Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

As estrelas



Vivo no campo
confrontado com o encanto
do Cosmos e da Natureza
noite e dia

De dia é o Sol
que desde a aurora
com esplendor e beleza
me desafia

À noite são as estrelas
e é a Lua
que de amor estua
e me alumia
de soledade

As estrelas estão lá no Céu
no regaço do Universo
cobrindo todo o espaço
com seu véu
de luz e verso
e espiritualidade

Pequeninas
bruxuleantes
a chamar por mim

Lá no Firmamento
sem fim
a espevitar o meu pensamento

Pequeninas e distantes
a dizerem-me ainda assim
o que nem sei
imaginar


Por mais que ande
só serei
verdadeiramente grande
quando as alcançar

terça-feira, 30 de julho de 2013

Uma amante por Estação



Tão pródiga é a nossa Mãe Natureza
Que em cada época a todos avia
Com flores e frutos da maior beleza
Que enchem as nossas vidas de alegria

Mas se houvesse uma maior justeza
Para o homem viver com mais harmonia
Teria as mesmas benesses, com certeza
Mas mulher mais ajustada por companhia

Uma amante distinta por Estação
De corpo e alma adaptada ao clima
Sendo leve, fresca, airosa no Verão

Com a Primavera, a romântica rima
No Outono, convém, o fogo da paixão

Já no Inverno, a fogosa, mais anima

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Amar de novo



Abraçam-se

Beijam-se
e amam-se
como se fossem únicos
na Terra
como se houvesse só aquela cama
e estivessem sós no Sistema Solar

Não tinham dúvidas
de que não existia mais ninguém
nos restantes planetas
nem se importavam com isso

Estavam de facto sós
na companhia um do outro
e entregues à sorte do seu amor
no sistema solar da sua paixão

Na sua cidade, porém
havia mais homens e mulheres
que moravam na mesma rua
mesmo a seu lado

E havia muitos mais na Web
nos cinco Continentes
na Terra inteira
nas esquinas da vida
nas estradas da insatisfação

Sem limites de velocidade para a dor
ou para a desilusão
era só a acelerar
sempre
sem parar

Por isso, quando arrefeceu o ardor
desencontraram-se numa nova paixão
que não se previa

Será que um dia
se reencontrarão num novo amor?

Numa nova
e mútua paixão?

Que voltarão a amar-se de novo?


E porque não?

domingo, 28 de julho de 2013

Amar é mais que isso



Ainda na aurora da puberdade
nem sabíamos bem
o que mentira e verdade
eram
ou viriam a ser

As primeiras chispas
vi-as no seu olhar
embora eu não visse
as que saíam do meu

Embora ela me dissesse que os meus olhos
faiscavam
amor
embora talvez ela as confundisse
com centelhas
de desejo

Certo que o ensejo
dos primeiros choques eléctricos
os experimentámos no toque das mãos

Depois
depressa percebemos o embaraço
mais forte
do abraço
e já deslumbrados sentimos que os lábios
sempre que se uniam
disparavam faíscas

Passámos então a divertir-nos
a provocar relâmpagos
tocando as pontas das línguas

Até que o meu corpo
e o dela
em perfeita conexão
se envolveram em fantástica tempestade electromagnética
com os músculos e nervos em convulsão
electrocutados
e os espíritos em frenesim

Foi assim
que aprendemos a gerar
energia suficiente para iluminar
toda a cidade

E tantas vezes as lâmpadas se acenderam
e apagaram
que acabámos por descobrir
já à míngua de novidade
que amar
é mais que isso
muito mais que química
ou electricidade

É o acender de uma luz suave
no fundo da alma

Muito mais do que soltar relâmpagos
na ponta da língua


É força anímica

sábado, 27 de julho de 2013

Apascentando estrelas com o olhar



Alcanço
por fim
o topo da colina
espaço a mim circunscrito

O aroma do alecrim que ladeia o caminho
trazido pela brisa
penetra-me  o espírito

A Lua
ali está
esplendorosa
cheia
cristalina

Pousada no horizonte
ao alcance da mão
a tocar-me o coração
já com estrelas a cintilar
em seu redor

O som estridente das cigarras
é agora ensurdecedor

O Sol
que espanta as estrelas
durante o dia
à noite deixa-as viver

E empresta luz à Lua
para a Lua derramar
em luar

Deixo-me por ali ficar
apascentando estrelas

até o Sol nascer

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Amarei no seu mar de amor



O seu coração
era uma ilha
no mar da minha solidão

Onde eu poderia amarar
para a amar
sem temor
mas não sabia

Oh, como fui demente
não a vendo
sofrendo
de amor
por mim
entre tanta gente!

