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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Basta-me o teu olhar



Basta-me o teu olhar, sim, para começar
Que não me ignores e não fujas de mim
Ainda que se tu de mim foges, assim
Mais esperanças me dás, de me vir a amar

Se eu te olho com olhos de encantar
É só porque te quero bem, sem outro fim
Olha-me com olhos de quem está afim
E então, sim, ver-me-ás sorrir e cantar

E se teimares em fugir, em não me ver
Nem mesmo assim tu me farás desistir
Apenas aumentarás, cruel, meu sofrer

E se temes que eu esteja a mentir
Pára para me olhar, para perceber

Que o que sinto, não dá para iludir

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A mulher não é flor que se cheira




A mulher não é teta
nem ventre
nem vagina
nem coxa
nem bunda
ou flor que se cheira

Tudo isso é treta

A mulher é mãe
esposa
filha
tia
irmã
avó
amiga
amante

Ou só cidadã
casada ou solteira

Sem ela
o homem
nem sequer seria

A mulher é amor
é tristeza e dor
alegria e pena
sonho
poesia
Virgem Maria

O Homem-Deus sem Ela
não existiria

Sem a mulher
o amor
se acontecesse
não teria sabor
e seria
pela certa

monocolor 
 
in "Mulheres de Amor Inventadas"

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Ápex






Passo horas assim

Quieto

Bem desperto

Em decúbito dorsal
fitando o tecto
do Firmamento

A brisa suave que me afaga por fora
transforma-se em vento
por dentro

Mesmo com o céu encoberto

Embrenho-me em recordações
em dilações do tempo
dou volta ao mundo

Suspendo vida

Uma estrela cadente
perdida
passa célere
ante meus olhos

Num ápice
mergulho no ápex
arrastando comigo todo o Sistema Solar

Até que ouço alguém chamar
a dizer-me que são horas de dormir
a pedir-me para voltar
antes que me perca

Mas eu já não estou ali
nem lá
nem além
nem aqui
nem cá

Estou inteiro dentro de mim
onde também cabe o Cosmos

É de lá que vejo
sinto
e ouço
o mundo que me cerca


in “Introdução à Eternidade”- 2013

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Dizem que o poeta é demente



Dizem que o poeta é demente
Que não vive neste mundo real
Que, qual esfinge, finge e mente
Que não passa dum louco, afinal

O poeta é um ser anormal
É bem diferente de toda a gente
Embora distinga o bem do mal
É um ser sem maldade, inocente

O poeta pugna pela verdade
Sem obedecer a nenhum poder
A poesia dá-lhe liberdade

O poeta louva quem merecer
A si basta a imortalidade
E consolar quem sente a sofrer

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Paixão platónica



Trago o meu pobre coração a arder
É tão triste a minha condição
E tão abrasadora a paixão
Que o desfecho não posso prever

A essa mulher não passo sem ver
Embora forçado pela Razão
A conter-me e a dizer que não
Senão, tudo deitarei a perder

Mas ela, com sorrisos e perfume
Com seu doce jeito de me olhar
Mais não faz que atear mais o lume

Apaixonado, já não sei parar
Como sair deste amor incólume

Sem queixume, sem dor, sem me queimar

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A feia bonita Beatriz



Uma feia bonita
mulher ultriz
é raiz
deste poema
contrito lamento
feérico fonema

Suspeitava que Beatriz me amava
mas eu não sabia
o que comigo se passava

Tonto
disse-lhe que a achava feia

Era só meia verdade
a outra meia
era que muito a estimava

Mas a ultriz Beatriz
de pronto
me fez a vontade

Nunca mais me olhou
nem me procurou
e o meu coração mergulhou

na mais cruel ansiedade

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Dentro de mim não há céus nem infernos



Dentro de mim não há céus
nem estrelas
nem galáxias
nem infernos

Dentro de mim
sob a minha pele
há apenas ossos
músculos
vísceras
veias
nervos
e nada mais

No meu coração flui apenas sangue
e não ódio
ou paixão

No meu cérebro nem uma agulha se intromete
tão pouco o vazio
o nada
de que nada sei

Mas dentro de mim abre-se uma janela larga para Deus
por onde o espírito
entra
e sai
mesmo de olhos fechados
de ouvidos tapados
e de tacto entrapado

