Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Tropeço no silêncio cósmico




Num dia-noite
escuro
chuvoso
e frio

Tropeço no silêncio cósmico
caio
mas levanto-me

Venço o medo
retomo o caminho
com a Razão a sangrar

Paro
por fim
no umbral do Tempo
esgotado o Espaço
à entrada do Templo
e grito:
-« Eu não reconheço
nem aceito
a morte!
Sou ou não sou filho de Deus?»

Só o eco da minha voz
chega até mim

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um pingo de água




A torneira do bidé
da casa de banho anexa
ao meu quarto de dormir
pinga
pinga
pinga
pé ante pé
como se fora autentica tortura chinesa

Pinga angústia
está alagar-me de ansiedade
e a abalar os sólidos alicerces da minha fé
indefesa

Já a observei de todos os ângulos
e perspectivas
tentando descobrir um parafuso por onde lhe pegar
para a desmachar
e reparar a avaria
mas sem sucesso

Já contactei vários picheleiros
mas ainda nenhum apareceu
nem ninguém que melhor que eu
ajuíze

Temo agora que o pingo vá aumentar
de intensidade
ganhar caudal capaz inundar toda a casa
e aumentar a factura da água para valores incomportáveis
neste tempo de crise

A torneira do bidé
da casa de banho anexa
ao meu quarto de dormir
pinga
noite e dia
não me deixa dormir
e quem não dorme
também não será capaz de sonhar

Será possível que alguém
olhe para isto com poesia?

Safa!
Ainda bem que acabo de acordar!

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Tic-tac-tic-tac




Há luz difusa
e silêncio surdo
à minha volta
em dia enublado

Um ruído de fundo nos ouvidos
que diria
me chega do Cosmos inteiro

Vejo imagens exteriores
esborratadas no nevoeiro
e é frio o aroma das flores no canteiro

Sobressai o tic-tac
pendular

A horas certas o cuco desperta
e da janela aberta
faz cu-cu…cu-cu…cu-cu…

As notícias chegam velozes pela internet
no meu coração instala-se uma angústia larvar

Tic-tac… tic-tac… tic-tac…

Estouram centrais nucleares
e bombas atómicas

Tic-tac… tic-tac… tic-tac…

A Humanidade suicida-se
com um saco de plástico
enfiado na cabeça

Sinto-me só
na Terra deserta

Se o cuco fosse gente
faltaria uma mulher
ainda assim
para sermos uma tripeça

Tic-tac… tic-tac… tic-tac…

A minha cabeça quase estoura
dou em maluco
cu-cu…cu-cu…cu-cu…
também

Oh, gente!
Grito
não haverá ninguém que o impeça?!
alguém capaz de partir o bico
a esse cuco maldito?!

Tic-tac… tic-tac… tic-tac…

Apenas já só o cuco
em alvoroço
me responde
mas rápido se esconde
com medo de que alguém
o vá esganar

Tic-tac… tic-tac… tic-tac…

Já não há ninguém
eu próprio lhe torço o pescoço

Tic…tic…tic…tic…

Apenas falta uma mulher
por fim
para formarmos
um par

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ora aqui, ora além, a orar




Por veredas e caminhos rurais
pedregosos
que ora sobem
ora descem
sinuosos
exercito músculos
tendões
e articulações

Caminho
com o cérebro a comandar
e lembranças da infância
em surdina
a chamar

Com o espírito ora aqui
ora ali
ora além
a orar
saudade

Por sítios do passado
a que voltarei
sempre
nunca
nem sei
jamais

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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Toda a poesia é de amor














A poesia épica
que canta os maiores feitos da História
de que há memória
é um hino
ainda assim
ao triunfo do amor

Que o digam a Ilíada
a Eneida
o Mahabharata
os Lusíadas
ou a Divina Comédia

E de que trata a poesia dramática
senão da dor
e do amor?