Mas agora que a vejo
e desejo
e a sei pura
e linda
e a sua candura
me encanta
amararei
por fim
nesse seu mar de amor

E a amarei
assim
para sempre

Terna

e eternamente

terça-feira, 23 de julho de 2013

A poesia não é nada nem ninguém



A poesia é um sopro
o borbulhar na superfície da consciência
de mil humores desconhecidos que nos fervem na alma
e no corpo

E os poemas
são borbulhas de sonhos
de afectos
de desejos
que rebentam em palavras
e expelem harmonias e cores
muitas vezes descompassadas
descoloridas
e que nem ideias são

Bolhas que poderão salpicar outros espíritos
e correr mundo
ou simplesmente implodir em angústia

Porque nem toda a poesia almeja ser poema
ainda que seja latente tal sonho

A poesia é como uma mãe
que se amamenta a si própria
e derrama mel
e leite
e fel

A poesia é uma mãe
e os poeta filhos pródigos

A poesia não é nada
nem ninguém

é uma coisa como outra qualquer

domingo, 21 de julho de 2013

Aquém e além da morte



Aquém da morte
é a vida

A certeza da dor
e a incerteza do amor

O prazer
e a alegria fugaz
a procura da paz
o recurso ao sonho
e à fantasia do futuro risonho
o constante construir da saudade

Além da morte
é o além
da vida
sofrida

a esperança de eternidade

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A cor da minha sombra



Caminho em direcção ao Sol

A minha sombra segue-me
persegue-me
vem atrás de mim
irritante
colada a meus pés
incolor
enorme
disforme
rastejante

Rodopio

Volto as costas ao astro rei
tomo o caminho de sentido inverso

Mas a minha sombra passa-me à frente
repassa-me
sem desvio
em desafio

Se danço ela dança
se paro ela para
se corro ela corre
tão veloz quanto eu

Piso-a
trepo-a
pontapeio-a

Ela foge ao ritmo dos meus pés
sempre colada ao chão

Gostaria que ela se levantasse
e me enfrentasse
para eu poder ver
quem sou

Mas é o meu temor que me assombra
o meu medo
o meu receio
esta amargura
imerecida
que mora no meu coração

E o que eu mais queria era ser transparente
ver-me por dentro
sem as sombras de angústia
que me turvam
a vista

E que fosse luminosa como o Sol
a minha sombra

Colorida
da cor
do amor
reflexo da minha vida
Por isso
a poesia
é a cor da minha sombra
a sombra da minha alma


Por isso escrevo um novo verso
a cada passo
que passo
passo a passo
a um novo poema

Canto uma nova eufonia
caio em novo dilema
recito uma nova oração


Só assim o meu espírito se acalma

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O amor em tempo de crise



Felizes são aqueles
que ousam alcançar
suficiente luz para ver
não tanta para se deslumbrar

Calor suficiente para se aquecer
sem se queimar

O som certo para bem ouvir
sem ensurdecer

Pão quanto baste para se saciar
não em demasia para se não empanturrar.
Talvez um pouco mais
para que possam matar a fome
a quem por nada ter
nada come

Paixão suficiente para viver
sentir prazer
e alegrar o coração
sem perturbar a razão

A justa alegria para se animar
sem a ninguém humilhar

E Amor
amor sem medida
para que sem medida

amor possam partilhar

terça-feira, 16 de julho de 2013

Ao ritmo do que me vai no peito



Martelo palavras sem jeito
ao ritmo do que me vai no peito

Teclo por teclar
sem pauta nem rima
é a angústia que me anima

Sentimentos sem razão de ser
sem tegumento
que se me enrolam no corpo
como sarmento de videira

Quiçá sopro de vento divino
que me embriaga como vinho
a vida inteira

Sou um cálice
transbordante de poesia
poção efervescente de fantasia

Bebo
o meu próprio sangue
e exangue
continuo a cantar

Até que adormeço
na esperança

de tornar a acordar

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A razão de tudo ser



Parto do tempo que conto
e do espaço que ocupo

Da dor que sofro
da verdade que desconheço
do infortúnio que não mereço
da felicidade que anelo

Na minha Razão o tempo
vira Eternidade
e o Espaço
infinidade

No meu Coração
a dor vira Amor
e eu
irmão de toda a gente

E Deus
absolutamente

a Razão de tudo ser

sábado, 13 de julho de 2013

Palavra de poesia



A ideia
é a semente
que o Espírito semeia
na Mente

E que o homem cultiva e lavra
para produzir a Palavra
a forma mais explícita
de comunicar
seja dita
ou escrita

Com a Palavra
acendemos a luz da Comunicação
pura
estendemos a mão
ao nosso irmão
e assim se induz a Cultura

E se a Palavra é dita
ou escrita
com ternura e Alegria
e lhe juntamos um pouco de Fantasia
então

acontece  Poesia

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Acabaram-se as metáforas



Os pensadores modernos ainda acreditaram
durante algum tempo
que a globalização seria uma gigantesca metáfora de esperança
geradora de mais e mais metáforas de felicidade

Sabe-se agora que tudo não passava de uma monumental obscenidade
que se pulverizou em versos malditos
nas lavras de palavras obscenas
de poetas proscritos

Acabaram-se as metáforas!

