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sexta-feira, 12 de junho de 2015

A que horas é o funeral?


 

 

Há Domingos assim
sem nada que fazer
em que apenas vivemos
por viver
tão pouco pensamos
em morrer

São dias de manhãs enubladas
de montanhas submersas
em que o Sol se passeia pelos campos
só lá mais para a tarde

Dias em que cada um de nós
tem um percurso próprio dentro de si
e outros com os outros
e todos outros mais
pelo mundo fora

Dias em que caminho um caminho privado
num mundo meu, privativo
onde vivo livre e cativo

Mundo em que tudo gira à volta de mim
num vórtice interior demolidor
aflitivo
que varre o próprio Universo
do espaço-tempo

Quando assim é
deixo-me ficar quedo
parado
com cara de enterro
a pensar
e a esfregar o nariz

Sem me sentir triste
ou alegre
tão pouco angustiado
apenas cismado

Como quando morre alguém
que pouco ou nada me diz

A propósito:
 - A que horas é o funeral?

terça-feira, 9 de junho de 2015

Assistindo ao pôr-do-sol pousado num fio de telefone





Ufa!
Ainda estou ofegante!
Vim a correr para lhes contar

Foi uma experiência esfusiante
verdadeiramente surreal
neste início de Primavera

Acabo de assistir ao pôr-do-sol
pousado num fio de telefone
a olhar o mundo de cima
lado a lado com as andorinhas
acabadas de chegar das terras do sul
e algumas rolas turquesas
que por aqui habitam todo o ano

Todos no mais devotado silêncio
apesar dos latidos dos cães
que não paravam de correr e saltar
tentando alcançar o nosso poleiro
para também eles se empoleirarem

Lindo foi quando o astro rei
amarelo como uma gema de ovo
mergulhou definidamente no horizonte

Nesse momento todas as andorinhas me olharam
e me confidenciaram
que já haviam sido galadas
e que traziam sóis como aquele no ventre

Depois bateram as asas e recolheram aos ninhos
sem contudo se comprometerem a voltar
amanhã de manhã
para assistir o nascer do sol

Eu, por mim, lá estarei, porém!

Espero que o Sol não falte!



domingo, 7 de junho de 2015

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!


 


(Para a Rosinha, o Nero, o Quim, o Hulk, o Duque e o Toga)

 
Dedicado aos meus cães
seus pais e suas mães
aqui solto um triplo latido
sentido
em verso
disperso

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!

Talvez eles preferissem que esta poesia
tivesse forma e substância
de osso
mas não duvido
que quando pressuroso
lhes assobiar este poema
com jactância
me ouvirão com atenção
abanando o rabo
sentados no chão

É certo que não o irão comentar
mas latirão de estrema alegria
quando eu terminar

Auuuuu… auuuuu… auuuuu! 

Muito tenho aprendido eu
com o meu irmão
cão
 
Encanta-me a sua afectividade
a sua lealdade
a sua disponibilidade
a sua ternura
a sua bravura
e a sua liberdade

Oh, como eu gostava de ser assim
forte e livre!

Poder como eles correr
sem tino
atrás das aves
e sem me perder
como quando menino

Dormir ao relento sem me constipar
poder fazer sexo
livremente
à vista de toda agente
sem complexo
auuuuu…
isso não…é só mesmo de cão!

Ficar enleado
com minha amada
em prolongado amplexo
e latir, latir, latir
até me fartar

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!

Não fora o caso de ter que ter dono
de ser deixado ao abandono
ou de outra maior selvajaria
chego mesmo a pensar
se não valeria mais ser cão
que um vulgar cidadão
a quem nada adianta ladrar
na actual democracia

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Moro no infinito. Existo na eternidade


.

 

Arrasto comigo o infinito
e a eternidade
para onde vou

Vá para onde for encontro espaço sem fim

Morra quem morrer
não se acaba o tempo

Aqui onde estou
no tempo em que vivo
é onde o infinito se inicia
e a eternidade começa

Vivesse noutro tempo
em qualquer outro lugar
com ar para respirar
e cérebro para pensar
sentiria a mesma sensação
o mesmo aperto de coração
o mesmo lapso de Razão

Por isso moro no Infinito

E existo na eternidade