A poesia poderá ser épica
cómica
lírica
trágica
ou dramática
que sempre fala de amor

Porque a poesia é grito de verdade
prova de fogo de fé
e de liberdade

É a poesia
que mantém
o homem
de pé

Toda a poesia é poesia de amor
e a que o não for
é só azia
aleivosia
de poeta impostor

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Introdução à Eternidade




Com a Razão
pensamos as ideias
a meias
com as imagens
que nos vivem no coração
mensagens
ou não
de ilusão

O Infinito
é um lugar tão distante
que demoramos uma Eternidade
a lá chegar

E é lá
por certo
que mora a Felicidade

É uma infinitude de futuros
de uma só virtude
a Verdade

Um passado
eternamente
recordado

São milhares de aléns
com um único fim:
a sorte
da morte
ainda assim

O infinito é eterno
o eterno é infinito
verso e reverso
do Absoluto
em que se anula o universo

Diminuto seria o Absoluto
que esmaga a Razão
sem a dor
o amor
a ilusão
que dimanam do coração

O Infinito
é um lugar tão distante
que demoramos uma Eternidade
a lá chegar


Eu moro perto
porém
bem pertinho
até

Num lugar pequenino
infinito de eterno amor
e sem fim
aberto dentro de mim
pela fé
e pela dor

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Se te perguntassem se gostarias de não ter nascido, que dirias?




Se te perguntassem se gostarias de não ter nascido,
que dirias?

Eu diria que sim
que não,
já que sofrer, nem ver
ainda que haja quem diga
que a vida
é uma ilusão

Por maior que sejam o poder
e a glória
por muito me encante
e ame a vida
agora
que vivo

E se me perguntassem se gostaria de não morrer
diria que sim
que não
por preferir continuar
a sonhar
e a amar
sem outro motivo

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Usemos as palavras como pedras




Usemos as palavras como pedras
para construir casas e castelos
templos
poemas e pontes

Palavras de paz e de amor
pedras de xisto
de granito
de mármore
ouro
ou diamante

Usemos as palavras como pedras
para doirar o sonho
moldar o carácter
montar mesas de comunhão
declarar a paixão
a uma amante
esculpir estátuas
e erigir a Cruz de Cristo
nas trevas

Usemos as palavras
como as pedras que são embaraço
e se lançam fora
ou se calam
para aliviar o coração
e estender
a mão
a um abraço

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

WC




Muitas deslavadas
ideias de poemas
surgem-me na casa de banho
vulgo wc
enquanto me lavo, afeito, barbeio
e amanho
ou faço coisas menos perfumadas
já se vê

Quando me vejo ao espelho
e reparo que um certo “eu” me olha
poético
patético
olhos nos olhos
em silêncio
ou me dou conta que mais um cabelo caiu
que uma nova flor de ruga floriu

Há pensamentos que batem no vidro
e se reflectem em retorno
como se de meras imagens se tratasse
e vêm refractar-se
em mil cambiantes de angústia
no espelho embaciado da alma

Mas quando alguma ideia mais angustiada
cheira mal que tresanda
ou me causa dor
lanço mão do vaporizador
e purifico o espírito e o ar
com borrifos de lavanda

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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Porque a vida é uma batalha perdida




Apraz-me caminhar sem destino
em espaço aberto
sem saber ao certo
aonde me leva o caminho
nem mesmo se regresso

Andar a esmo
à sorte
às voltas a mim mesmo
pelo verso
pelo anverso
e de reverso
sem tempo
sem norte
nem tino

Indiferente ao sol
à chuva e ao vento
com o pensamento disperso
no mundo da poesia
meu modo de viver
crisol
do meu entendimento
farol
do meu acreditar

Porque a vida é uma batalha perdida
que é preciso ganhar
sendo a morte o reverso da medalha
que não podemos perder

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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Uma mesma utopia, a poesia!




Será reflexo do passado
eco do futuro
desejo imaturo
estranho sortilégio
desígnio divino
humano privilégio
sopro do corpo
apelo de espírito
ou pensamento proscrito?

