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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Das terras de Trás-os-Montes apartou Deus o mar



 Das terras de Trás-os-Montes
 apartou Deus o mar
 para que transmontano soubesse
 que coisa é emigrar
 e do lado de cá aprendesse
 a força da palavra amar
 e do lado de lá sentisse
 que sabor tem
 ter saudade

 Das terras de Trás-os-Montes
 apartou Deus o mar
 um oceano de granito
 e xisto
 deixou em seu lugar
 para que transmontano aprendesse
 que coisa é labutar

 Das terras de Trás-os-Montes
 apartou Deus o mar
 férteis veigas de húmus
 deixou em seu lugar
 para que transmontano aprendesse
 a colher
 e a semear

 Em terras de Trás-os-Montes
 na parte mais altaneira
 criou Deus a Montanha
 com semente de castanha

 E na parte mais ribeira
 plantou a Terra Quente
 com ramos de oliveira
 trazidos do Oriente

in "Minha Mátria Terra Quente" (Ver-o-Verso 2005)

terça-feira, 26 de maio de 2015

Onde é o além?


 

 

Deito-me
em decúbito dorsal
relaxado
livre do bem
e do mal

Envolto em perfeito silêncio
e escuridão
os olhos fechados sem nada ver
os ouvidos sem nada ouvir
sem sentir o coração bater
nem me dar conta de respirar
nem do tempo fluir

Sem me afectar a mais leve emoção
no  presente
a mais ténue saudade
do passado
a ansiedade mais débil
do futuro

De memória desmemorizada
de nada
e a consciência em total ausência
de tudo
 
Com o cérebro a “cerebrar”
que não a pensar
e que tento também, em vão
parar

Acabo por acordar
e deixar de sonhar

Num sopro saio do corpo

Passo a tudo ver
ouvir
e sentir

Fico sem saber
porém
para aonde ir
nem onde
é
o além

sexta-feira, 22 de maio de 2015

As águas do meu rio Rabaçal



 

As águas do meu rio Rabaçal
correm
correm
sem cessar

Vão polindo de mansinho
as duras fragas
que lhes barram o caminho

E mais aprofundam o leito
em que nunca se deitam

Como as águas do meu rio Rabaçal
que correm sem parar
assim é o dia-a-dia
da minha pura poesia

Vai fluindo sem desfalecer
polindo o meu destino
aprofundando o meu viver
por desígnio divino

As águas do meu rio Rabaçal
quando alcançam o mar
transbordam em Oceano

Eu procuro sem engano
com poemas de verdade
em mar de amor desaguar

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Clepsidra


 
 


Chama-se poesia
a clepsidra
que marca o meu dia-a-dia

É a medida do meu tempo

É o vento da vida a passar
toque de realejo
vontade-desejo
de amar

Nela fluem afectos
ideias
grãos de areias
sonhos despertos
pedaços de Universo
formatados em verso
à medida que a vida
se esvai

Pinga
pinga
vai pingando
pingos de amor
de alegria
de dor
de pura amargura
nostalgia
e saudade

E pingo a pingo
um oceano de fantasia
sem fundura
se vai formando
de verdade

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A poesia é o que é e os poetas são o que são


 
 

A mais elástica
plástica
moldável
amorosa
amorável coisa

que se conhece
é a poesia

Forma-se
e deforma-se
em mil formas
de amor
dor
e apostemas
de todo o sabor

Dá para tudo!
 
Para todos os santos
e diabos
almas simples
espíritos iluminados
para o bem e para o mal
a todos serve
por igual

Com rima ou sem rima
tem gente que a adora
e a estima
e gente que a odeia
a abomina

Gente que a toma a sério
e gente que dela se ri

Gente crente
e descrente
agnósticos
ateus
gregos e arameus

Presta-se a cantar
declamar
ler
sofrer
amar
odiar
insultar
enaltecer
glorificar

irritar
serenar
ou tudo deitar a perder

Existe em tudo
e por todo o lado
em todo o tempo
faça chuva, neve, sol
ou vento
seja duro
ou seja mole

Na virtude
no vício
na vida
na morte
no deserto quente
no gelado
no desterro
encoraja
e causa medo

No céu
na terra
no mar e no ar

Na pena do erudito
no linguarejar do analfabeto
no espaço fechado
no campo aberto
no homem livre e no proscrito

na estética e na moral
nos dias de hoje
e de ontem
na data pretérita
no presente
do indicativo
e no futuro condicional

A poesia está por toda a parte
é omnipresente
por isso também se diz
que os poetas são anjos
e a poesia é divina

Nada disso


A maior parte são sim
grandes marmanjos
e a poesia que escrevem

desatina

Mas eu diria
que a poesia
não é nada disso
e os poetas não são ninguém
mesmo se nada devem


Diria que a poesia é fantasia
e os poetas são a poesia que fazem
e desfazem
em seu viver
de amar e sofrer
mesmo se a não escrevem


Eu diria que a poesia
não é nada disso
e é muito mais

E que os poetas não são nada

nem ninguém

Diria que a poesia
é o que é
e os poetas
são o que são

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Assobiando aos bois no bebedouro


 

Aprendi com Vinícius
velho criado de servir de meu avô João
a assobiar aos bois no bebedouro
quando regressavam do pasto
ao fim do dia
depois do lauto repasto
de feno
ferrã
e grão

Que prazer era vê-los beber
em manso remanso
de beiços a beijarem a película líquida
amansados pelo meu assobio
e a olharem-me de soslaio
com seus olhos cor de mel
a dizerem-me que lhes agradava a lânguida
melodia

De novo agora ensaio
sem desdouro
com os lábios em bisel
com o enlevo
e a nostalgia
de quando era menino
enquanto escrevo
esta poesia
e sorrio
do meu destino

iiuuu, iiuuu, iiuuu…