Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sábado, 31 de maio de 2014

Eu, com rosas e poemas me iludia



Abri-lhe meu coração de par em par
Por assim tanto e tão bem lhe querer
Sofria com o medo de a perder
Não estando bem certo de a conquistar

Oferecia-lhe rosas de sonhar
Poemas acabados de escrever
Aborrecia-a, porém, sem saber
Com tantos perfumes de inebriar

Dizia-me não gostar de poesia
Rosas não eram da sua afeição
Não a conquistava, antes a perdia

Só o brilho das jóias a movia
Lhe fascinava olhos e coração

Eu, com rosas e poemas me iludia

sexta-feira, 30 de maio de 2014

À luz da Razão



(Heptassílabo ou redondilha maior)

Entendeu o Criador
Envolver-nos em mistério
Entre agruras de dor
E amor, por refrigério

Prazer é o sal da vida
O sabor do bom viver
Mas a vida mal vivida
Tudo deita a perder

É nesta escuridão
Que devemos caminhar
Porém, à luz da Razão

O mesmo alumiar
Aceso no coração
Amor e Bem praticar
  

(Decassílabo)

Entendeu Deus, o nosso Criador
Envolver-nos em pesado mistério
Adensado nas agruras da dor
E no Amor, divino refrigério

Por tal, o Amor é o sal da vida
Sabor e alegria do viver
Mas o prazer da vida mal vivida
Tudo poderá deitar a perder

Porém, ante tanta escuridão
Para melhor podermos caminhar
Também Deus nos deu a luz da Razão

E para melhor nos alumiar
Acendeu outra luz no coração

Que melhor vê, quem o Bem praticar

terça-feira, 27 de maio de 2014

Se o poeta amasse sinceramente






Se o poeta amasse
sinceramente
não faria do amor
poesia

Limitava-se a amar
tão somente
amar não é fantasia

Se o poeta sofresse
verdadeiramente
não faria da dor
poesia

Limitava-se a sofrer
como toda a gente
sofrer não é filosofia

O poeta não sofre suas dores
nem ama seus amores
ama e sofre as dores e os amores dos demais

O poeta só é sincero quando escreve versos de combate
poemas intemporais
por toda a parte
sejam de amor
de dor

ou de alegria

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Não me verás a acenar, a dizer-te adeus




O verde-esmeralda do teu mar interior
esse mar mediterrânico de amor
vai virar azul
e debruar-se de lampejos doirados
de desilusão

Mas o arco-íris da paixão
vai estabelecer uma ponte
uma grinalda florida
por cima do oceano
entre o teu e o meu
coração

Então as larvas da saudade
transmutar-se-ão em borboletas coloridas
os versos em rimas redimidas
e os poemas em cometas

Cometas que são livros
a derramar estrelas
de iluminar

E sempre nos poderemos reencontrar
a meio do mar

Não me verás a acenar

a dizer-te adeus

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Pedra de sonhar



Sinto o corpo inteiro
a levitar
sem da alma
se separar

Agarro-me desesperadamente a mim
sinto medo de voar
assim

Flutuo como pedra
no ar
por entre as nuvens

Penedo
medo pesado
ejectado no sonho

Enorme
disforme
a rasgar a Razão

Força da explosão
que implode o coração

Pesadelo
pedra de sonhar
miragem

Antes fosse folha
pétala
pena
etéreas como o pensamento
que a mais leve aragem
o mais brando vento

fizesse voar

terça-feira, 20 de maio de 2014

Há amar e amar, há partir e ficar






Especado no cais
hesito entre ficar
e partir
ir atrás do seu olhar

Abstraio-me

Dou asas ao coração
mergulho na sua imagem
no reino da ilusão

Inunda-me uma vaga de desejo
venço a onda do embaraço
passo à acção
à palavra
ao beijo
ao abraço

Afirma-se a paixão

Sinto que me quer
que não é miragem

Será que existe?

