Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sábado, 26 de abril de 2014

Retrato de uma mulher qualquer

  



Veste vestido encarnado
com decote descaído
manga arregaçada

Preparada para a vida
relógio no antebraço
trança atirada para a frente
muitas coisas me diz de si
a mim
e muito mais
a muita a gente

Mesmo se seus lábios carnudos
sensuais
permanecem mudos

Quase tudo
ou quase nada
fica exposto
neste seu público retrato
de meio corpo

Adivinho que não é uma mulher qualquer

Que perscruta poemas
e amores
infindos
com seus olhos lindos
   que adoro vê-los

Sei que não me ouve nem me lê

Ainda assim
coloco flores
nos seus cabelos

já se vê

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Vem de mão dada com a Primavera



Vem de mão dada com a Primavera
Ambas de mil flores engrinaldadas
E de odor campestre perfumadas
Encantado poeta as espera

Cantam amor e paz em toda a Terra
Entoando as mais belas baladas
Com as aves canoras afinadas
São musas da poesia mais vera

Surgem lindas pelo amanhecer
A Primavera, a mulher amada
Primeiro amor em nós a nascer

Primavera! Poesia! Mulher!
Que lindas e alegres aliadas!

O poeta sonha?! Deus assim o quer!

domingo, 20 de abril de 2014

Uma deusa dormindo



Enlevado, acordo de madrugada
Com a minha amada ainda dormindo
Em nosso tálamo de amor reclinada
Como uma deusa no sono sorrindo

Tão feliz, que decido não a acordar
Optando por ficar em fiel vigília
A inalar o doce aroma tília
Que o seu respirar exala no ar

Depois, quando, por fim, desperta ela
Finjo agora eu ainda dormir
Embora já o Sol ria à janela

Ela beija-me, sem parar, a sorrir
Sempre cada vez mais meiga e mais bela

Até que eu, sem mais, deixo de fingir

sábado, 19 de abril de 2014

Porque vivemos, se morremos?!






Porque amamos se sofremos?!

Porque nos angustiamos se daí nada resulta
e nenhum sacrifício tem sentido?!

Porque escrevemos poesia
se por essa via
não se aplaca
o mal
do Mundo?!

Porque existimos
se Deus não existir?!

E porque vivemos
se morremos?!

Talvez porque sofremos
para aprendermos a amar
e a angústia
e a poesia
sejam só indícios
de uma felicidade maior

Talvez porque Deus exista
e nós não morramos


Só poderá ser!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Ecos e reflexos do Criador



Gosto de orar
na ideia de que adormeço
no umbral do pequeno templo da minha aldeia
e viajo Cosmos além
livre de todo o mal

A sonhar que a mão de Deus me afaga
me faz Revelações
como fazia minha mãe
quando  menino
me aconchegava no seu seio

Ciciando-me doces melodias
de amor e de encanto
como se eu fora um santo
um deus pequenino

Eram ecos
e reflexos
do Criador

O meu pensamento voava
por dentro do sonho
para fora do sono
e o meu espírito vogava pelo Universo
iluminado pela  luz
do seu coração

Tento agora
 ouvir de novo os mesmos ecos
ver os mesmos  reflexos
no umbral do pequeno templo da minha aldeia
na ideia que é o regaço de minha mãe

Não encontrei
até hoje
melhor forma de me interrogar
outro verso e anverso
das agruras da vida olhar
sem me sentir vazio
naufrago do nada

sem me angustiar

in "Ecos e reflexos do Criador" (Inédito)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Triste seria morrer e concluir…



Triste
muito triste, mesmo
seria morrer e concluir
que se andou uma vida inteira enganado
a esmo

Que se acreditou
sonhou
sofreu
amou
se deu tudo o que se tinha para dar
se amou e se praticou o bem
e a verdade
para nada

Que mais teria valido a pena gozar a vida bem gozada

Concluir que afinal o Além não existe
que Deus não passa de uma ilusão
o amor de umas anormais batidas de coração
o bem de um empecilho
e a verdade de um mal-entendido

Nada mais

Nada disto poderemos concluir
porém
se Deus não existir
nem o Além

Não existe o amor
nem a verdade
nem a vida
nem existe o bem

Mas nós sabemos bem
que o amor
a verdade
e o bem
existem

Vemo-lo
sentimo-lo
ouvimo-lo
desde logo no seio de nossa mãe

E como será morrer
e concluir
que Deus afinal existe
e existe o Além
quando se viveu

desconfiado?

terça-feira, 8 de abril de 2014

Porque se convertem em versos certas palavras?





