu então Indira lasciva e langorosa

que nem uma feroz fêmea loba faminta

descida do mais profundo e recôndito fojo

da mais cerrada floresta dos Himalaias

e se pôs a lutar para se dar por vencida

a gritar desmedia que era minha

que eu a poderia possuir e ousar tudo fazer

que a tudo se prestaria e a mais lhe apetecia

 

Quando por fim saciados

e ainda apaixonados por nós

e pelo ambiente de paz e deleite que nos envolvia

eu concluí para dentro de mim

sem nada lhe dizer todavia

que a não amava

 

Por certo

ela pensou o mesmo dentro de si

sem nada me dizer

porque mil vezes me agradeceu

solícita e esmerada

a sublime loucura que lhe propiciara

 

Talvez também porque inexoravelmente

cada um teria que regressar ao seu próprio mundo

de diferentes e afastados continentes

 

E porque aquele sublime acto de amor e sexo

fora imprevisto e não poderia acontecer novamente

já que a nossa vida em comum era imprevisível

e não teria qualquer nexo

 

Passadas que são décadas de doce esquecimento

recordo agora aquele sublime congresso

e concluo que afinal a amei e a amo ainda

também porque a sei agora mulher feliz

e de planetário público sucesso

sublimado produto por certo

da sua erotomania juvenil

 

Agora que coloco este poema memória na Web

e que nada lhe devo e ela nada me deve

talvez Indira acabe, sem querer, por lê-lo

sozinha no seu íntimo silêncio

 

E talvez de novo se acenda

nos seus olhos verde-esmeralda

o brilho carente de feroz fêmea loba dos Himalaias

num ápice semicerrados para o efeito

 

E talvez

como eu

acabe por guardá-lo no seu mais íntimo jardim

e segrede para si mesma

que afinal também ela ainda me ama como me amava

embora nada saiba de mim

 

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