Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sexta-feira, 29 de março de 2013

PAZCOA





Apenas sei de Jesus
o que a História me ensina
mas a luz da Sua doutrina
que me ilumina o coração
neste tempo de perturbação
em que o mundo desespera
ganha cósmica dimensão

É o Cristo do Advento
o Cristo de quem espera
do amor que não esmorece
da Páscoa que acontece
em cada Primavera

É o Cristo da Kenose
o Jesus da Parusia
dádiva total
de Amor e alegria

É o Deus de quem resiste
e de amar não desiste
nem de em paz viver

É a fé verdadeira
a esperança derradeira
de que um dia
deixaremos de sofrer
e libertos de todo o mal
havemos de nos salvar




quinta-feira, 28 de março de 2013

Deitei-me nu com a minha amada nua




Naquela leda madrugada
deitei-me nu
com a minha amada
nua
despidos de tudo
vestidos de nada

O amor nos despiu
de nós
a sós
a sonhar
e a Lua
nos vestiu
de luar

Ela envolveu-me com sua pele
de mel
e eu cobri-a com a minha
empoada de farinha
fluorescência
da inocência
que nos iluminou
em eterna fantasia

O Sol não se deitou
nesse dia

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quarta-feira, 27 de março de 2013

Poema impresso no pó do caminho




À ida
deixo poemas
suspensos no ar
e os rastos dos meus passos
impressos no pó do caminho

À volta
já a brisa do fim da tarde
lhes deu descaminho
desemaranhou os dilemas
e alisou as arestas dos rastos

Outros transeuntes vieram
os pisaram e deformaram
mas seria a chuva telúrica
a apagá-los definitivamente
dissolvendo o pó em lama

Poderiam ser maciços graníticos
piramidais
anónimos
erigidos no deserto
que teriam o mesmo fim
embora mais lenta fosse a agonia
ou mais funda a chaga
ainda assim

Mas os meus poemas têm o meu rosto
são os rastos indeléveis dos meus passos
que ninguém que preste
apaga
mesmo se os ignora
e não lê

Encontram-se
permanentemente
a perderem-se
na imensidão do Cosmos
e só o vento celeste
os dilui na eternidade

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terça-feira, 26 de março de 2013

A pensar na vida




Mais um dia
mais um momento
em que me predisponho a pensar a sério na vida

Venho fazendo isto
sistematicamente
desde que me dei conta que sou gente
embora aparentemente
nos outros dias
não deixe de me preocupar

Sem nada
até hoje
concluir

Talvez chegue a uma conclusão
desta vez
quanto mais não seja que tudo está fora do alcance da Razão

Mas eu não sou agnóstico confesso
e até professo a doutrina de Cristo

Embora sinta
por vezes
vontade de me rebelar
de mandar tudo à merda
e considere pura perda
estar assim me martirizar

Mas acabo sempre por me humildar
e caminhar sem tino nem destino
de cabeça cabisbaixa
ao sabor do vento
por caminhos traçados por montes e vales
inteiramente mergulhado na Natureza
e subjugado às forças telúricas e cósmicas
que assim livre sobre mim melhor se fazem sentir
impondo-me o seu norte


Até à hora em que são horas de demandar ao jantar

É então que sinto o estômago falar mais alto que e Razão
e no coração melhor ouço a voz interior
que me segreda que a minha mente é sim insuficiente
demente
mas que não me importe

No coração palpita o espírito
que acende um calorzinho interior a que se chama amor

E aí
sem ter que pensar
encontro explicação para tudo
até para a morte

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domingo, 24 de março de 2013

A mais obscena das palavras





Onde ponho as mãos
e o olhar
tudo transformo em poesia
por via do amor

As flores
sou eu que as crio

A luz das estrelas
sou eu que a acendo

A paixão das mulheres apaixonadas
sou que a incendeio

O sorriso das crianças
todas as esperanças do mundo
sou eu que as rasgo

Respiro poesia
como poesia
transpiro poesia
transformo em poesia a própria dor

Há uma palavra, todavia
que não ouso pronunciar
nem tão pouco de rimar
com poesia