Aquilo que nos anima e aproxima
e nos põe a falar
ao sabor do vento
afastados no espaço
unidos num abraço
sincronizados no tempo

Mesmo sabendo que nunca
mas nunca
nos vamos ver
nem tão pouco encontrar
seja lá onde for

Mesmo assim dá para entender

É a mesma vontade de dar
e de amar

Um mesmo Amor

Uma mesma utopia

A poesia

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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Arroz doce




Ocioso
refastelo-me no sofá
da sala de estar interior
do meu ser
à espera que me chamem
para jantar

Não tarda adormeço

Mas o meu acordar será feliz
com vapores de arroz doce
delicioso
acabadinho de sair da panela
a acariciarem-me o nariz
odorado de rosmaninho
e polvilhado de canela

Por instantes sinto-me um anjo

Um anjo, sim
empoado de poesia
e pozinhos de perlim pim pim
ao som do cristalino estralejar
de estrelinhas de fantasia

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Vou continuar à espera do sinal




Vou continuar à espera
do sinal

Venha ele de dentro
ou de fora

Seja sorriso
sussurro de vento
abraço apertado
compromisso de olhar

Talvez fenómeno inesperado
ideia viva
lampejo de luz
que ilumina
cativa
seduz
e faz acreditar

Talvez testemunho
de alguém
que também continua à espera
por sinal
do sinal
fogo de amor no coração
fim da dor
chama de Iluminação

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Vou deixar de escrever




Já ninguém se faz ouvir
sem gritar
e quem olha
não vê

Quando escrevo
já não digo nada
e ninguém me ouve
mesmo se acaso alguém me lê

Vou controlar a minha ânsia de escrever
limitar-me-ei a ler

Porque quando leio
ouço tudo
até demais
e escrevo ainda mais
do que quando apenas escrevo

Mas serei eu capaz
de me ouvir
a mim e aos outros
no seio da tempestade
no ruído do mundo
no burburinho da cidade
se me calar
se também eu não gritar?

Serei capaz de fazer saber ao Cosmos
que existo
e estou aqui
se não escrever?

Irá a morte ouvir-me se não lhe gritar
que não quero morrer?

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Sopros de vento celeste




À ida
deixo poemas
e os rastos dos meus passos
impressos no pó do caminho

À volta
já a brisa do fim da tarde
alisou as arestas dos meus rastos
e outros transeuntes os pisaram
e deformaram

Mas será a chuva telúrica
a apagá-los definitivamente
dissolvendo o pó em lama

Poderiam ser maciços graníticos
piramidais
erguidos anónimos
no deserto
que teriam o mesmo fim
embora mais lenta fosse a agonia
ainda assim

Mas os meus poemas são indeléveis
imprimem o meu espírito nos rastos dos cometas
e das estrelas cadentes
que na imensidão do Cosmos traçam
o devir

São sopros de vento celeste
em que acabarão por se diluir

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sábado, 9 de fevereiro de 2013

À procura de um nada que tarda




Sou ninguém

Alguém que caminha
ao cair da tarde
por chão atapetado de pétalas
de flores de tílias
perfumadas
à procura dum nada
que tarda

Maior glória ninguém poderá sentir
que derramar paz e amor
por onde passa
se ainda acrescer o silêncio do mundo

Só assim livre
a minha angústia poderá partir
voar
e ser amanhã

Nada mais me poder perturbar
ainda mais

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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A verdade nua e crua




Não!

Não és tu que voltas
nem é a ti que reencontro

É a minha memória
que ainda te não deitou porta fora
que ainda te não pôs na rua

A ti nunca te conheci
assim
como
hoje
és

Nem eu sou o que fui
outrora

Hoje sou outro
sou diferente

Tu és o passado
eu sou o presente

Nós nunca nos conhecemos
e dificilmente nos voltaremos a conhecer

Nem vamos reiniciar
nada de novo
não importa chorar

Agora
és só actriz secundária de um filme mudo
de reposição
em que o matraquear da máquina
manual
é o bater surdo
do teu coração

Um filme que revejo
na pequena sala de cinema
da minha lembrança
mergulhada na obscuridade
da solidão

Pediste-me a verdade
sem fantasia

Dou-te a versão
nua e crua
da poesia