Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

À janela da paixão




Nesta foto que apaixonadamente me enviou
apenas me deixa ver
o seu rosto resplandecente
a cabeça angelical
e um pouco do espaço entre os ebúrneos seios

Onde me demoro
entre mil doces desejos
e receios
com as mãos afagando-lhe os cabelos sedosos
e os meus lábios a colarem-se aos dela
à distância

Prestes a perder-me nos seus olhos
adivinho-lhe todo o corpo
e mergulho em sonho
e saudade
intemporal

E dispo-a
louco
expurgo-a de vestes
e de temor
imagino-a minha
nua
meu amor

E dispo-me
e desnudo-lhe a alma
e entrego-lhe a minha
e imagino-a abraçada a mim

Esta foto que me enviou
e que me faz bater o coração
é só
a janela de paixão

^^^^

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Tão felizes que nós éramos!




Sim
éramos felizes
porque nos amávamos

E tão felizes nós éramos
sem o saber!

Mas deixámos de o ser quando deixamos de nos amar
e procurámos a felicidade noutras paragens
deslumbrados por outras imagens
miragens de puro prazer, poder e riqueza

Quando ousámos ser mais belos
ainda
do que éramos
recorrendo a artifícios
e sacrifícios
que desnaturaram a beleza
que a Natureza nos ofertara

Quando iludimos a poesia
a convertemos em futilidade
e deixámos de cantar com verdade
o amor

Ainda resta
uma réstia de felicidade
porém
na saudade que agora
nos assola o coração
e ainda bem

Poderemos voltar a ser felizes
Sim

Basta que voltemos a nos amar

Tão só!

^^^^

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Um sibilino presságio




Numa destas noites gélidas de Inverno
de corpo a coberto da geada cortante
pelo calor de mantas e lençóis
que é quando melhor o sono sabe!

E no Firmamento esférico
pequeninos sóis cintilantes
iluminam visões de irrealidade

E como o espírito nunca dorme
mesmo se a mente adormece

Sonhei um sonho feérico
colorido como o tecto da Capela Sistina
e palpitante de vida como as figuras irreais
que os geniais pincéis de Miguel Ângelo
ali pintaram para a posteridade

Foram as cinco Sibilas
que me falaram, no sonho, uma a uma
misteriosas e belas como se impunha

Falou primeiro Ciméria, sacerdotisa de Apolo
que me disse com voz firme e grave:
- O verdadeiro problema da Humanidade
  não é o aquecimento global ou o carvão!

E a segunda foi Prisca, a Eritreia
que disse tão enigmática como a primeira:
- Nem a escassez de alimentos!

E a terceira foi Dafne, a Délfica
por sua vez mais estranha que a segunda:
- E muito menos a desertificação!

E a quarta foi a sibila Líbia
que disse mais enigmática que a terceira:
- Também não é a guerra!

E a quinta foi Sambeta, a Pérsica
também ela misteriosa e séria:
- Nem sequer o moderno terrorismo!

Levantei a voz, perplexo, para as interpelar:
- Fazeis jus ao nome, sois enigmáticas e sibilinas!
  Quais são então os problemas da Humanidade?!
  Qual é a vossa verdade minhas meninas?!

Responderam-me as cinco de pronto
em uníssono e sibilino coro:
- Os verdadeiros males da Humanidade
   que ameaçam converter a Terra
   num planeta estéril e vazio
   e desabitado como Vénus e Marte
   são a Mentira insidiosa
   que mata a Verdade e mina a Civilização
   a Ganância desenfreada
   que deixa a maior parte sem pão
   porque tudo quer e não respeita nada
   o Vício generalizado
   que mata o corpo e embrutece a mente
   a Vaidade demente
   que divide e humilha toda a gente
   e a Intolerância cruel
   que escraviza e endurece o coração

Céptico e entristecido redargui desta sorte:
- Muitos humanos lutam para se libertar
   para ter tempo de viver e amar
   mas nenhum sobrevive à morte!

