Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se. Feliz Ano Novo.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Alma em frasco de formol



Extirpo o meu próprio cérebro
com as minhas próprias mãos
e exponho-o ao sol
e ao vento
em frasco de formol
sobre a fraga que me serve de assento

Na mão direita ergo a memória
na esquerda seguro a consciência
e balanço-as desiguais
com angústia incontida
tentando determinar
de razão dissolvida
qual delas pesa mais

A memória apenas regista
o instante em que a perdi

Será que algum dia existi?

A consciência me diz
que sem memória
em que se apoiar
não poderá fazer história
nem projectar
o devir

Será que voltarei a existir?

De memória e consciência assim separadas
que balanceio uma em cada mão
emoções, afectos e ideias
são levados pelas águas do rio
para o mar da memória colectiva

Enterrada nas areias
fica a razão
matéria furtiva

Nada sinto
nem bem nem mal
não choro
não rio
nem sei onde moro
se existo
ou existirei

Sou por agora
uma consciência incorpórea
sem história nem memória
uma vaga esperança
de que uma cósmica mudança
me fará encarnar

animal