Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Como poeta sinto-me um inútil



Não é de estranhar que o imortal Camões
tenha morrido na miséria
indigente

Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade

Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto daquela mítica ilha
entre palhotas e palmeiras
sem utilidade alguma
para lá de servir de pouso aos pássaros
que lhe defecavam na cabeça

Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
condoído da memória sem utilidade
do vate celebrado

Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que a desilusão
mais arde

Também eu como poeta me sinto um inútil
embora seja a inutilidade da poesia
a gerar ventos e marés
e a construir auto-estradas de sonho

Enquanto poeta
sou verdadeiramente um indigente
que não ganha nada com isso
mais mal pago que um qualquer operário
que lavra a terra ou pinta paredes

Um semi-anjo
um quasi-deus
um extraterrestre

sem salário
nem utilidade

Como o Camões imortal
deus utópico
que nem soldo teve para regressar
ao Portugal que o enjeitou

A Portugal
não à Pátria
porque que a Pátria de Camões
era onde era soldado
Oriente, África e depois de morrer, Brasil
onde havia projectos mil de humanidade
sonho e mistério
e poesia a rodos
sem utilidade

Mas que um dia
foram Império
de verdade


Hoje sem utilidade