Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Minha Mátria Terra Quente MIRANDELA CIDADE (*)






T r á s
o s
M o n t e s

Eco
vindo
da origem
dos tempos
sinfonia
de montes
vales
e ventos

Minha Mátria Terra Quente

Mirandela cidade
jóia postada no tórax de Trás-os-Montes
dependurada mundana
em colar de prata líquida
feito de Tuela e Rabaçal
vulva telúrica
da imortal pátria
transmontana
a escorrer em Tua
de vaidade
e formosura

Minha Mátria Terra Quente

rio Tua de águas
revoltas
a farejar os caminhos
do mar
povo em procura
do ir
sempre a pensar
no voltar

(*) in “Minha Mátria Terra Quente”, Ver-o-Verso, 1905

Livro de poemas que já é uma preciosidade da poesia transmontana, de que restam raros exemplares, que poderá encomendar directamente para o autor (hacpedro@hotmail.com) pelo preço de 10€ (Portes incluídos)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Não é pecado amar nem virtude sofrer



O que tu queres
eu sei

Não é amor
não
é só dor

O que tu queres
é servires-te de mim
sim
para te martirizares
só por entenderes
que é pecado
amar
e virtude sofrer

Que maior benefício
é o amor
se amar for
o sacrifício maior

Talvez o que te digo te faça doer
mas tenho que te dizer
enquanto é tempo
não me posso calar

O melhor caminho
para te libertares desse tormento
é mesmo
amar

Nem amar nem amor
poderão ser
sofrimento

mesmo se causam dor

segunda-feira, 24 de março de 2014

Projecto-me no Espaço, precipito-me no Infinito



Tão confinante é o espaço
em que me é dado viver

Tão angustiante a dúvida que me aflige
que nem capaz sou de a exprimir

Tão atroz a dor que sou forçado a sofrer
sem o consentir

Tão doce e fugaz o sabor
do amor
que me é dado degustar

Tão luminosa a réstia de luz
que me é dado vislumbrar

Que me projecto
no Espaço
para lá dos limites do planeta
e das estrelas do céu

Para lá das glórias da Terra
da ilusão dos dias
das fantasias do coração

E me precipito
no Infinito
no Absoluto

na Eternidade

sábado, 22 de março de 2014

Porque escrevo poesia?












A esta angústia maior
que me morde a mente
neste dia
responde-me a própria poesia

Fico um tanto mais consolado
embora não de todo aliviado

Porque escrevo poesia?

Para calar angústias entranhadas
estas sensações estranhas
que me desassossegam o corpo
por fora e por dentro
e são sopro de coisas etéreas
como o vento

Há quem fume e quem beba
mas porque isso me causa tão incómoda azia
a mim dá-me para pensar e escrever poesia

Para transformar medo em coragem
ódio em amor
prisão em liberdade
raiva em tranquilidade
fracasso em glória
mentira em verdade
saudade em presença
maldade em inocência
indiferença em solidariedade
vício em temperança
fome de sexo em paixão
para aliviar outros males de coração

E para sufragar os gritos de milhares de irmãos que sofrem e morrem sem que ninguém lhes valha
para quem a vida é um verdadeiro inferno
tudo isto me cicia a poesia neste dia

Como muita gente
certamente
eu escrevo poesia
para me sentir vivo e livre

e sorver o sabor de me sentir eterno 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Paixão





Paixão, pulsão pulsante, atração
Arte da sedução e do cortejo
É chispa radiante do desejo
Uma brasa viva no coração

Que se transforma em negro carvão
Quando com o seu triste arpejo
Porque o amor não logrou ensejo
Se apaga, com dor, sem compaixão

Sem o amor que a alma abrasa
Deixa o coração de ser fornalha
De pronto a paixão perde a asa

Estiola e arde como palha
Depois que foi carvão e rubra brasa

Vira cinza que o vento espalha

quarta-feira, 19 de março de 2014

Prenúncios de Primavera





Em fins de Fevereiro
início de Março
no declinar do Inverno

Tomo um caminho recto
de rumo poente
à hora em que o Sol se põe
olho-o bem de frente
de olhos semicerrados
para que não me fira a vista
e melhor me ilumine o espírito

Inalo o seu halo quente
a brisa afaga-me o rosto
docemente
abro bem os braços
como se abraça-lo
fosse o meu anelo
mais ardente

Já o manto verde reveste os campos
ponteado de pintas intumescidas de amarelo

Indícios de flores
promessas de amores
prenúncios da Primavera

emergente

terça-feira, 18 de março de 2014

Do fascínio do silêncio e da solidão





Há momentos, em que por momento
me fascinam
o silêncio e a solidão

Não se trata de ficar só, abandonado
fugido da aspereza da vida
alheado dos sons e cores da Natureza