A indústria nacional do sector faliu
e nenhum outro país de língua supostamente portuguesa
está capaz de as produzir

O problema parece ser ainda mais grave
porquanto em nenhuma parte do mundo há metáforas disponíveis


A Humanidade parece assim condenada a deixar de sonhar
a comer pedras e a beber mijo

No ar só já voam os aviões particulares dos machuchos árabes
e angolanos
e no mar só já navegam os iates dos barões da droga e dos traficantes de armas

Nas escolas apenas se recitam poemas marciais de Kim Jong-un
e se estudam discursos de Fidel Casto

Extremistas muçulmanos passeiam-se livremente
no Quartier Latin
com diademas de explosivos
Mahmoud Ahmadinejad serviu caldeirada de bombas atómicas na festa do seu aniversário
e a China continua a invadir a Europa com sucessivos tsunamis de lixo

O Departamento de Defesa americano projecta colocar um chip
no cérebro de todo o ser vivente
e o Pentágono planeia atacar a Suíça

Na Europa só já há olhos para o “pas des deux” da senhora Merkel
e do seu ministro Wolfgang Schäuble
e em Portugal os partidos políticos ganharam, por fim
o estatuto de nobres associações de mal feitores

O triunfo do niilismo mais radical é inevitável
o fim da Civilização aproxima-se

E depois?
Teremos que começar tudo de novo
Reconstruir um novo Mundo
Restaurar a Humanidade
Reinventar a democracia
Reescrever uma nova poesia
Tomar a sério o Papa Francisco

Sem metáforas
tropos
trapos
metonímias

e outras pantominas

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Esta forma de dor vale a pena sofrer




Passa leve
graciosa
envolta em sedução
perfumando o ar
e inundando o mundo de alegria
com a luz do seu olhar

Só a mim não me dá atenção
por teimosia

Tão pouco me sorri
maldosa
que nem uma rosa
que teima em tudo deitar
a perder

Todo o amor
que nela projecto
se reflecte em dor
no meu coração
inquieto

Não a tive e já a perdi
porque tê-la não consigo

Será que me ama
sabendo-me infeliz
e mais me faz sofrer
só porque nada me diz?

Se assim é, então lhe digo
com simpatia
neste poema breve e leve:
«Esta forma de dor
«vale a pena sofrer
«só para te poder amar
«e continuar
«a escrever

 «poesia!»

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A poesia só tem sentido porque a vida o não tem



A poesia só terá sentido
se o poeta ousar procurar
a razão de ser
e de sofrer
a melhor forma de bem-fazer
e de mais amar

A poesia só terá sentido
se o poeta jamais se der por vencido
se com seus versos a si se libertar
e a mais alguém
der liberdade
também

A poesia só tem sentido
porque a vida o não tem

A poesia perde a razão
se ousar esquecer

o coração

terça-feira, 9 de julho de 2013

A última noite que dormi com ela



Agora sim
sei

Na última noite que dormi ela
ela já não estava mais
ali

Embora tudo tenha feito
para que eu não a pudesse esquecer
jamais

E passasse o resto da vida a sofrer
por ela
rasgando-me esta chaga no peito
que continua por sarar
e a doer
demais

O anjo adorável
que havia sido
até então
meiga
amável
e verdadeira
naquela noite derradeira
transfigurou-se em Medusa
numa permanente companhia intrusa
que me persegue para toda a parte

Numa mulher ultriz
dona de toda a arte
numa matrona
meretriz

Os beijos e abraços
a inebriante sofreguidão
os gritos de prazer
que coroaram o seu último orgasmo
foram só afinal
o estertor do amor
espasmo da paixão
alvor da vingança

Acto sexual que para meu mal
ainda hoje sinto
e oiço
em surdina
me baila na retina
e sempre se insinua nos meus desejos
como brasa acesa na lembrança
tição incandescente
cujas cinzas escaldantes
continuam a escaldar-me

o coração

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Amantes de cristal



Só sabiam amar-se, assim
envoltos em véu
de fantasia

Com as estrelas a cintilar
no céu
pairavam em silêncio
no Firmamento
de mãos dadas
e de rostos irisados
de prateada alegria

Ou vogavam como cisnes
ao sabor do vento
no lago da poesia
num sonho de fadas
em noite irreal

Eram sombras de luar
amantes de cristal

Até que um dia
a paixão do Sol
pecado alado
os abraçou
envolvendo-os no lençol do desejo
logo ao primeiro beijo

E não tardou
que o sonho de amor
se quebrou
num golpe inesperado
tilintando de dor

Eram amantes sem mal


De cristal