É a mais obscena de todas as palavras:
-  A palavra odiar

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sábado, 23 de março de 2013

A verdade…é que…




A verdade…
é que a fraga informe
se não transforma em estátua
só pela acção do vento
da chuva
e do tempo

A verdade…
é que só no reino da fantasia
a estátua ganha vida
por um sopro de magia

A verdade…
é que não basta sonhar
para a obra se erguer
é preciso suar

A verdade…
é que não basta esperar
para o homem se converter
e em santo se transmutar
é preciso porfiar

A verdade…
é que não basta morrer
para o espírito livre
se salvar

A verdade…
é que é preciso querer
viver
sofrer
e muito amar

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sexta-feira, 22 de março de 2013

Anamnese




Há um quadro inclinado
dependurado
no mural da minha memória
que me apraz deixar assim
empoado
contrastando com as colunas jónicas
que alicerçam a lembrança

Um evento supenso no tempo
uma efeméride efêmera

Uma quimera
de que já nada se espera

Um amor que se diluiu em dor
até se esquecer

Um afecto pendente
para sempre
a fazer-me lembrar que a história
se não faz de memória
mas de esquecimento

Esquecer não é apagar da recordação
é varrer do coração

Anamnese é a exegese
de uma paixão

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quarta-feira, 20 de março de 2013

A Poesia é a coisa mais reles que existe





Não dorme
não come
não descansa

Dança noite e dia
passa de mão em mão
num permanente afobo
vai para a cama com toda a gente
e anda na boca do povo

Então agora com esta coisa de Internet
é um desaforo
é demais

A coisa mais reles que existe
é a poesia

A toda a hora ela aí está
a saltar de continente
para cá e para lá
entre portugueses e brasileiros
e outros forasteiros
tudo gente demente

Tenham dó!

São milhares que se envolvem
com as poesias
e se entregam a confidências
dislates
disparates
até a traições matrimoniais, vejam só!
e a outras tantas fantasias

É demais!
A coisa mais reles que existe
é a poesia

Se a poesia fosse mulher
eu casava com ela

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terça-feira, 19 de março de 2013

Ando passeando a minha angústia pelos campos




Ando
passeando
a minha angústia pelos campos

Esta angustura constitucional
que me amargura
sem saber de onde vem

Caminho
tentando encontrar a causa
dentro de mim
e mais além

Terá origem endrócrina
química
alguma glândula que esteja a funcionar mal?

Será um vento cósmico
um sopro divino
no meu destino?

Sei lá!

Nem me importa
por ora
saber
ser poeta é viver
nesta condição
de angústia global

No dia em que deixar de a sentir
por certo
irei
parar

Para morrer
ou me salvar

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domingo, 17 de março de 2013

Sempre que Deus trabalha fora de horas




Sinto
por vezes
que Deus trabalha fora de horas
a reescrever o poema da Criação
à luz das velas
que são as estrelas

E pressinto
que assim
se reflecte em mim
a divina meditação

A noite mergulha no mais puro silêncio
numa absoluta quietude
de feérica beleza
um manto de virtude
intemporal
estende-se sobre a Natureza
e o Firmamento ilumina-se
de um brilho sobrenatural

Pela janela do Cosmos
que o Criador deixa entreaberta
entra o vento do sofrimento
da Humanidade
convertido em oração
e que faz as estrelas
bruxulear

É a hora do poeta
despertar

Toma-se-me o coração
da mais doce soledade
o meu espírito voa no Universo
acrescento mais um verso
ao poema da Criação

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sexta-feira, 15 de março de 2013

Profissão de Fé




Esta certeza interior
é do tamanho da minha própria Fé

Nem o Pai
nem o Filho
nem o próprio Espírito Santo
me darão tratamento preferencial
na Terra como Céu
nem me tornarão imune a qualquer doença
tragédia, calamidade ou mal
nem me nomearão para um cargo governamental

Nem me libertarão de ser eu
a ganhar o meu próprio pão
com o suor do meu próprio rosto
e não deixarão de me olhar
como a todos os mortais
com a mesma distância cósmica

Mesmo que muitos achem ridícula
esta minha Fé
não deixarei de acreditar no Pai
no Filho
no Espírito Santo
em Jesus Cristo
na Virgem de Fátima e nos Santos

Nem deixarei de respeitar
outras crenças ou indiferenças
de manter uma esperançosa espera
na afirmação da Paz, do Amor e da Verdade
sobre toda Terra

Sem fanatismo ou acintoso proselitismo
sem subserviência a igrejas ou ritos
sem procurar conflitos

Porque sinto que só pela via da Fé
sem condição
me poderei transformar
e cumprir a minha divina vocação
de me aproximar do Absoluto


Nota: Este poema também está presente em vídeo no Youtub:


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quarta-feira, 13 de março de 2013

Porque nos aprisionou na Terra, o Criador?