Falo do isolamento interior
do silêncio do mundo
quando os ecos e cambiantes do Cosmos
anódinos
melhor se espelham e ressoam dentro de mim

Sinto-me
então
sim, só
em confronto directo comigo mesmo
eu contra “eu”

Com os olhos e os ouvidos
com todos os sentidos
e sentimentos
voltados por momentos
para dentro de mim

Falo então comigo só
e com o meu umbigo
e o mais que consigo
é não compreender nada
nada ver e ouvir para lá do “eu”

Mas é mais forte ainda assim
a minha percepção de mim
daquilo que sou
ainda que não saiba o que faço
nem tão pouco onde estou

E melhor percebo que existo
qual das ilusões eu não sou

E acredito
que bastará uma instantânea eternidade
de silêncio e solidão
bem fora deste inferno

para perceber o Eterno

domingo, 16 de março de 2014

Do Coração à Razão



Tudo que é dor
angústia
sofrimento crebro
se me concentra no cérebro

E tudo que é amor
alegria
ou satisfação
me toma o coração

Angustiado
sofrido
fico silencioso
parado
segurando a cabeça com a mão
não vá ela se desprender
cair no chão
e se perder

Mas quando a felicidade me invade
saio a correr
desato a rir
a dar largas à emoção

Daí eu concluir
que a poesia é um rito do Espírito
a fonte da alegria
a ponte que liga

 o Coração à Razão

sábado, 15 de março de 2014

Ser poeta não interessa a ninguém



Desisto de ser poeta
cansei!

Duvido mesmo
que algum poeta
algum dia
tenha ganho qualquer batalha
embora a poesia as ganhe todas

É sabido também
que ser poeta é profissão de alto risco
é ser-se fora da lei
embora seja a poesia a afirmar a ética

Por isso os ditadores filhos das mães
não perdoam aos poetas
a quem por regra mandam abater
como cães

Desisto de ser poeta
cansei!

Depois, que gozo dá ser sepultado
no Panteão Nacional  que está já lotado
de resto?!

Ou ser representado
decepado
sem tronco e sem membros
em frio bronze
num qualquer recôndito recanto
dos recantados Jardins Municipais
para gáudio de pombas e pardais
que ali pousam para defecar?!

Desisto de ser poeta

Por mim
por tudo isto
e por nada mais

A partir de agora
passarei a escrever poemas
apenas por puro amor
a escrever só por escrever
somente pelo prazer que tal me dá

Embora com a secreta esperança de que muitos
os irão ler
com alegria
e gostar

Desisto de ser poeta
não da poesia
já se vê

por amor a quem me lê

sexta-feira, 14 de março de 2014

No céu não existe Deus





Imagino o céu

Sem sóis
luas
ou estrelas
sem noite ou dia
e sem poesia

Um mundo onde não existe Deus
porque só é habitado por anjos
e Deus mora em toda a parte
noutro lugar

Um lugar onde não há sexo
porque os anjos não têm sexo

Um lugar sem dinheiro
porque não há lá nada que vender
ou comprar

Um sítio onde não há felicidade
porque lá não há tristeza
nem dor
nem alegria

Um lugar sem paz
porque lá não há guerras

Um lugar onde não há verdade
porque também não há mentira

Um lugar sem luz
e sem trevas

Sem amor
e sem ódio

Um lugar aonde só conduzem caminhos de virtude
de sofrimento
e de morte

Um lugar onde só entra quem Deus quer

O único lugar onde o absoluto
e a eternidade
são relativos
porque Deus poderá ciar um novo planeta
quando menos se espera
e remeter anjos
para lá

O céu

Um lugar que só existe na Terra
e é na Terra que devemos procurá-lo
portanto

O céu


Um lugar onde eu gostaria de morar

terça-feira, 11 de março de 2014

Espelho parabólico



Uso este espelho parabólico
que é a poesia
para melhor me ver
e me mostrar
com fantasia

Para me aproximar
ampliar
distorcer
em esgares de estarrecer

Para me fixar nos olhos
e pelo olhar
tentar entrar por mim adentro

Para bafejar  o vidro da vida
com vapores de poesia
e deixar que as gotas condensadas
que poderão ser lágrimas
rimas
estimas
estigmas
poemas
dilemas
pingos de sangue do coração
escorram
deslizem lentas
até  me caírem na mão

Quando não sou eu próprio
com um dedo
a traçar no vapor
sulcos leves
livremente
percursos de sonho

e de amor

segunda-feira, 10 de março de 2014

Sem título, sem tema, sem autor



Um poema poderá não ter título
nem ter autor
sequer

Poderá não ter tema
nem falar de dor
ou de amor

Poderá ser tudo
e nada
e nada dizer

Mas um poema terá sempre que ter
leitor

Terá que ser sentido por alguém
mesmo sem ter sentido para ninguém

Poderá emergir uma glândula endócrina
de um órgão avariado
resultar de uma observação do quotidiano
calar-se no fundo de um coração
e por ali se perder
abortado

