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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Percebi isto, hoje, em dia de chuva



Hoje
percebi que os pinheiros abrem as copas
e distendem os ramos
em direcção ao céu
abençoando a chuva
que lhes dessedenta as raízes
e fertiliza a terra

Que vivemos além da vida
na medida em que temos fé
e nos damos
para lá de nós

Quando amamos
e semeamos flores
e amores

Quando criamos animais
plantamos árvores
e nos alegramos
mesmo estando sós

Quando geramos filhos
ou escrevemos poemas
que florescem alegres e livres
como os lírios do campo
ou as aves do céu
que se alimentam livremente dos frutos
das árvores que plantamos

Quando o vento
que nos fustiga o rosto
se transforma em brisa
e a ira se adoça
e suavizamos a voz

Quando compreendemos que a vaidade
e a glória
não têm sentido
e que mais tino tem
dar
e amar

Vivemos além da vida
na medida em que temos Fé
e nos damos
para lá de nós

Embora ter Fé
seja não acreditar em nenhuma coisa concreta
mas simplesmente manter
uma porta
aberta

Percebi isto, hoje, em dia de chuva 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Esta saudade cadela


(Do meu baú de recordações)

Esta saudade cadela
me morde
e me ladra
a toda a hora
furiosa
e não me deixa dormir

Em vão tento amansá-la
imaginando a minha amada
saudosa
a sorrir
amorosa
escrevendo o aerograma
que agora tenho na mão
em que me diz
que me ama

Aerograma que leio
e releio
mas mais me enleio
nesta cruel nostalgia
nesta saudade
insidiosa
cadela
que ladra à lua

Só mesmo a poesia
dá conta dela!


Nangololo (Norte de Moçambique), Agosto de 1971

Henrique Pedro

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Estas fragas que me falam



Não ouvi esta fábula a nenhum animal
da terra, do mar ou do ar
mamífero, ave, peixe ou réptil
a nenhuma flor espadice ou séssil
nem a ninguém com boca para a contar

Escutei-a a uma fraga, granítica, disforme e fria
das inúmeras que emolduram o quadraçal
quais quistos implantados na face rugosa da terra
por onde corre, já velho e alquebrado
o meu benquisto rio Rabaçal

Quando encostei o ouvido ao ventre da monstra autista
na ilusão de descobrir em qual delas se escondia Narciso
jovem beócio natural de Tespia
filho da linda ninfa Liríope e do brando Zéfiro
vento suave e conciso
fruto da mais amorosa viração

Uma daquelas fragas arredondadas
acariciadas pelo rio cristalino
teria que ser o divino Narciso
por quem toda a mulher bela se apaixonava
mas que enamorado de si para seu mal
a todas por igual desprezava

Até que a bela e agreste ninfa Eco
a quem também Narciso não sorria
vendo que ele desmerecia tamanha paixão
o transformou em pedra de verdade
sem coração, alma ou chama
e é por isso que hoje em dia
mais louvamos a avisada Ecologia
que a supérflua usura mundana

Na verdade não ouvi dizer
a nenhuma fraga informe
que seria ela o próprio Narciso
jovem beócio natural de Tespia
transformado em pedra pela ninfa fatal
quando ruída de despeito e ciúme
o viu apaixonado pela própria imagem
reflectida ao sol posto
no lume do rosto do meu rio Rabaçal

Mas todas as fragas me segredaram
enquanto também se miravam nas águas mansas
por entre chilreios de passarinhos
e o tremeluzir da folhagem
que Deus colocou a semente da poesia
no empedernido coração do homem selvagem
cego pela vaidade e desejo de vingança
para que a figura da verdade e da esperança
melhor se reflictam na superfície imaculada da alma
onde pela noite serena também resplandece a Lua
em romântica luminosidade e amorosos sinais
e o Sol em tardes de calma se vem banhar
impiedoso e ofuscante para os olhos mortais

Assim Deus deu aos homens o dom abençoado da poesia
acorde de todas as harmonias
capaz de extirpar a angústia e aplacar o ódio
suavizar a amargura e sufragar a desilusão
partilhar amores e alegrias
e melhor suportar os males da paixão

E quanto mais políticos e tecnocratas
partirem as fragas e removerem as montanhas
sem amor nem fantasia
mais dor e sofrimento haverá em cada dia
e mais a insana sociedade
se afastará da felicidade

