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sábado, 28 de dezembro de 2013

Tantos são os sinais que nos dais, Deus



Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando amamos
a dizer-nos que nos amemos mais
e mais

Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando bem fazemos
a dizer-nos que façamos mais
e mais

Tantos são os sinais
que nos dais
Deus
quando sofremos…

Mas porque sofremos
nós
ainda mais
e mais

Deus?

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Love bites





Batidelas
sonoras
do teu coração
a dizer-me o quanto me amas

Relâmpagos de luz
de teus olhos
a dizer-me o quanto me queres

Beijos
doces
de teus lábios de veludo
a dizer-me o quanto me desejas

Mordidelas
de teus dentes de marfim
a dizer-me o que só me dizes a mim

Silêncios gritantes
de paixão
que valem por mil poemas
e fonemas

São “sound bites” (*)
“ligth bites”

“Love bites”



(*) Before the actual term "sound bite" had been coined, Mark Twain described the concept as "a minimum of sound to a maximum of sense."  (Wikipédia)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Mutatis mutandis



Um pedaço de gelo apenas será água
se ganhar suficiente calor
para se derreter
podendo mesmo ser vapor
se levantar fervura

Mas apenas será transparente
aos olhos da gente
quando não tiver arestas

O novelo de lã apenas será meia
se for tecido e tomar forma

O emaranhado de palavras apenas será poema
se tiver ideia
for lido
e sentido
mesmo que não tenha rima nenhuma

O monte de caruma apenas será fogueira
quando ateado pela chama
de quem precisa de se aquecer

O branco apenas será alvura
quando não tiver riscos de carvão
no seu coração

E o preto apenas será negro
e o negro apenas será preto
quando não houver branco no seu olhar

O homem apenas será livre
mesmo se amarrado às grades da prisão
quando se não tomar da mais leve angústia
nem sentir rancor no seu coração

A madrugada apenas será dia
quando o Sol raiar

O presente apenas será futuro
quando houver passado para contar

A luz será absoluta
quando não for refractada por nenhum prisma
e não tiver a mais imperceptível franja de cor

O amor apenas o será
quando não tiver o mais ínfimo sentimento de egoísmo

E o homem apenas será anjo
quando sentir suficiente amor

para ser espírito

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Três Poemas de Natal



Estrela
1962

Na quietude de uma noite estrelada
Fria mas linda
Apareceu uma estrela
Toda doirada

Veio do alto
Mesmo do centro
Do enorme Firmamento

Depois
Banhada pelo luar
Desceu
Desceu
Parou

E na quietude da noite estrelada
Seus raios lançou...
A um perdido
E mirrado casebre...
Toda doirada

E no casebre
Bem pequenino
Nasceu Deus
O Deus menino

                                              Vale de Salgueiro, 25 de Dezembro de 1962

Arame farpado
1971

Uma névoa de saudade
Invadiu o campo
E as luzes
Não iluminam claramente
As zonas para cá
E para lá
Do arame farpado

As árvores são sombras
Carregadas
Na própria sombra das imagens
E os cantares dolentes
Perdem-se
Na ausência de respostas
Da floresta

Ninguém percorre os trilhos
Esta noite
E aqueles que não sentem
Guardam respeito aos demais

De tudo resulta silêncio
E ruído de recordações
Que o mesmo é saudade

                                              Nangololo (Norte de Moçambique), 24 de Dezembro de 1971
In Poemas da Guerra, de Mim e de Outrem


Esperança
2007

Não conhecemos a data
Exacta
Em que Jesus nasceu em Belém
É porém menos lendário
O registo da Sua morte
No Monte Calvário

Por 2007 vezes nascerá Jesus
No imaginário humano
Quantas vezes mais morrerá
Transfigurado em Cristo
No sinistro calendário do ano?

O homem não vive ainda o Natal
Mensagem universal de Paz e Amor
A mentira, o sofrimento e a dor
Esgotam o espaço e o tempo
A notícia e o noticiário
Expande-se a tristeza da morte
Cala-se a alegria do nascimento
Glorifica-se quem mata
Por esse mundo além
Avilta-se a grandeza de ser mãe

Que Jesus continue a nascer
Hora a hora
Até Cristo deixar de o Ser
Que viva dentro de nós
E não morra mundo fora

No Natal acende-se a Luz
Do Amor, da Paz e da Esperança
Nasça Deus mais uma vez
Feito criança
Salve-se o homem Cristo
Da Cruz


Vale de Salgueiro, 26 de Novembro de 2007

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Terra queimada pela paixão



Era pura paixão
que me animava

Um incenso sagrado

Um fumo perfumado
que subia  vertical
e nenhum vento
nenhum sopro de mal
dispersava