Então as cinco esfíngicas figuras cantaram
em tom grave, pausado e melodioso
este presságio cruel que me fez acordar:
- Todos vós, humanos, sobrevireis à morte
   porque sois Corpo mas também Espírito
   e o Espírito é eterno e nunca morre!
   Mas nem todos vós vos libertareis da dor
   e alcançareis o estado de pleno Amor
   antes e depois de morrer
   por não ser esse o vosso querer!
   Tratai que uma vaga de Amor e Verdade
   avassale toda a Humanidade!
   e salvai a Terra, se vos quereis salvar!

^^^^

domingo, 27 de janeiro de 2013

Uma curva do caminho




Foi lá que aprendi a andar
a tropeçar
a cair
e a me levantar

A subir
para ver o vale
de cima

A descer
para debaixo
contemplar o cume

A mudar de direcção
para poder
seguir adiante
incólume

Mesmo agora
que já me não dá prazer
subir ou descer
a correr
esfusiante
como quando menino
apraz-me parar a meio

Para pensar
repensar
e respirar
em ar aberto
para repor o coração
a bater certo
em seu anseio

Naquela curva do meu caminho
uma simples volta na ladeira
da colina onde moro

^^^^

sábado, 26 de janeiro de 2013

Vejo-me nos seus olhos




Assim ela melhor se mostra
e se denuncia
e melhor eu a vejo
e com mais força mais a desejo

Vejo-me nos seus olhos

Vejo nos seus olhos o que lhe vai na alma
e tudo que os seus lábios
e palavras
escondem

Ouço o silêncio
do seu sorriso

A partir daqui invento-a
e reinvento-me a mim

Levado nas asas da imaginação
e do vento
sopro
da paixão

^^^^

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Uma mulher apaixonada




Escreve-me

Para me dizer
que é uma mulher apaixonada
mas não me diz
por quem anda enamorada

Depreendo
se bem a entendo
que seja por mim
embora eu nada tenho a ver com isso

Por isso
e pelo sim
e pelo não
respondo-lhe
em manobra de diversão
que também eu sou
um eterno enamorado
por carácter um apaixonado
Emotivo, Activo, secundário (EAs)

E que para melhor me compreender
Emst Kretschmer deve ler
já que a questão é de caracterologia
embora a trate eu com poesia

Se leu o que lhe recomendei
não sei

Certo é que de pronto se desapaixonou
e que por bem ou por mal
nunca mais me escreveu
ou me falou

Não era uma apaixonada
não
muito menos uma Passionária
do coração

Era só uma sentimental
Emotiva, Activa, primária (EAs)

Poeta dixit

^^^^

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sons




A gota da clepsidra
seja de areia ou de água
acerta a vida
nada diz da mágoa

O som do diapasão
afina o tom
do violão

O sinal do sino
convida à oração

O longo ecoar do gongo
mais parece um lamento
a toar o tempo

A toque de caixa
ninguém se rebaixa

O rugido de leão
na savana
a ninguém engana

O barrido do elefante
que raspa o chão
tonitruante
dizem ser parecido
com o som da vuvuzela
e que não há outro como o dela

Deixa um zunido
enorme
no ouvido
causa dor
e faz toar a Razão

Mas não faz esquecer
a fome
seja de falta de amor
ou de pão

^^^^

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Este poema, a mim, nada me diz



Escrevo este poema
intencionalmente
sem nada ter em mente

Não quero mesmo
dizer
nada

Embora não seja demente

Escrevo por escrever
não por inspiração
ou provocação

Escrevo
só para dar o prazer
de ler o que lhe apetecer
a quem o quiser ler
se tal o fizer feliz

Este poema
a mim
que o escrevi
nada me diz

E a si?