Por isso há inúmeros poemas abortados
transformados em fragas imóveis do quadraçal
salvaguardados de todo o mal
cujos acordes só eu ouço
e cujo conteúdo ninguém pressente
ainda que estejam ao alcance da vista
e dos ouvidos de toda a gente



sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Os mais belos poemas de amor são escritos por quem não ama ou nunca amou





Há poemas de amor
quiçá os mais belos
que são textos paralelos
escritos por quem não ama
ou nunca amou
ou
em rigor
a si mesmo se engana

Embora também haja quem escreve
sem saber que o faz
embora sem ser falaz

Vive na ilusão
no desejo frustrado
na esperança sem ensejo
na eterna aspiração
quiçá na simples fantasia
melhor dizendo
não desfazendo
na mais pura poesia

Esta a razão principal
pela qual
há tantos poetas a fingir
para fugir
ou se esconder
a escrever sem querer
tão fantasiosa poesia amorosa
tão imaginária dor
cor de rosa

Quem ama verdadeiramente
sofre inevitavelmente
em seu enamoramento
e nem sempre tem talento
nem tempo
nem vontade
para dar publicidade
ao seu sofrimento

terça-feira, 15 de outubro de 2013

É assim que eu te amo



Com a doce sensualidade
que emana dos anjos
é como eu te amo

Com o viço do jacinto
que resplandece em cada dia
com o sol nascente
é assim que eu me sinto
quando te vejo surgir
de repente
a sorrir
inundando de alegria
toda a gente

É assim que eu te amo

E de que outra forma haveria eu
de te amar?


Para de me tentar!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Oração fúnebre para um amigo



Adeus
amigo

Acabas de te despedir
não de morrer
enquanto a nós
nos for dado viver

Continuaremos a contar contigo
para o resto dos nossos dias

E se mais devir houver
lá nos encontraremos

Num cataclismo cósmico qualquer
no pó de uma estrela
no pé de uma planta
na pétala de uma flor
no verso de um poema
no halo do amor
na aura da saudade
na angústia de um dilema
na dor que nos quebranta

onde a amizade esteja

Adeus
amigo

Até sempre

Até qualquer dia
noutro plano
noutro tempo


No vento que seja

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Apraz-me falar de amor



Apraz-me falar de amor
delicadamente
seja com que mulher for

Madura
balzaquiana
adolescente
mundana
casta
beata
rameira de vida indevida
casada
solteira
ou nubente

Estando apaixonados
ou nem tanto

Sempre enamorados
pela vida e pela verdade
com o encanto do vento
que sopra tal encantamento
por dentro
sem que sintamos ansiedade

Ema tarde morna de Outono
ou em dia tórrido de Verão
enquanto tomamos chá
Café ou laranjada
numa esplanada
ou à lareira para espantar o sono
sem outra condição
que não seja misturar
 amor, arte e fé

Ou quando passeamos à beira mar
de mãos dadas
mesmo sem falar

Ou deitados desnudos
na praia
na cama
ou em qualquer outro lugar

Assumida que seja
entre nós
a uma só voz
a inocência cristalina
de ter
no amor
a razão única

que nos anima

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Como poeta sinto-me um inútil



Não é de estranhar que o imortal Camões
tenha morrido na miséria
indigente

Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade

Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto daquela mítica ilha
entre palhotas e palmeiras
sem utilidade alguma
para lá de servir de pouso aos pássaros
que lhe defecavam na cabeça

Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
condoído da memória sem utilidade
do vate celebrado

Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que a desilusão
mais arde

Também eu como poeta me sinto um inútil
embora seja a inutilidade da poesia
a gerar ventos e marés
e a construir auto-estradas de sonho

Enquanto poeta
sou verdadeiramente um indigente
que não ganha nada com isso
mais mal pago que um qualquer operário
que lavra a terra ou pinta paredes

Um semi-anjo
um quasi-deus
um extraterrestre

sem salário
nem utilidade

Como o Camões imortal
deus utópico
que nem soldo teve para regressar
ao Portugal que o enjeitou

A Portugal
não à Pátria
porque que a Pátria de Camões
era onde era soldado
Oriente, África e depois de morrer, Brasil
onde havia projectos mil de humanidade
sonho e mistério
e poesia a rodos
sem utilidade

Mas que um dia
foram Império
de verdade


Hoje sem utilidade