Porque nos aprisionou na Terra
o Criador
nesta gaiola azulada
dependurada no Sol
e que balança ao sabor dos ventos do Cosmos?

E porque nos alimenta Ele
com dor, angústia e sonho
encerrados nesta diáfana redoma atmosférica
que apenas os raios de luz
e a imaginação
transpõem
e nos projectam no Espaço incomensurável
rasgando-nos a Razão?

Para nos ouvir cantar
certamente

E para que sejamos nós a aprender
a voar!

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terça-feira, 12 de março de 2013

Que seja já amanhã o futuro




Males e vícios
perdem-se
na origem dos tempos

As virtudes
já só se encontram
nos confins do futuro

O presente
exacerba-se

Sinais claros
de que a Civilização caminha
para o fim

Que seja já amanhã
o futuro

E o passado
logo depois

Ou melhor será
olvidar

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domingo, 10 de março de 2013

Sou poeta porque sou um homem só




No sentido em que tenho um mundo imenso
dentro de mim
que é só meu
em que toda a minha vida se concentra
e onde ninguém entra
sou poeta porque sou um homem só

E porque é este mundo que eu quero dizer aos outros
por poesia
sou poeta porque sou um homem só
embora tenha milhares de amigos
leitores e admiradores
viva feliz
e bem acompanhado

Por isso me expresso por mil poemas
metáforas
dilemas
uso heterónimos
exorcizo demónios
visto a pele de heróis imaginários
imagine amores
amantes
e fadários

Sou poeta
porque sou um homem só
um cavaleiro andante
no reino da fantasia

A palavra é a aminha lavra
a poesia a minha lança
rutilante

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sexta-feira, 8 de março de 2013

A paixão segundo Platão




Sentei-me de costas para o Sol
sob o caramanchão de buganvílias perfumadas
com ideias estudadas
projectando em Eunice
que me olhava de frente
a sombra da minha paixão

Assim seus lábios carmim
melhor se abriam para mim
acesos em desejos de beijos
embora o seu olhar de deusa
a sua voz maviosa
o seu rosto cor-de-rosa
irradiassem apenas pureza

Líamos o Livro VII da República
retendo-nos no Mito da Caverna
em procura de uma interpretação moderna
original e amorosa

Foi assim que encontrei uma leitura diferente
vendo Eunice  reclinada
bela
sentada à minha frente

Inspirado pela luz da sua formosura
certamente
que nenhum prisma passional refractava
e que me iluminava
com ternura
enquanto que a sombra
que eu sobre ela projectava
não vinha directa do Sol
tinha origem em mim

Era o reflexo da minha paixão
o revérbero do meu amor-próprio
refractado em todas as cores
do espectro do egoísmo
e que se irisava de desejo
ciúme
vaidade
posse e domínio

Mas de Eunice eu recebia
a luz pura do Amor
e da Verdade
que trespassava a limpidez do seu coração
por isso Eunice
não entendia bem
Platão

Não lhe revelei os meus pensamentos
na altura
para não ter de a fazer corar
e para eu não me envergonhar
de tão ousada inventiva

Por isso só agora
que já me não liga a Eunice o desejo
que só raramente a vejo
e já não projecto nela  a minha sombra lasciva
mas a amo de verdade
lhe remeto esta poesia

Certo de que a receberá ainda a tempo
de ensinar aos seus alunos de filosofia
que a luz de que Platão falava
na sua genial alegoria
era a luz do Amor

Enquanto que a paixão
é a sombra do amor-próprio
a ilusão
irisada
refractada
nos prismas do coração

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