Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A canção de amor de Dores Roha




Apenas tu ser amado
não duvido
tens a ver com a felicidade
que vivo a teu lado

Se me assalta
a angústia da separação
qual vento desalmado
te digo do fundo do coração
o sofrimento que adviria
nada teria a ver contigo

Porque ninguém ama
por obrigação
ou continua a amar
por gratidão

Depende de mim continuar
a apertar as tuas mãos
e de ti continuar a beijar
com teus lábios os meus
mas é no amar e desamar
que mais dependemos de Deus

Não deixaria de te amar
nem que te afastasses de mim
ainda que o amor fosse então
uma saudade sem fim

henrique pedro, in Códice da Pátria Luanca (Romance) (Ver o Verso Edições, 2006)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A angústia maior é a Lua


 
 
A angústia maior é a Lua
que inunda a Terra de prata
e de sombras fantasmagóricas
de humanos que continuam a sofrer
indefesos
ao luar
sem o merecer
e sem reclamar

E as estrelas que brilham
e cintilam nos olhos das crianças
são angústias pequeninas
transformadas em esperanças

Mas a esperança maior é o Sol
que todos os dias se levanta
esplendoroso
em alarde de alegria
e se deita ao cair da tarde
com amor
para se erguer de novo
no alvor
de um novo dia

Por isso devemos ter fé
e acreditar
que a humanidade acabará

por se salvar

sábado, 24 de outubro de 2015

O universo tem tamanho e forma de verso


 

 
A vida é frustração
o cosmos é caos
e o universo
tem tamanho e forma de  verso

O amor é uma flor
e a Terra
um paraíso perdido

Dor
é aberração
e sofrer
não tem sentido

Eu
vagabundo
apesar do mundo que já vivi
amei
e sofri
continuo sem me entender

Nem a mim
nem a ninguém

Forçoso é continuar a viver
por bem
ainda assim

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Não tapem os buracos da minha rua


 

 
Não tapem os buracos da minha rua
que eu quero ver
neles reflectidos
o Céu
o Sol
as Estrelas
e a Lua
sempre que chover

Quero ver as nuvens a passar
empurradas pelo vento
e viajar com elas
em pensamento

Que eu quero ver
da minha janela
por detrás da vidraça
os salta-pocinhas
videirinhos
os pisa flores
a saltar de pedra em pedra
tão cheios de graça
e cautela
que acabam por pisar
na merda

Quero ver as damas emproadas
vaidosas de tanto asseio
a pavonear-se no passeio
ciosas da sua fama
serem salpicadas de lama
se algum carro passar
a alta velocidade
sem lhes ligar

Que eu quero poder manter
a irreverência de criança
e sorrir
com a esperança
de que a Humanidade
acabará por banir
a hipocrisia
e governar-se pela Verdade

Quero eu poder viver a vida
com poesia
sem forçar o destino
e tornar a ser menino
sempre que me aprouver

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Agora que os calos das minhas mãos florescem em rosas


 

Agora
que os calos das minhas mãos florescem em cravos
e rosas
que o suor do meu rosto frutifica em cerejas
e gotas do meu sémen geraram filhos
muito queridos

Agora que as minhas ideias se concertam em poesias
que os meus afectos encontram ecos em mil amizades
e aprendi a partilhar dores e alegrias

Agora
que admito que as minhas derrotas
foram justas vitórias de outrem
e cuido que as minhas vitórias
não sejam a humilhação de ninguém

Agora que conheço o fascínio de amar
que ainda não perdi o encanto de sonhar
e aprendi a converter angústias em preces

Agora
que da vida já não espero outras benesses
que não as de viver com verdade e amor

Agora já posso dizer
com fervor:
- Vale bem a pena viver!
Bem hajas, ó Criador!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Além. Naquele astro ali!


 

 


Além
naquele astro ali
que não é estrela
nem planeta
nem cometa
e já foi ventre
de minha mãe

Ali
naquele astro além
tão longe de tão perto
onde nada é errado
tudo bate certo
e só existe o bem

É lá que eu moro
me demoro
e exponho
por via do sonho

É ali que eu ando
errando
amando
e sofrendo
a mando
de Deus

Sem que diga adeus
nem nada diga
a ninguém

E de nada me arrependo

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Elegia de Outono


 

Há roseiras a rosir
agora pelo Outono
frágil entono
quando as romãs começam a rir
e os ouriços no alto dos castanheiros
altaneiros
quase
quase
a parir

E as andorinhas
a partir

A atmosfera
e os campos
ensaiam simulacros de Primavera
por todos os cantos
mas a cor dominante não é o verde fulgurante
pintalgado de papoilas e malmequeres
e da sensualidade desnuda das mulheres

São tons quentes de castanho
de folhas amarelecidas
que se vão desprendendo pelo vento
de árvores entristecidas
simulando alegria
em derradeiro arreganho
que é  lamento
elegia
pura poesia

Só as mães
depois que lhe morrem os filhos
não voltam mais
a sorrir

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Faunos cabisbaixos



A luz da Lua
coada pela neblina
não chega sequer a ser
luar

É tremulina
a tremeluzir
nas águas do lago
que a brisa faz ondular

Eu e minha amada
cantamos
e dançamos
nus
de mão dada
até de madrugada

Qual faunos fosforescentes
por entre as árvores despidas
despudoradas
plantadas
hirtas
no nevoeiro

Até que os fantasmas
mudos
nos gritam que já passa da meia-noite
que são horas de dormir
e eles querem livre o terreiro

Cabisbaixos
regressamos a casa
sem um sorriso
resignados
como se acabáramos de ser
expulsos do paraíso

Sempre que um humano sonha
mil fantasmas despertam

sábado, 3 de outubro de 2015

Ar a voar pelos ares


 

 

O vento

É instrumento de sopro
a tocar

Pulmão
e talento de soprano
a cantar

Ave
de asas
a adejar

É pensamento
o vento
a soprar por nós a dentro

É vaidade
balão insuflado
até rebentar

É fole a soprar
sem ter
nada dentro

É sopro que atiça o fogo

É pé de povo revoltado

É odre podre
a peidar

É verdade
o vento
a varrer o lixo
prolixo
nas ruas do nosso viver

É nuvem
de lágrimas
à procura de regaço
onde se verter

É respirar
ofegante
de quem quer vencer

É ar a voar pelos ares

É ar
em movimento
o vento