Poderá ser só um rosnar
um ranger de dentes
um uivar de lobo
um grito de socorro
uma expressão de alegria
um estado de afasia
um apontar de dedo à estrela polar

Poderá somente ser
um olhar
um sentir
uma emoção

… um gesto de ler

com poesia

sábado, 8 de março de 2014

Até parece que só neste dia é que há mulheres





Até parece
que só neste dia é que há mulheres

Que há filhos
e mães
dores
e amores
sem elas

Até parece
que a História se fez sem mulheres
a beleza
a alegria
e a poesia
existem por uma fantasia
qualquer
sem a mulher

Até parece que o poder é macho
que o mundo é masculino
e que o viveiro da vida
não é feminino

Até parece
que só há mulheres neste dia
convencionado
quando elas estão
no dia-a-dia
a nosso lado

Com as mulheres amamos
nós, homens, sofremos
vivemos tristezas e alegrias
sentimos bater o coração

Louvemos as mulheres
então
não só hoje!


Todos os dias!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Eu peço a Deus que recrie o homem



 
Eu peço a Deus…
que recrie o homem!

Que lhe dê corpo mecânico
com pernas e braços hidráulicos
facilmente desaparafusáveis
e substituíveis

Com transistores e fusíveis nos sentidos
sistemas de vídeo nos olhos e ouvidos
um computador no lugar do cérebro
e uma bomba hidráulica no lugar do coração
alimentados por energias renováveis
e óleos biodegradáveis
para não afectar a Natureza
nem as demais espécies

Um homem que não sofra de angústia existencial
nem sinta dores físicas ou paixões
e que possa encostar na berma da estrada
se o combustível falhar
podendo o espírito continuar a passo
sem embaraço
nem businões
já que não haverá viaturas a circular

E não havendo sofrimento físico
nem sendo derramado sangue
apenas óleos e fluidos recicláveis
os horrores da guerra e do terrorismo
da fome, da doença, da miséria e da poluição
desaparecerão da superfície da Terra

Um homem que possa expiar as suas culpas ao ar livre
num cemitério de automóveis
não no inferno
e que sempre possa trocar a alma
para um modelo mais moderno

Peço ainda a Deus
que quando for forçoso morrer
seja suficiente tocar o claxon
para dizer adeus
e voltar reencarnado num avião
ou mesmo numa nave espacial

É minha convicção
que apenas com um homem assim
se se salvará a Civilização

Quanto à mulher
podereis deixá-la como é
Deus meu

que nenhum mal advirá ao mundo

quarta-feira, 5 de março de 2014

O reverso do universo





O Universo inteiro cabe num dos versos que escrevo
mas nada do que sonho
ou imagino
existe em lado nenhum

Dentro de mim há miríades de outras entidades
ideias
sonhos
fantasias
angústias
que não existem no mundo de verdade

Que eu não consigo expressar em nenhum dos poemas que escrevo

Esta é a raiz da minha crónica ansiedade


O reverso do universo

segunda-feira, 3 de março de 2014

Meus poemas, minhas crias




Os meus poemas
são criaturas minhas
são as minhas crias

Que concebo e crio
por puro acto de criação
para minha recriação

Sem interferência de nada
nem de ninguém

Apenas na faculdade de criar
que o Criador
me deu
ainda que sempre as crie
para alguém

São crias vivas
aladas
feitas de ideias
de afectos
e de nadas

Que liberto ao vento
para que vivam no tempo
que é lá
que devem morar

Os meus poemas
são criaturas minhas
são de toda a gente

e de mais ninguém

domingo, 2 de março de 2014

Escrevendo na pedra do tempo



Há poetas que escrevem no vento
espalhando mundo fora
as taras e vaidades
que transportam por dentro

Outros escrevem suas mágoas
nas águas
esperando que o rio
despeje no mar
a sua tristeza

Os poetas maiores, porém
mesmo se já moram no Além
escrevem verdades
na pedra
do tempo

E afeiçoam o espaço
à força e beleza
do seu pensamento

sábado, 1 de março de 2014

Fartos de fome



Os donos do Mundo
vivem famintos

Famintos de poder
prazer
dinheiro
e glória

Mas os famintos de pão
esses
morrem fartos

Fartos de fome
à margem da História

Mas em breve não haverá fartura
capaz de saciar tanta penúria

Nem mentira capaz
de ludibriar
tão crua verdade

Nem armas bastantes para conter
tanta paz

Nem guerra capaz de promover
tão falso progresso

Nem ciência que obste

a tão dramático retrocesso