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sábado, 30 de novembro de 2013

Olho-me nos olhos



Vejo-me ao espelho
olho-me nos olhos

Vejo alguém que não sou eu
que não conheço
e que me espanta

Não é o meu eu interior
poético ou lírico
que vive de amor
que ali se reflecte

É um crâneo calvo
um rosto rugado
um olhar cismado
que nada me dizem de mim

E eu
a toda a hora me olho
e me vejo por dentro
faça sol, chuva ou vento
noite e dia
a dormir ou acordado
em tristeza ou alegria

E sempre me vejo
com verdade
embora envolto em sonho
e ansiedade

Fico
por isso
espantado

por ver-me assim retratado

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Quando a minha alma se ausenta para viajar



Há momentos em que nada sinto a doer
nenhuma espécie de dor
nem frio nem calor
nenhum desejo
nenhum motivo de prazer
nenhuma angústia
nenhuma ansiedade
nem antevejo nenhuma contrariedade

Momentos em que a minha proverbial amargura
anda fora
pela rua
e eu desisto de encontrar a verdade

Momentos em que a minha indiferença é tamanha
que me chega a parecer estranha

Que será que aconteceu?
Que estará para acontecer?
Não sei nem quero saber

A envelhecer ando desde que nasci
morrer ainda não morri
e a vida até me sorri

Talvez seja isso mesmo
isso tudo
nada de isso
ou não seja coisa nenhuma

Talvez seja só espuma de poesia
nem tristeza nem alegria
pura fantasia
sem os habituais dilemas

Talvez seja só a minha alma
que se ausenta para viajar
mas deixa a consciência em “stand by”

E como nada entra ou sai
do coração
a razão põe-se a regurgitar poemas


Quando l’anima mia si assenta per viaggiare

(Tradução para italiano por Manuela Romano)

Ci son momenti in cui nulla mi duole
nessuna specie di dolore
né freddo né calore
nessun desiderio
nessun motivo di piacere
nessuna angustia
nessuna ansietà
né prevedo nessuna contrarietà

Momenti in cui la mia proverbiale amarezza
se ne va
per la via
e io rinuncio a trovare la verità

Momenti in cui la mia indifferenza è così enorme
che giunge ad apparirmi abnorme 

Che mai sarà accaduto?
Che starà per accadere?
Non so né lo voglio sapere

Ad invecchiare mi avvio da che son nato
morire ancora non son morto
e la vita fin qui mi ha sorriso

Sarà forse proprio questo
tutto questo
niente di questo
o non è niente del tutto

Sarà forse solo schiuma di poesia
né tristezza né allegria 
pura fantasia
senza i soliti dilemmi

Sarà forse solo la mia anima
che si assenta per viaggiare
ma lascia la coscienza in “stand by”

E siccome nulla entra o esce
dal cuore

la ragione si mette a riversar poemi

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Húmus de angústia



Hoje
vou caminhar
adrede
campos fora
noite a dentro
atolar-me na lama dos caminhos

Vou esquecer que existo
votar-me ao abandono
diluir-me na Natureza
não responder a ninguém
fintar o sono
tratar as ideias com desdém

Vou deixar que a minha angústia
se misture com a água da chuva
em húmus de poesia
que as raízes das plantas a absorvam
e a convertam em seiva

Para desabrochar em flores de alegria
já na próxima Primavera
e florir em fruto lá mais para o Outono

Hoje
vou caminhar
adrede
campos fora
noite a dentro
até entrar em transe
e explodir em êxtase

quando o Sol raiar

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Despeço-me. Adeus!



Agora sou verdadeiro
sou o que pareço

Já não morro
já não vivo

Não choro
nem rio

Não gozo
não sofro

Já nada faço aqui

Já voo outros céus
em círculo
respiro outros ares
a arfar
navego à vela noutros mares
distante das tempestades

Já vivo o que nunca vivi
não sou mais “eu”
nem sofro o que sofri

Sou agora um todo
inteiro
a sonhar

De mim
sem demora
me despeço
e me apresto
para a mim
breve
voltar

Em cada instante parto
de mim me aparto
e regresso a mim


Despeço-me. Adeus. Até ao meu regresso.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sombras de luar




Por agora ainda a Lua se desvanece
em fumo
no céu azul
imaculado

Alva
circular
translúcida
aparentemente imóvel
sem nuvens que a posssam referenciar

Percebe-se melhor
o seu movimento
depois que as primeiras estrelas
surgem no céu

É preciso esperar
para ver

O luar recorta nas almas
imagens doces
amorosas
mas as suas sombras
são vãs
ilusórias


São as sombras da paixão

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Dois modos de amar com música



Há mulheres que eu prefiro amar com suavidade
fazer amor com elas com inteira delicadeza
deliciar-me com os seus corpos harmoniosos e belos
envolvendo-me com elas nas ondas da Finlândia de Sibelius
e deixar que As Quatro Estações de Vilvaldi
se concertem em nós
numa única e eterna Primavera

Sentir que elas sentem tanto prazer quanto eu retiro delas
com os melíficos eflúvios finais dos quatros sentidos
a libertarem-se em mil fantasias espirituais
sem grandes “uis” ou “ais

Outras prefiro amá-las como cadelas
com força, raiva e determinação
em permanente luta de prazer
com a ideia de me satisfazer
mais a mim
que a elas

Qual rapsódia de luxúria viva e alegre como o Bolero de Ravel
até eclodir na explosão final da Nona Sinfonia de Beethoven
como se fora a dança do destino fatal a bater à porta
com raios e relâmpagos saltando entre o meu corpo e o delas
em triunfo vigoroso do viço e da pujança animal

Mas fiquem sabendo
porém:
nunca lhes perguntei qual a preferência delas

E notem bem:
jamais serei capaz, tanto quanto que sei
de fazer amor

sem amar alguém

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Diluo-me no tempo



Qual rio a correr
para o mar
sem saber em que oceano
ou lago
se irá transformar
também eu
estou
a caminho

Diluindo-me no tempo
transformando-me em pensamento
sem saber o que sou
tão pouco para onde vou

Tornarei
feito nuvem
trazido nas asas do vento
para em poesia
de novo
me precipitar?

Ficarei
eternamente
por lá
no ar
sem mais dor
apenas a mais a amar?

A certeza
a tenho
de morrer
não a de desaparecer

Porque se assim fosse
não havia existido

sequer

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Batendo com a cabeça no Infinito





Nestas noites amenas e serenas
em que o espírito se embriaga de espiritualidade
e a angústia se adoça
em doce soledade
fascina-me o Firmamento

Vejo-me reflectido no imenso espelho
cristalino
que me envolve
e me toma o pensamento

Expedito
voo por ele adentro

Até que bato com a cabeça no infinito
qual insecto vagabundo
que se projecta contra o vidro
em que se vê reflectido

Também eu me iludo
e julgo ser aquele
o meu mundo

Mas depressa me dou conta
de que não tenho pernas
nem braços
nem asas
nem motor espacial
capazes de lá me levar

E que apenas se voar
por mim adentro
poderei
um dia

lá chegar