Ardia-me o coração por dentro
pulsava como brasa incandescente
atiçada pelo sopro do amor
ardor em corpo ardente

Até que o seu coração
deixou de me espevitar
e o meu arrefeceu

Ficou então
o carvão da tristeza
a cinza da saudade

E um fumo acidulado
dissipando-se
ondulante
em resignado vai e vem
sobre a terra queimada
pela paixão


Uma terra de ninguém

sábado, 21 de dezembro de 2013

Cai neve na Terra Quente


Poema-conto-cântico de Natal
 (Revisto)


A noite passada nevou
na Terra Quente Transmontana
e por toda a Montanha
circundante

Há neve por todo o lado!
Oh que alegria tamanha!
Que manhã surpreendente!
Encantada!
Rutilante!
E tudo tão comovente!

Fico mudo
contudo
calado
porque sinto no ar gelado
o frio da natureza humana

E também cai neve
em mim…
também me neva na alma
ainda assim

Porque me lembro dos desgraçados
dos infelizes desabrigados
que andam de pés ao léu
e não têm como eu
cama quente para dormir
um lar onde se abrigar
do frio, da fome e do sofrimento
do desumano alvedrio

Uma mão amiga sequer
para os consolar
fazer sonhar e sorrir
vencer com alegria
o triste descontentamento

A neve é fofa e feérica
embora fria
para quem não lhe sente o sopro
frio
na alma e no corpo

Poderá até ser poética e bela
para quem tiver um lar para se aquecer
e agasalho para dela se abrigar

Mas é patética para quem não a vê cair
ao som de música suave
nem tem comida e bebida
para bem comer
melhor beber
e paz para usufruir

Ponho-me a deambular
taciturno
mergulhando na neblina de silêncio
que cobre toda a Natureza
apenas rasgada aqui e além
pelo bater de asas de uma ave
fantasmagórica
que foge de mim
como se eu fora um fantasma
diurno

Só paro ao cair da tarde
numa planície erma
gelada
o meu coração ferve
a minha imaginação arde
a minha alma pasma

Tudo em redor é branco e frio
a própria atmosfera cinzenta
mal se distingue da terra dormente
nevoenta

Especa o negro mastim
atrás de mim
de orelhas espetadas que nem lobo
a farejar algum gesto suspeito
talvez um engodo
a olhar-me fixamente
em canina expressão de fidelidade
e de angustiada interrogação
sobre o que fazemos ali
de verdade
na tristeza da noite antecipada

Acendo uma fogueira no descampado
aclara-se a escuridão
alegra-se o meu coração
derrete-se a neve a toda volta
e o espectáculo fica mais belo
e quente
mais digno de gente

De pronto se aproximam os sem-abrigo
os desamparados
os mal-amados da Terra
refugiados de guerra
novos, velhos e crianças
humanos de todas as cores
dores e sofrimentos
de diferentes andanças

Que rodeiam o fogo, receosos
tímidos, silenciosos
enquanto eu gesticulando
vou convidando
para que não esmoreçam:
-Venham! Venham! Se aqueçam!

Em breve uma multidão enorme
estende as mãos para as chamas
que lhe lustram os rostos
sofridos de frio, de fome
e de indiferença

Dou-lhes de comer do fumeiro
alheiras, linguiças e salpicões
os biscoitos que encontro na dispensa
reparto todo o pão da arca
sirvo taças de vinho fino
para que vençam a apatia
e nos seus corações
se instale a alegria

É então que um velho de barbas brancas
já mais alegre e jovial
falando alto abre o coração:
- Viva o nosso Pai Natal!

Não permito que a turba replique
sou eu que contraponho
antes que seja tarde
e se instale o sonho:
- O Pai Natal não existe!
 É um logro!

Mas o velho não desiste:
- «Dizem que é o que há demais
nas superfícies comercias
e que vende de tudo
ceroulas, sobretudos e postais»

Todos riem estrondosamente!
Mas de novo se instala a dúvida
e a tristeza, naquela gente
mais crente nas chamas crepitantes
que em quimeras distantes

Mas eis que de repente
uma criança
magra e macilenta
faz ouvir a sua voz inocente
e apontando-me o seu alvo dedinho
no qual a fogueira reflecte luz
proclama, pura e fagueira:
- «Se não és o Pai Natal…
 então és o Menino Jesus!»

E eu…
apanhado de surpresa
envergonhado e comovido
com tanta pureza
respondo irreflectido:
- «Também não sou o Deus Menino!
Dizem até que foi raptado do Presépio
que anda por aí perdido
nu
e que Nossa Senhora e São José
andam aflitos à Sua procura!
Acaso não serás tu?»