Insiste

Especado no cais
hesito entre ficar
e partir
ir atrás do seu olhar

Não sei para onde me leva

para onde vai

terça-feira, 13 de maio de 2014

É de mim que menos sei







Julgo saber tudo de mim
mas não será tanto assim

Não tenho grandes dúvidas do meu passado
apesar das muitas coisas que já esqueci

Lembro-me bem do sítio onde nasci
do meu percurso

Corri mundo
viajei
vi
vivi
senti
amei
sofri

Estudei
aprendi conhecimentos sem fim
artes
ciências
técnicas

Conheci pessoas
lugares
mas é de mim que menos sei

Pouco ou nada sei de mim!

E que me importa saber que a Terra é redonda
que os astros se movem no Universo
e coisas assim
se pouco ou nada sei de mim?

Quando me for dado conhecer-me
saber tudo de mim
saber quem verdadeiramente sou
por detrás de um registo civil
perdido entre tantos mil…

Saber o que faço aqui
e para onde vou
então sim tudo saberei
todos os mistérios se revelarão
e todas as dúvidas cessarão

Saberei se o Além existe
se é finito ou infinito
o Universo
e qual é o seu reverso
que coisas são o Espaço e Tempo
o Amor e a Verdade
a Santíssima Trindade

É a mim que eu procuro conhecer
a chave de tudo está em mim

…Sou eu!

domingo, 11 de maio de 2014

Será uma glândula avariada?





Uma angústia larvar
me apoquenta
desde que me conheço
e que em vão
procuro decifrar

Não é problema de salário
ou de pão

Muito menos da conta da electricidade
da falta de fama ou a de glória
ou de males de coração

Sinto-me feliz fora da História
e se a energia eléctrica falhar
passarei bem sem internet ou televisão
porque tenho o sol para me alumiar

Amor?!
Tenho muito para dar
não para vender
e pão…
até ver não tem sido preocupação

Também não tenho
tanto quanto sei
qualquer glândula avariada
e o meu cérebro não sofreu nenhuma pancada

São coisas mais complexas
e etéreas
que me afligem
e não sei explicar

E que tento converter
em poesia

embora com alguma fantasia

sábado, 10 de maio de 2014

Talvez…



Talvez…

talvez minha mãe
me tenha estreitado demais, em seu seio
quando eu era menino
de coração aberto
pelo receio
e coberto
com demasiado afecto
e carinho

Talvez…

talvez meu pai
tenha levado longe demais, em mim
a ideia de verdade
liberdade
aventura
e altivez

Talvez…

talvez o meu povo, simples e probo
me tenha moldado de forma especial
com a sua generosidade ancestral
a sua simplicidade
rusticidade
e honradez

Talvez…

talvez a minha Terra Quente
me tenha marcado profundamente
com o calor do seu Verão
destemperado
e o frio do seu Inverno
desmedido
com a eterna promessa de parúsia
em cada Primavera
e o seu raro Firmamento
de religiosidade iluminado

Talvez…

talvez Cristo Jesus
e a sua Cruz
me tenham tocado
demasiado fundo
o coração
e transformado
para sempre
a minha vida
numa permanente oração

Talvez…

talvez a minha Pátria, Portugal
me tenha desiludido
e traído o Império Místico da Irmandade Universal
a razão de ser
português

Talvez…

talvez por tudo isso
eu esteja agora aqui
deprimido
angustiado
de coração agitado
confrontado comigo
com os meus
com Deus
os céus
as misérias do mundo

e o fracasso da Civilização…

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Quem sou, não sei, nem sou






Sou
isso sei
fogo-fátuo
fagulha a cruzar o céu da vida
e do mundo
por entre miríades de estrelas

Um grão de areia perdido no areal
de uma praia sem fim sem ser eterna

Uma bolha de ar que rebenta
na espuma efémera
quando as ondas do mar deixam de bater
as arribas
ou os desejos de amar arrefecem

Uma folha que vicejou
e acabou por tombar
amarelenta
levada no vendaval
por entre milhares de folhas iguais
e que o jardineiro a arrasta para o monturo
pelo Outono