Deus mora dentro de mim

e não no céu

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Uma puta qualquer



Habituei-me a vê-la, por ali
com ar convidativo, descarada
no seu “trotoir” chamativo
de carteira a cirandar na mão
debaixo de um pinheiro manso
mesmo à beira da estrada
no frondoso parque de Monsanto
sabe-se lá em que esconso remanso
guardava o seu coração

Era jovem, elegante e vistosa
vestia  minissaia cor-de-rosa
blusa transparente cor de salmão
não era uma puta qualquer
era sim, mais uma mulher

Eu passava a correr, ofegante
nos meus “footings” matinais
mas não lhe falava
nem ela comigo se importava
mais atenta que estava à estrada
de onde vinha o seu ganha-pão

Mas um dia … nunca mais a vi!

Qual não foi o meu espanto
quando soube pelos jornais
que fora encontrada assassinada, por ali
em pleno parque de Monsanto

Comprei uma rosa, com espinhos
da cor da sua minissaia
e quando por lá voltei a passar
pelos habituais caminhos
do meu “footing” matinal
desta vez parei, para lhe falar
como se o fizesse do habitual
para colocar a flor
com respeitoso amor
sobre um tufo espontâneo de feno
e coloridos malmequeres

Dediquei-lhe uma breve e sentida oração
e não resistindo ao impulso blasfemo
que me saiu, directo, do coração
gritei para comigo, entristecido:

- É bem “puta” a vida, para certas mulheres!

in "Mulheres de Amor Inventadas" (Henrique Pedro-2013)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aposto que este poema é o mais estúpido



Aposto que este poema é o mais estúpido
de todos os poemas que algum dia foram escritos
embora poemas por escrever
haja aos milhares e a ferver
desejosos de se dar a conhecer
neste ínterim

Poemas à espera de poetas proscritos
que os queiram assumir
sendo certo que em poesia
tudo pode coexistir

Ainda assim
meus senhores
este poema só não será o mais estúpido
se for apreciado por um número suficiente de leitores
alguns dos quais lhe acharão graça
e haja até quem me diga que gosta

Alguém poderá mesmo considerá-lo genial
e então eu concluirei afinal
que maior é a minha desgraça

porque perdi a aposta

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Como a tristeza que de tão triste encanta



Uma ave triste
parda
parada

Pousada numa árvore isolada
recortada na neblina do tempo
nua
no ermo

Uma ave parda pousada parada
calada no silêncio em que cala a angústia

Uma ave despassarada
que nenhum grito
eco
ou vento
Espanta

Como a tristeza
que de tão triste
ao poeta encanta

Uma ave parda pousada
parada à espera de levantar voo

Para ser alegria

amanhã

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ceara ondulante, crina de mulher



Oceano de perfume
em que mergulham meus dedos
e se afundam
em mil ternuras
sem medos
de se afogar

Ceara ondulante
liana enleante
crina de égua a relinchar
ululante
de prazer

Corda de cítara
a gemer
que me delicia dedilhar

Cabelo de mulher…

que sublime prazer
me dá

afagar

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Badaladas desconcertadas do coração




Doze badaladas o coração bate
ao meio dia
como cão a latir

Ruidosas
apressadas
pressurosas
a fugir
a saltar fora do peito
a viver fora de si

Outras doze badaladas o coração bate
à meia-noite
como vento a rugir
fora de tempo

Langorosas
arrastadas
pesarosas
a parar
para morrer
dentro do si

Doze com doze são vinte e quatro
badaladas
desconcertadas
que a vida tem
mais aquelas que o coração bate
no ventre de nossa mãe

Mais aquelas descontadas
se dormimos
ou não sentimos
o coração bater
por ninguém
mundo fora
hora a hora
aqui
ali

além

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Não chores por mim, Argentina



Não chores por mim
Argentina

Nem digas que vais ficar
para sempre
à minha espera

A ti, eu jamais direi adeus

As lágrimas de amor
e de infundado temor
que vejo luzir em teus olhos
neste meu hesitante partir
sem te dizer se vou voltar
acendem saudades nos meus

Pensa antes, amor
nos molhos de poemas e de flores
que te irei ofertar
já na próxima Primavera

Mas não me digas, por favor
que vais ficar
para sempre
à minha espera
que me deixas desolado
a pensar
que poderei
não poder
voltar
jamais

E eu não quero que seja
assim tão demorado

o teu sofrer