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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Como pode a vida ter por fim a morte?


 

 

Como pode a vida ter por fim
a morte?

Ainda que o fim da vida
seja morrer?

Se viver
é uma caminhada interior
por mundos de dor
e de amor

Por espaços abertos
de ideias
e de afectos
a meias com o mundo exterior

É vencer montanhas de glória
de derrotas sem história
selvas de ambição
desertos de sonhos
pântanos de frustração

Sem se poder parar
ou sequer descansar
porque o coração não pára de bater
nem o cérebro de pensar
nem a alma de sentir

Se morrer é apenas desistir
de acreditar

E viver é libertar!

domingo, 28 de setembro de 2014

A arte de amar depois


 
 
A poesia
é a arte de amar
e sofrer
depois
sem querer
com fantasia

Mal a alma se parte
e reparte
depois que se perdeu
o amor
ou se deixou
de sofrer

É a música do silêncio
e da solidão
a pintura sem tintas nem pincel
a escultura sem pedra nem cinzel
o desenho sem carvão

E o poeta é o artista
que continua a sofrer
quando já não sente dor
no coração
e que tudo diz por poesia

É o amante à procura de mais amor
o malabarista
da alegria

A poesia
é a arte de amar
e sofrer
depois

A sós
a dois
a mais
sempre
nunca
ou jamais

 

Depois

sábado, 27 de setembro de 2014

A missão do homem é amar


 
 


A missão do homem é amar

Amar a mulher por inteiro
com a alma e o coração
com todos os sentidos
e a força da paixão

Amar toda a Humanidade
de verdade
e fazer-se amar
pelo Mundo inteiro

Amar o vento
abrir-lhe o peito

Deixar que seja o vento
a disseminar
de qualquer jeito
por todo o tempo
e lugar
a força do seu amar

Amar o mar
abrir-lhe o coração

E que as ondas que lhe acariciam corpo
banhem areias e praias
com o sopro
do seu amar

Amar a luz das estrelas
abrir-lhes o seu olhar

Deixar que suas luzes nele se reflictam
e levem de volta ao Cosmos
o reflexo do seu amar

Tudo a seu tempo
advento de Iluminação!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A vida é uma debandada


 
 


Vivemos os dias

quais aves

leves

livres

felizes

a voar

em bando

 

De asas a adejar

a acenar

amando

 

E as noites

pousados

nos ramos das árvores

a sonhar

 

É assim o nosso brando viver

até saber que coisa é

morrer

 

Depois

a vida é uma debandada

 

De aves a voar

de asas adejar

a acenar

a dizer adeus

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Não vejo que possa vir a ser deus




Tão curtos são os meus passos
tão frouxos os meus abraços
tão limitado o meu olhar
e tão falível a minha mente
que duvido que algum dia
mesmo por fantasia
possa deixar de ser gente
e vir
a ser
deus                             

Anjo sequer

Muito menos se me fizesse deflagrar
fosse porque causa fosse
mesmo por uma mulher
qualquer

E como poderia eu tirar gozo de mil virgens
num paraíso irreal
já sem pernas
nem braços
sem pénis e sem beiços
com que as pudesse possuir
e amar?

Nem mesmo imaginar

Já trágico será
sorrir


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Por alma de quem lá tem…





(Reposto no Dia Mundial Da Caridade)

Sou do tempo em que na minha amada Terra Quente transmontana
que Ceres prendou com searas de pão e trigo, vinhedos e pomares
e com o maior agro deleite que é o azeite, virgem como a Verdade
tinha força e sentido a palavra Caridade.

Começava-se o dia com o canto do galo ao halo do arrebol
esboroava-se o xisto à força da charrua e da enxada
martirizavam-se os corpos com o trabalho de sol a sol
migava-se o caldo com pão centeio, rijo como penedo
e alagavam-se os corações de suor e de saudade
daqueles que ousavam vencer o medo
em procura de melhor viver
nos caminhos desolados da emigração.