Sei que não viverei sempre
ainda assim vivo para sempre

Sem limites
porque o meu limite
está além do Universo
do verso do sentir
do reverso do devir
da razão do dever
e do ter que ser

Quem sou
não sei

nem sou

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Quereria ser eu a ler os meus poemas



Quereria ser eu a ler os meus poemas
uma só vez que fosse
se tal possível fosse
para melhor sentir o travo agridoce
de não ter escrito o que queria
escrever

Abrir o livro
ou a página da internet
e deparar com eles sem os conhecer

Sentir o efeito de surpresa
melhor avaliar o seu peso
e a sua leveza
a sua verdade
e originalidade
e poder rever-me neles
com se num espelho me reflectisse
ou numa fotografia me retratasse

Ou talvez não
quem sabe se com eles deparasse
sem os conhecer
nem sequer me desse
para os ler

Pura imaginação
aos meu poemas sempre os escrevo
e reescrevo
leio
e releio
e neles me enleio
com o coração

Os meus poemas são tudo que sou
ninguém mais os poderá escrever

que não eu

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Espaço-tempo-amor-além


Paro para pensar
anulo o movimento
anula-se o tempo
e alarga-se o meu
Eu

Rumo à Eternidade
por dentro e por fora de mim
em busca do Absoluto

A partir daqui
deste meu reduto de espaço-tempo-amor além

Daqui
deste meu chão

Meu sítio
meu canto
meu mundo
meu berço
meu lar
meu ninho
minha terra
minha pátria
meu céu e meu mar
minha ampla planura
minha serra a cerrar o horizonte
minha névoa e luar
meu covil e castelo
meu casebre e palácio
meu sol de abrasar
minha lura de lebre
meu espaço com fim
minha janela aberta à Eternidade

Porta de sonho e esperança
escancarada no seio do Cosmos
na angústia e na saudade
vidraça do futuro e da lembrança
que tento partir
à pedrada
qual criança

Daqui
deste meu sítio
onde dependuro pote
e capote
Me sento e me amanso
durmo e descanso
canto e rio
grito e cicio

Por entre ranger de estrelas e ladrar de cães
choro de crianças
aflições de mães
trinados de aves
toque de finados
e o silêncio
indiferente
de Deus
com que me aflijo
e angustio

Daqui
deste meu chão
por este meu reduto de espaço-tempo-amor-além
impregno o Cosmos de meus odores
e humores
minhas lágrimas e meu mijo
meu cuspo, suor e sémen
uivos de dor
canções de amor e de embalar
sussurros de presença
gritos de ausência
tédio e saudade
perfume de tília
colorido de glicínia e buganvília
ensopado de vida e angústia
por dentro e por fora do Alfa e do Ómega
de onde o espírito advém

Daqui
deste meu mundo
moldado por minhas ideias
e mãos
sonhos e sofrimentos
angústias e tormentos
assobiados por mim e pelos ventos
que por aqui perpassam
pelas asas dos pássaros que esvoaçam
por mil raízes que minam o solo em procura de húmus
e consolo

Não para sobreviver
mas para dar frutos
e alegria
porque vida e guarida
a têm garantida

Aqui e agora
por este meu reduto de espaço-tempo-amor-além
liberto da cobiça e da obrigação de ir à missa
e dizer ámen
compreendo também
a filosofia de meu avô João:
«A Salvação
uma libra gasta
outra na mão»

E espero
aqui
um dia
Vir a morrer
crente de que a morte
é um passo da vida vivida
não um golpe de má sorte

É um adeus definitivo
não o definitivo adeus

Paro para pensar
anulo o movimento
anula-se o tempo
e alarga-se o meu
Eu

Rumo à Eternidade
por dentro e por fora de mim
em busca do Absoluto

A partir daqui
deste meu reduto de espaço-tempo-amor-além


in Angústia, Razão e Nada (Temas Originais-2001)