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sábado, 31 de janeiro de 2015

Poesia que sinto e não escrevo


 

Passa nas nuvens
nos sonhos
nos desejos
a correr
fugaz

Sob mil formas de amar
e de sofrer
de vento
e de contratempo

A poesia que sinto e não escrevo

Porque não sei
não quero
não tenho tempo
ou não sou capaz

A poesia que sinto
e não sei escrever
é angústia
é tormento

Epifenómeno do meu viver

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Canto e assobio baixinho


 

 
Quando caminho
pelo campo
sozinho
canto e assobio
baixinho
como quando menino

Como se sem querer quisesse
com a natureza melhor me identificar

Como se eu fora ave
no céu
a voar

Vento
aragem
miragem
sobre os campos
a pairar

Ideia
sonho
risonho
flor
a florir

Vontade de amar

Coração
a bater
sem mãos a medir

Poeta

Alma aberta

Razão
prestes
a explodir

domingo, 25 de janeiro de 2015

Quando a minha sombra mais se alonga


 

 

Não conheço o turno
do sol
nascente

Apenas sei que nasce atrás de mim
lá para as bandas da serra de Bornes

À hora da alvorada ainda durmo

Mas sei que o sol
poente
oscila
entre o cabeço do Boi e a Santa Comba

Entre as cinco da tarde no Inverno
e as nove da noite
no Verão
quando a minha sombra
mais se alonga

E não é por acaso

É porque caminho pelo ocaso
quando a minha mente
se perde em divagações astronómicas
dilacerada entre poesia e astronomia

Quando a minha alma mais sente
se angustia
e delira em arrufos místicos
espontâneos

sábado, 24 de janeiro de 2015

A quem me lê me confesso


 

Poeta assumido
sempre falo de mim
na poesia que escrevo
por não saber guardar segredo

Mesmo quando de mim
nada digo
porque de mim
pouco sei

E mais de mim digo
naquilo que de mim escondo
do que naquilo que de mim
tento não dizer
por querer
ou no que de mim
escondo sem saber

Mas quem me souber ler
com perspicácia
vencerá a minha audácia
em me esconder
e mais do que eu mesmo
de mim mais ficará a saber

De mim próprio apenas sei
confesso
que não sou não
o poeta que penso
nem o poeta professo
que ainda assim
gostaria de ser

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A partir das sete horas da manhã de amanhã


 

 

Rigorosamente a partir das sete horas da manhã
de amanhã
hora a que habitualmente me levanto
deixarei de acreditar
e de ficar à espera

Porei de parte ilusões
ambições
fantasias
arrelias
sonhos de glória
e a ideia maior de passar à História
herói ou santo

Deixarei de ter dúvidas
e de me angustiar

A partir das sete horas da manhã
de amanhã
rigorosamente
hora a que habitualmente me levanto

Limitar-me-ei a viver
a voar livre como os passarinhos
e a assobiar pelos caminhos
como quando era criança
quando ainda não sabia o que era angústia
ou esperança

A partir das sete horas da manhã
de amanhã
irei limitar-me a dar
e a receber amor
a criar alegria
a espantar a dor
sem esmorecer

Contudo
irei continuar a escrever
poesia

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Amar é contra-senso ao que penso


 


Amar é um sonho
risonho

É ter a vida reservada
por tudo e por nada

É andar na lua
pela rua

É sentir-se livre
estando preso

Viver na ingenuidade
mas usar de malícias
nas delícias
de fazer
amor

É voltar a ser criança
sem querer

É falar verdade
e mentir
a sorrir

É esquecer a idade
e a distância

Amar é contra-senso
ao que penso

sábado, 17 de janeiro de 2015

A mim não me importa o que escrevo


 

 
A mim não me importa o que escrevo
nem se o faço no vento
na água
no tempo
ou noutro meio qualquer

 
Muitas vezes nem sei o que digo
o que faço
ou semeio sem querer

Importam-me sim
as mil coisas que outros leem
naquilo que eu escrevo
com enlevo

Cada um à sua maneira
seja qual for sua cor
ou sua bandeira

A mim
basta-me pensar
que cada novo verso

que eu publicar
por mais bisonho
abre um novo universo
que alguém irá povoar
de sonho

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O AMOR COMO O FOGO


 
 
Percebemos o fogo
como algo exterior aos corpos
que os queima
os consome
e reduz a cinza

Na verdade
o fogo
está neles

É o Sol aprisionado
que se liberta
na combustão

Percebemos o amor
como algo que nos é exterior
se apodera de nós
e nos transforma

Mas não
o amor está em nós

É centelha divina
que se liberta
e retorna a Deus

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O que mais me faz pensar


 
 

Ainda assim
o que mais me faz pensar…

É pensar
que um dia
vou ter que deixar
aqueles que a vida
mais me fazem amar
por tanto lhes querer

É pensar na razão de ser
de um puro amor interior
e na dor
de um dia ter que o perder

Será que o Criador
assim o quis dispor
para nos por a pensar?

E por força de pensar
e de nos rasgar o coração
mais nos abrir a razão
e nos forçar à salvação?

sábado, 10 de janeiro de 2015

Plantando poemas


 

 

O meu exercício predilecto
que faço com agrado e afecto
é plantar um poema
com a pena
ou com o teclado

Ou simplesmente com a pá
quando escavo o húmus da vida
e planto árvores
sorrisos e abraços
por todo o lado

Uma tília perfumada que seja
um pé de chá
ou uma chávena de café
simpatia que se veja

E o odor da infusão
e a força da fé
penetram fundo no meu coração
me transmitem calma
e me deixam a alma
consolada

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Estas pedras são as mesmas



 

 
 
Esta pedras
deslavadas pelo rio
puídas pelo tempo
erguidas em ideia
areia
e cimento
 
Estas pedras são as mesmas
 
Apenas mudam as paredes
as pontes
as fontes
em que se concertam
e os poemas que despertam
 
São muros
mudos
que nada dizem do futuro
próximo ou distante
embora falem do passado
estuante
não relatado
nos anais
 
Estas pedras são as mesmas
 
São sinais
 

 

Um Novo Ano já este ano era bom que fosse


 

 

Uma volta mais a vida dá
em torno do sol
da ilusão

Sem se saber desde quê
e até quando
baterá
o coração

Folha de calendário
encadernado em fadário

Desprendida dos ramos
dos anos

Despedida de tudo
chegada de mais nada

A não ser
mais sonho
mais dor
menos amor
e parca poesia

Baile de fantasia

A alegria e o sofrimento
não têm tempo

Trá-los
e lava-os
o vento

Um novo ano já este ano era bom que fosse

Diferente
para tanta gente
para quem todos os anos são iguais
fartos de lágrimas e ais