Aos sem eira nem beira não restava outra coisa, porém
que a mendicidade, a generosidade alheia e a resignação

Guardo na memória a alegria de uma infância feliz e sadia
mas ainda me dói a tristeza e sofrimento dos pedintes andrajosos
que sem nada terem de sua pertença
deambulavam de aldeia em aldeia e de casa em casa
à procura de uma brasa, de uma candeia acesa na lareira
que não lhes negasse o alento e a certeza de sustento
para o corpo sofrido de frio e doença.

Paravam no primeiro degrau da escada, batiam o bordão
e suspiravam um lamento, alijada a carga de dor e desilusão.

E quando o rafeiro se calava e os deixava fazer ouvir a sua prece
entoavam, com fervor e devoção, uma oração monocórdica
ladainha que misturava pai-nossos, malgas de caldo e ave-marias
com caridade, piedade e as almas que Deus tem, que já lá estão.

Era minha mãe a primeira a descer a escaleira, de coração condoído
já de almontolia na mão para atender o infeliz desafortunado
que ajoelhado soerguia o rosto, subia a voz e o tom da súplica
capaz de comover o coração mais empedernido:
 - Uma esmolinha…por alma de quem lá tem…!

Só quando o fio de azeite luzia em movimento para dentro da lata
que o infeliz trazia pendurada ao pescoço, se interrompia a triste litania
para deixar ver uma réstia de alegria e um tímido alvoroço
enquanto minha mãe despejava todo o azeite do seu coração
e mais o que trazia na almotolia, e respondia disfarçando a emoção:
- Deixe lá ficar as almas no lugar delas…que bem lá estão!

Era assim a solidariedade naquele tempo! Uma troca inocente
de parco conforto, caldo, pão e um dedal de azeite
pela prece de um desvalido imundo, pelas almas do outro mundo.

E também havia solidariedade no amanho do campo
nos desmandos da vida e nas horas de pranto
mas outra coisa era a Caridade de minha mãe
que fazia bem sem olhar a quem, e sem esperar nada de volta
nem sequer uma humilde lamúria, uma oração espúria.

Reinventaram agora, porém, a palavra solidariedade, para espanto,
a que também chamam de cooperação! Oh, óleo sacrossanto!
Já não é o azeite a moeda de troca. Negoceia-se agora mais alto!
Na verdade, é o negro e viscoso petróleo, e maior é o sobressalto!

Mas…

que solidariedade ou cooperação poderemos nós oferecer
à legião de desafortunados que agonizam na mais abjecta miséria
sem nada terem para troca, coisa alguma para dar de volta
tão pouco força anímica para um mero grito de revolta?

Solidariedade?! Com todos os machuchos, tiranos e nababos
que à míngua deixam os seus morrer à fome, à vista de toda gente?

Porque continuam os donos do mundo a lavar as mãos como Pilatos
agora no viscoso petróleo, o amaldiçoado óleo dos diabos
que lhes faz voar os jatos, envenena a Terra e promove a guerra?

Não merecerão esses nossos irmãos infelizes também ser,
por nós amados e que tudo façamos para os salvar?
Na certeza de que nada nos darão de volta, porque nada têm para dar!

Porque se não globaliza a cristã Caridade? Caridade, sim, a Caridade!
Como a paixão de Cristo por nós, a que S. Paulo chamou “knose”!
Que não tem nada de utópica, nem a ver com a filosófica gnose
e muito menos com a demagógica solidariedade!
É apenas uma questão de mero Amor!
De sentir a dor dos outros: amigos, inimigos ou neutros!

Caridade como a praticava minha mãe
e ainda a praticam muitas mães, por cá!
Como a praticou Agnes Gonxha Bojaxhiu, por todo o mundo
e como melhor se sentiu nas ruas da vergonha de Calcutá!

A maior arma de destruição maciça é a fome! Do corpo e da mente!
A que existe e a que está para vir!
Está à avista de toda a gente!

Porque se não mobilizam os exércitos para a destruir?