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quinta-feira, 31 de julho de 2014

O futuro do rio é o mar



Sobrevoo
vales velados de nuvens
por onde corre o rio
do destino
sendo certo que o seu futuro
é o mar

Acima de mim
o céu

Pesado
plúmbeo

De chumbo

Não rio
nem ouso pousar
em nenhum lugar

Assim vou continuar a voar
até me diluir
com poesia
numa gota de chuva
feito lágrima
de alegria

Na esperança de que o calor
do amor

me fará evaporar

terça-feira, 29 de julho de 2014

Não só no meu peito o meu coração bate



Não só no meu peito
o meu coração bate

Bate em toda a parte
em que ponho os olhos
ou os ouvidos
ou lanço a imaginação
alcance ou não
as coisas
com a mão

Bate em tudo que tacteio
em tudo que toco
com os sentidos
ou simplesmente anseio

Vá para onde eu vá
sempre lá estará
o meu coração a bater
assim
profundo
de permeio
entre mim
e o mundo

Bate também no peito de quem
também tem
um coração por mim
a bater

Bater a marcar o ritmo do meu amar
do meu sofrer
do meu prazer

E tanto assim é
que é minha fé
que mesmo depois de morrer
o meu coração

vai continuar a bater

sábado, 26 de julho de 2014

Daqui, da eternidade



Arrasto comigo o infinito
e a eternidade
para onde vou

Aqui onde estou
e no tempo em que vivo
é onde o infinito se inicia
e a eternidade começa

Vivesse noutro tempo
em qualquer outro lugar
com ar para respirar
e cérebro para pensar
sentiria a mesma sensação
o mesmo aperto de coração
o mesmo lapso de Razão

Existo
por isso
no Infinito

Moro na eternidade


in “Introdução à Eternidade” (revisto)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Deus não é nada disso






Quem sou eu para determinar
o que Deus é
ou não é?

Atrevo-me a supor, até
que Deus não é nada disso
nada do que Dele dizem

No meu entendimento
Deus
não é nada disso
não é coisa nenhuma
nem criou nada
nem ninguém
porque tudo existe
Nele

Deus
não é nada do que Dele dizem

Bom ou mau
protector
misericordioso
justo ou injusto

Tão pouco é eterno
porque em Deus não há passado, presente ou futuro
e a eternidade começa na hora da morte
quando o tempo para

Deus
não é nada do que Dele dizem
não é nada disso

Não é o que Dele dizem os filósofos
os cientistas
os teólogos

Deus não é nada do que Dele dizem
nem existe
sequer

Deus apenas É


Deus é Aquele de que falam os místicos
os anjos
os santos

É o que nos diz o nosso coração

sempre que sente amor

terça-feira, 22 de julho de 2014

Há momentos em que me delicia a solidão



Há momentos
em que me delicia a solidão
o encontrar-me a sós
comigo

Momentos em que o silêncio
é delicioso prazer

Momentos em que me liberto do descontentamento
do viver

Momentos em que vivo dento de mim
sem medo de me perder

Momentos em que a vida se refracta em amor
e alegria
no meu espírito

Momentos que devolvo ao mundo
sem dor

feito poesia

quinta-feira, 17 de julho de 2014

A mim, Deus, apenas me deu …



A mim
Deus
apenas me deu pernas e braços
o corpo
e o sopro da vida
que passei a ser eu
a soprar

O espaço para viver
e sonhar
terei que ser eu
a porfiar

Resta-me o desejo angustiado
de ser grande
bom
e verdadeiro

Por isso me parto
e reparto
na ânsia de ser inteiro

A outros
Deus
deu mais

E a muitos nem tanto

Muitos talvez se sintam aptos
e capazes de dominar o mundo
a sorrir

Outros apenas encontrarão razão
para o destruir

Eu, não!

Tento apenas
fazer valer
o meu coração

É por isso
que tanto

me apoquento

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Reflectindo sobre a vida à hora em que já são horas de jantar





Mais um dia
uns tantos quantos momentos
com predisposição para a pensar na vida

A sério

Venho fazendo isto
quase sistematicamente
desde que me dei conta que sou gente
embora aparentemente
nos outros dias
não deixe de reflectir

Sem nada
até hoje
poder concluir

Talvez desta vez chegue a uma conclusão
quanto mais não seja que tudo está fora
do alcance da Razão

Mas eu não sou agnóstico confesso
e até professo a doutrina de Cristo

Embora sinta
por vezes
vontade de me rebelar
de mandar tudo à merda
e considere pura perda
estar assim a me martirizar

Mas acabo sempre por me humildar
por caminhar sem tino nem destino
de cabeça cabisbaixa
ao sabor do vento
por caminhos traçados por montes e vales
inteiramente mergulhado na Natureza
e subjugado às forças telúricas e cósmicas
que assim livres melhor se fazem sentir sobre mim
impondo-me o seu norte


À hora em que já são horas de jantar

É então que sinto o estômago falar mais alto que e Razão
e no coração melhor ouço a voz interior
que me segreda que a minha mente é sim insuficiente
demente
mas que não me importe