^^^^

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Trago um sentimento ágrafo agrafado no peito




Trago um sentimento ágrafo
agrafado no peito
atravessado
na garganta


Abafado
sem jeito

Incapaz de expressar
seja a escrever
ou a falar
a mim mesmo me espanta

Tomara ter
a coragem de uma aragem
para lhe dizer
e lhe confessar
que a amo

Mas temo ser traído
pelo vento

Mal ela sabe com ando sofrido
da raiva que derramo
dentro de mim
por ser assim

Mas eu a amo

Dói
só de o pensar

^^^^

domingo, 20 de janeiro de 2013

Uma chávena de angústia




Entrou de mansinho
surgida da rua
vestida de lua
e sentou-se na mesa ao lado da minha
vida

Pediu uma chávena de porcelana
imaculada
vazia
de nada

Que encheu de angústia
adoçou com amargura
e mexeu
com a colher
da poesia
por entre vapores de Baco
e baforadas de tabaco

Depois despediu-se
sem alegria

Quando eu já bebia
de pé
a minha chávena de café
e de ansiedade

Remexeu
comigo
aquela mulher

Tanto que a impressão carmim
dos seus lábios
rubros de sensualidade
no bordo da chávena de porcelana
imaculada
permanece indelével
dentro de mim

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A minha samarra transmontana




É uma relíquia transmontana
Esta minha venerada samarra
Sendo típica veste de montanha
Na verdade, nada tem de bizarra

A pele doirada, cor de piçarra
Da dócil raposa sacrificada
À vaidade que lhe deitou a garra
Tem a docilidade entranhada

É indumentária de estação
Que protege do frio no Inverno
E aquece corpo e coração.

Todos, no meu Trás-os-Montes paterno
A vestiam bem e com distinção.
Era, afinal, um sinal fraterno!

^^^^

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Vá para onde vá




Vá para eu onde vá
seja lá onde for
sempre carrego comigo
uma mala de amor
e de sonhos

Sempre foi assim
e sempre assim será

Sonhos
sementes de poesia
que germinam em poemas
em cânticos de louvor
à vida
gritos de alegria
choros de dor
ao sabor da sorte
arpejos de dilemas

E assim será
na hora da morte
já que estou em crer
que continuarei a sonhar
a amar
a sentir poesia
mesmo depois de morrer

Vá para eu onde vá
seja lá onde for
sempre carrego comigo
uma mala de amor
e de sonhos

E é dentro dessa mala
que eu me faço transportar




quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Amor de ver sem olhar




Gostei de a encontrar
de passar por ela
de a ver
sem a olhar
e sem lhe falar

Apraz-me
esta nova forma de a amar
de fingir que a não vejo
quando mais a desejo

Vi que ela também me viu
que não me olhou
mas que sorriu
para si
fingindo que me não via

Vimo-nos
sem nos olharmos
olhos nos olhos
simultaneamente

Percebi
que também ela ficou contente
por me ver
sem contudo me olhar

Feliz
como eu
certamente
por me encontrar

Por me ver
sem me olhar
porque lhe apraz
esta nova forma de me amar

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

À porta da felicidade




Montei tenda num descampado
ermo silencioso
isolado
além
onde também me disseram
que não morava
ninguém

Mas sempre ia perguntando
a quem passava
se seria ali
que a felicidade
de verdade
morava

Nada
nem ninguém me garantia
que seria ali
que ela residia
embora por toda a parte
fosse muito procurada

Um jovem que de tão apressado
me pareceu feliz
e bem informado
tão pouco pára
sorri
sôfrego
e nada me diz

Mas um velho trôpego
que caminhava devagar
porque já trazia a vida morta
acabou por se sentar
e me dizer
que se eu queria saber
primeiro
teria que bater
à porta

E acrescentou
certeiro
fixando os olhos em mim:

«Se ninguém responder
mais certo será
morar
ali
a ilusão

Mas se de dentro responderem
e disserem que sim
então
seguramente
ali não é
não»

E mais me disse o velho
por fim
antes de partir:

«Com um pouco de ventura
encontramos a felicidade
em qualquer lugar
mas preciso sim
é investir
enquanto a sorte dura»

Olhei à roda
e vi
uma porta entreaberta
de que antes me não dera conta
e entrei
com a confiança
de um aprendiz

Na esperança
tonta
de que naquele descampado
ermo
silencioso
isolado
estaria destinado
a ser feliz