Poderiam ser só gritos apenas
grunhidos
sussurros
arrulhos
insultos
lamentos
chamamentos

Expressões de cor
de dor
e de dó
de medo
maldade
fome
desejo
tão só

Porque se convertem em versos
então
certas palavras
e outras não
e as não leva o vento
como às demais?

Porque consubstanciam ideia
e ideal
fantasia e melodia
são poesia
intemporal
e trazem apelos de amor
na raiz
e mesmo se falam de sofrimento

sempre fazem alguém feliz

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Um lapso de luz



Espraio o espírito por toda a dimensão do Cosmos
de corpo confinado
á Terra

Cabeça
tronco
membros
olhos
ouvidos
e demais sentidos
entrego-os à Natureza

Deixo que percorram os caminhos que lhes aprouverem
sintonizados com a energia telúrica que os anima
faça sol
chuva
ou neve

Relapso
voo no vento

Por instantes
sou eu

Num lapso de luz
ausente

do espaço-tempo

domingo, 6 de abril de 2014

Que outro atributo poderá ter, o Além?



Recosto-me no tronco de uma tília florida
que a aragem do fim da tarde abana
e me embala

Adormeço
e sonho
como se acordado

Enlevado em bátegas de amor
como se o meu berço fora um barco
uma pluma
uma flor
que as ondas do cosmos fazem vogar
livremente
em liberdade
perdido
na bruma
do destino

Como se eu fora um pétala perfumada
que se desprendeu da árvore mãe
e demorará um eternidade
oscilando no ar
até pousar
no absoluto

Que outro atributo
poderá ter

o Além?

sábado, 5 de abril de 2014

O problema…



O problema…

É que nem sempre soletramos a palavra paz
em paz
e a palavra amor
com o amor que ela requer

E à palavra verdade
a interpretamos como melhor nos aprouver

O problema…

Está em que nem sempre amamos com o coração
quem nos ama
nem apertamos a mão
com a força devida
a quem nos estende a mão amiga

E nem sempre respondemos a quem nos chama
com a necessária prontidão

O problema…

Está em que apenas vemos problemas
nos outros
nunca em nós
e muitas vezes nos isolamos
tentando assim vencer
a nossa própria solidão
sem darmos ouvidos a outra voz

O problema…

Está em que só nos damos
quando recebemos
sem que nos apercebamos

que o egoísmo é o problema

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Entre a minha aldeia e o Rio de Janeiro



Tenho vindo a procurar
na poesia dos poetas cariocas
para eventuais trocas
de ar e de lugar
parecenças e diferenças
entre a minha aldeia
e a cidade do Rio
e sorrio
porque
na minha ideia
só encontro semelhanças

Embora nos céus do Rio haja arranha-céus
mais altos que as estrelas
enquanto no céu da minha aldeia há estrelas tão baixinhas
que lhe podemos chegar com a mão

Embora o Rio seja banhado por um mar
de insanidade
por um certo ar
malsão
enquanto na minha santa terrinha
corre um riozinho de espiritualidade

Embora o Cristo Redentor
seja maior e mais vistoso
que o amoroso Senhor dos Aflitos
venerado no alto da Serrinha
pelos corações mais contritos

Embora lá no Rio
as mulheres se dispam ao Sol
e na minha aldeia só se dispam à Lua
ainda que nem outras nem umas
nos mostrem as almas nuas

É por isso que sou de ideia
que devemos amar as mulheres
em primeiro que tudo
no Rio
ou na minha aldeia

Embora nunca devamos adorar nada
nem ninguém
muito menos mitos

e políticos
que são falsos
e fugazes


quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um beijo onomatopaico



Gostava de ser capaz de escrever
um poema sobre o beijo
apenas som

No rosto que fosse
já que o beijo no coração
é dado noutro diapasão
e tem outro tom

Conheço bem o olhar do desejo
o sorriso do amor
o gesto do abraço
o espaço do prazer
o som do beijo
quando o beijo tem som
e se não fica pelo sabor

Mas não sei como os escrever
apenas os sei descrever

Por isso gostava
de em escrita onomatopaica
os escrever, descrever e reescrever
sem sintaxes nem ilusões
para assim evitar
as inevitáveis distorções

Porque a melhor poesia é a vivida
e depois é a poesia dos sons

Dos sons do coração
das imagens
dos gestos
dos sabores

A poesia escrita é já
uma mistificação

Como se escreve então
amor
em escrita onomatopaica?

Um beijo

Pshuuuu…!