No coração palpita o espírito
que acende um calorzinho interior a que se chama amor

E aí
sem ter que pensar
encontro resposta para tudo


Até para a morte

terça-feira, 15 de julho de 2014

A minha alma



A minha alma
é o mundo em que todas as coisas existem
acontecem
persistem
e desaparecem
e o amor
e a dor
coexistem

É o espaço em que giram todas as galáxias
e universos conhecidos
e os que estão ainda por descobrir
em que as estrelas brilham
os ventos sopram
e as palavras
se concertam em versos
e os versos em poemas

É o mundo em que batem corações
e se levantam questões
e dilemas

Sobretudo aqueles que ninguém entende
ou não têm resposta
nem na minha alma
nem fora de mim

A minha alma é caos
e cosmos
o hiperespaço em que eu aconteço
não sei o que penso
o que digo
o que faço
caminho pé ante pé
me mereço


A minha alma é o templo
sem tempo
onde se acende
a chama
da fé
e Deus

se transcende

sábado, 12 de julho de 2014

Gioconda



A sua boca cala-se
e se fala
é para nada me dizer

Pudesse eu adivinhar
o que os seus olhos dizem

Pudesse eu ter a certeza
de bem interpretar
o seu olhar

Pudesse eu ouvir
nos seus olhos
o seu coração a bater
por mim
já que beijá-la não posso

Se me aproximo
afasta-se
mas continua a olhar-me
de longe
distante
e eu continuo sem nada entender

Sinto no seu olhar
que o seu coração bate
por mim
só para me perder

Que os seus olhos mal me dizem
o que me quer dizer
porque tem medo
de se prender

Eu fico desolado
a moer
e a remoer
o significado
desse seu olhar enfeitiçado

Porque a sua razão decide não dizer
o que o seu coração lhe diz
e que os seus olhos mal me dizem


in Mulheres de Amor Inventadas (Outubro 2013)

domingo, 6 de julho de 2014

Coisas sem tino






Tantas coisas sem tino
e todas têm destino
mesmo a morte
meu Deus!

O mero golpe de má sorte
a dor que não acaba
a felicidade adiada
a paixão que chegou ao fim
parecem não ter sentido
nem valerem de nada
como a voz
que o vento
leva

Mas será que é mesmo assim?

Perceberemos com o tempo
porém
que algo fica em nós
para sempre
algo que levamos para o além

E a lembrança delével
que o tempo releva
e na memória se tolda
poderá bem ser
a transformação indelével

que nos molda

sábado, 5 de julho de 2014

Sento-me de novo na pedra de sempre



Rodou o tempo
outro é o vento
nada
ou quase nada
mudou

Dei volta à vida
mundo fora

Volto agora
a sentar-me na mesma pedra
emoldurada de hedra
postada no recinto
da velha ermida
voltada para Poente
erguida numa colina sagrada
da minha amada
Terra Quente

Que bem aqui me sinto!

O mesmo Firmamento
as mesmas luarentas noites de Verão
que me marcaram a mente
e iluminaram o coração

As mesmas estrelas
as mesmas constelações
os movimentos de sempre

As mesmas emoções
a mesma silenciosa solidão
os mesmos sonhos
a mesma Fé
a mesma oração
a mesma ânsia de verdade

De diferente
apenas e só…
mais
e  mais
da mesma…

Saudade

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Agora, ando a aprender a pensar



Durante a minha vida inteira
aprendi mil formas de raciocinar
da melhor maneira

Oh, que grande asneira!

Aprendi a soletrar
palavras e letras
a ler
e a escrever

Tretas!

Aprendi números e algarismos
a contar
somar
subtrair
multiplicar
e dividir

Calculismos!

Devorei compêndios de gramática
e de matemática
tratados de ética e de lógica
físicas e filosofias

Fantasias!

Aprendi a falar verdade
e a mentir
a ficar e fugir
a tocar violão
a matar ou morrer
a sobreviver

Socialização!

Agora
ando a aprender a pensar
e a amar
sem números ou letras
nem outras petas
para me libertar


Revelação!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Esta crónica angústia



em mim
uma angústia crónica
que não tem a ver com sucessos
ou derrotas
amores contrariados
saldos bancários deficitários
com a crise instalada
ou qualquer glândula avariada

É uma angústia telúrica
que a terra
exala

É hálito podre
dos monturos de dejectos
do carvão e do petróleo
do alcatrão das estradas
dos escapes dos motores
da borracha e do óleo
da tirania dos ditadores
dos políticos impostores

em mim
uma amargura emergente
um aperto de coração
que tem a ver com a política
com o rumo da civilização

É uma amargura a um tempo cósmica
e telúrica
a dizer-me que assim
não vamos a lado nenhum
que nem valerá a pena
ousar conquistar o Espaço

Amargura telúrica
vinda do fundo da Terra
angústia cósmica
crónica
vinda dos confins do Universo
que se fundem em mim
como se estivessem à minha espera

Que me levam à contemplação das estrelas
no silêncio da noite

A refugiar-me nos templos
em oração
a procurar refúgio na Eternidade

Porque indiciam a agonia da Terra

o fim da Humanidade