E a criancinha modelar
de voz tão suave e condoída
que mais parecia ser ela, sim, o meigo Jesus
responde baixinho, a contraluz:
- Mas eu não tenho prendas para dar!

É nesta altura que sua mãe
uma mulher jovem e bela
apesar de tamanha miséria
exclama erguendo o filho no ar:
- «És sim! Tu és o Menino Jesus
e tens o Sol para nos dar»

Naquele mesmo instante abre-se o astro rei
flagrante de alegria, calor e amor
a Natureza alumia-se em todo o redor
e a fria neve acende-se de verdade
feérica e linda pelo reflexo da luz solar
e pelo calor da mais pura solidariedade

E por toda a Terra Quente Transmontana
e pela circundante Montanha

ecoa um coro de anjos desabrigados:
- “Gloria in excelsis Deo…
e paz na Terra aos homens por Ele amados”

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Amor, simplesmente.



Sem tempo
nem vento

Aberto
discreto

Silencioso
delicado
deslumbrado

De sorriso suave
solidário
comprometido
sem se comprometer

De caminhar amoroso
de mão dada
sem dizer nada
e tudo dizer

De desfrute
com delite
do leito conjugal
na obscuridade da sensualidade
serena
do corpo
e da mente

De amar caloroso
terno
eterno
fraternal

Delicado como uma flor
mais forte que a dor

Amor simples
simplesmente


Simplesmente amor

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Trazíamos a electricidade no corpo e não sabíamos




Trazíamos a electricidade no corpo
e não sabíamos

No entanto
é a electricidade que dá estímulos ao coração

Tínhamos cálcio e ferro e sal nos ossos
como qualquer planta
ou animal
sem saber também
para nosso bem
ou nosso mal

E água
muita água e o sopro de vento
que nos faz respirar

E não víamos sequer a luz dos olhos
que nos faz ver

Como poderemos então perceber
o espírito e a alma
que pairam no nosso interior
se não abrimos os olhos e os ouvidos
do amor?

Tudo que ama tem alma!

Mesmo uma fraga descomunal
que seja
surda e muda
poderá ser o anjo encantado
que se transmuda

em catedral

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tocam os sinos a sinais



Na minha aldeia
por genuína ideia
ao toque de finados
o povo chama de “sinais”

Sim…ais…
“sinais”
sons
doridos
sofridos
fatais

Que soam nos ouvidos
ecoam nos descampados
e se calam no coração

Dlãoooooooooo
Dlãoooooooooo

Sempre que alguém morre
seja lá quem for
ou qual for a sua condição
os sinos tocam na torre
doridos sons de dor
o toque a “sinais”

Dlimmmmmmm
Dlimmmmmmm
Dlãoooooooooo
Dlãoooooooooo

São sinais!

Sinais de fim
sinais de compaixão
sinais assim…
de…
…adeus

Sinais a Deus
que receba mais
um dos seus
lá nos céus

Dlimmmmmmm
Dlimmmmmmm
Dlãoooooooooo

Dlãoooooooooo

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sobre essa mulher nada quero saber



Não quero saber quem é
nem o que faz

É-me indiferente

Não me importa saber se é bonita
inteligente
morena
liberal
grande
pequena
sensual
nórdica
latina
ou arábica

Duvido até que é disléxica
e estrábica
porque mal me vê
e mal me fala

Sobre essa mulher
não me interrogo

Quero lá saber!

Apenas me questiono
porque será que só de a ver

me emociono

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Sorrisos que só mostram dentes



Os mais sinistros sinais
destes tempos dementes
são
quiçá
os sorrisos que não mostram mais
que dentes

São sorrisos coercivos
que vendem dentífricos inofensivos
“lingeries” vaporosas
e políticas maliciosas

São sorrisos sinistros
que enredam os espíritos
em ilusões cor-de-rosa
escondem a perfídia
disfarçam a traição
e levam à perdição

Urge
portanto
que aprendamos a sorrir
sorrisos mais explícitos
com natural encanto

Urge que a Humanidade
reaprenda a rir de verdade
a sorrir sorrisos que abracem
e enlacem

com naturalidade

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Quando a minha alma se esvazia



Há momentos de desalento
e desânimo
de crise de fé
em que me esvazio da alma
me oco por dentro
e mal me mantenho de pé

(E quem
se não eu
se poderia esvaziar de si?)

Momentos em que a angústia
me assalta a Razão
a ansiedade me toma o coração
e o meu espírito nele próprio se comprime

Já não é dor exterior
que sinto
é sim sofrimento interior

Então o maior grito
grito-o em silêncio
porque a maior dor
a sinto por dentro


Só assim o meu espírito se redime