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sábado, 28 de junho de 2014

Em tempo real



No exacto instante em que pousas a vista
neste primeiro verso

Anota o tempo
e regista o local preciso
do Universo
em que te encontras

Se possível coloca um cronómetro a contar

Lê bem alto
em silêncio
para ti
este poema
por forma a ser ouvido
por todas as partes do teu ser

Não sou eu que falo contigo
e a mim
tão pouco
sequer
me podes imaginar

És tu que fantasias
e vives poesia
em tempo real

Quem escreve apenas exterioriza
a menos que se coloque no teu lugar

Todo o processo criativo é angustiante
para quem cria

O poeta real é aquele que lê
sente
interioriza
e se põe a divagar

Se liberta de si
do mundo
e cavalga o vento

Que se ergue por dentro
a viver aventuras
impossíveis de contar

Alguém que a si muito se estima
que não se atém a uma palavra
a um som
a uma rima
e tudo lhe serve para poetar

Que reduz o espaço
a um abraço
o tempo a uma eternidade

Para o cronómetro
agora

Nem deste pelo tempo passar

Terão sido segundos
ou uma eternidade?

Esteves-te aí
ou noutro lugar?

Eu não sei

Apenas sei que acabei

por te abraçar

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ninguém comanda o coração






Ousa persuadir-me a que a ame
com gestos ousados
de sedução

Eu tento dissuadi-la de que me ame
e de que pretenda que eu a ame
com gestos forçados
de desdém

Nem ela
nem eu
porém
sabemos como este jogo vai terminar

No amor não existe persuasão
nem dissuasão

Apenas há o momento certo
imprevisto
de amar
alguém


Ninguém comanda o coração

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Minha Terra Mãe



Enlevam-se meu olhar, meu coração
Neste mar de oliveiras prateadas.
É meu berço de colinas requebradas!
Toma-se todo o meu ser, de comoção.

As aves voam em livre formação
Pela branda brisa da tarde embaladas.
São pela Mãe Natureza abençoadas!
Dão asas à sua mais pura paixão.

É terra sagrada pela oliveira
Tocada da mais lídima quietude.
É ganha-pão de gente simples, ordeira,

Que nos vales do rio e da ribeira
Cultiva essa agrária virtude,

Assim houvera paz, na Terra inteira!

terça-feira, 10 de junho de 2014

De nada serve a luz do dia se nos amamos à noite






Fecho os olhos
para melhor a ver
com as minhas próprias mãos

Tenho gravado no cérebro
o seu olhar sedutor
e para melhor a ver
abro olhos em cada dedo das mãos
em cada poro da pele

Os meus ouvidos ouvem tudo o que tem para me dizer
diga-o ou não
mesmo quando em silêncio
se entrega à devassa dos meus braços
ao esquadrinhar dos meus dedos

Ademais o seu corpo ganha fluorescência de tanto prazer
e acaba por iluminar o meu

Nada mais temos para ver
ouvir
dizer
apenas e só
sentir

Senti-la
eu
a ela
sentir-me
ela
a mim

De nada serve a luz do dia
se nos amamos à noite
na doce obscuridade da mais estreme intimidade
e em silêncio
com esfuziante alegria
interior


Em transe de êxtase

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Voam versos, voam penas



Passo
por onde passo
esvoaço
como pássaro
soltando poemas
preso aos dilemas
do viver

Voam versos
voam penas
não paro de esvoaçar
quanto mais me solto
mais acabo de me prender
e enredar

A minha poesia voa
voam versos
voam penas
nas asas da fantasia
continuo a adejar
e a sofrer
ansiedade

Até um dia
poder ser eu
a voar

de verdade

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Em que alvorada irá meu espírito despertar?



Exausto
limito-me a deixar-me adormecer
sem saber
nem tão pouco me preocupar
quando
como
e aonde irei acordar

De pronto
entro a sonhar

Sonhos súcubos
coloridos
doridos
alma e corpo a guerrear

Fenómenos oníricos
pensamentos empíricos
que tento em vão traduzir
agora já acordado
enredado no insolúvel trilema
deste poema

Sou contudo levado a deduzir
que sempre que sonho a dormir
é o corpo que sonha
mas a alma
que tenta acordar

E que sonha o espírito
quando vivo
de verdade
no corpo e na alma
sonho ou realidade

Por isso anda a minha alma angustiada
a pretender saber
em que alvorada

irá meu espírito despertar

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Diz-se do ódio o que se diz da paixão



Amar
amamos pessoas verdadeiras
e inteiras

Não amamos só um rosto
um braço, uma perna, uma mão
tão pouco só um corpo, um estatuto
sequer só um coração

Amar
amamos algo de imanente
permanente e transcendente
desconhecido
distendido
que não se encobre nem disfarça
e não nos embaraça

Daí que o motivo do nosso amor
possa estar numa mulher
num homem
num ente escondido
velho, novo, doente ou são

Já a paixão não!

A paixão tem rosto
e tem corpo
tem perfume
utilidade
irradia sensualidade
gera ciúme
é obceção

Apaixonar
apaixonamo-nos por uma pessoa concreta
que em nós desperta moléculas
de vício
de prazer e atracção
ou de alienação
embora com fantasia

Pessoa que nos inquieta
nos arrelia
basta um indício
uma indisposição


Por isso se diz do ódio

o que se diz da paixão