Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Amanhã a Humanidade faz anos






Amanhã
a Humanidade faz anos

Ou será que será só depois de amanhã
num futuro longínquo que jamais chegará?!

Amanhã
a Humanidade faz anos

Ou será que faz anos a Desumanidade
já que há tantos infelizes a sofrer
a penar
a morrer?

Amanhã
a Humanidade faz anos

2016 a somar
a muitos mais sem conta
que é bom
nem lembrar

2016  a sair
2017 a entrar
gente tonta a gritar e a bailar
garrafas de espumante a estourar
bombas a explodir
vícios e fomes a eclodir
guerra por toda Terra
o planeta a definhar

Amanhã
a Humanidade faz anos

Ou será que é a Desumanidade?



Vale de Salgueiro, 29 de Dezembro de 2016



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

DEITARAM O PAI NATAL NA MANJEDOURA NO LUGAR DE JESUS




(Com reiterados votos de Feliz Natal)


Tiraram Jesus dos braços de Sua mãe
subtraíram-no da companhia de Seu pai
e puseram a criança nua
a dormir ao relento
na rua

Quem?

Os donos do mundo
e nós também
a seu contento

Tomaram depois um nababo velho
barbudo, imundo e anafado
apelidado de Pai Natal
à margem do Evangelho

Converteram-no em mito comercial
e deitaram-no na manjedoura
para vender o feno e a palha do berço
e o esterco do curral

Que Deus nos valha!

Um vento de miséria e de guerra
sopra agora por toda a Terra
a Paz jaz sepultada
em túmulos de dor
lado a lado com o Amor
e a verdadeira Luz

Enquanto a tropa de facínoras barbados invade a Europa
governada por  herodes surdos e sem decoro
tentando escravizar a Virgem Maria
forçar São José à apostasia
vilipendiar Cristo e a Cruz
assassinar santos inocentes
e matar Jesus

É tempo de choro e de ranger de dentes


Vale de Salgueiro, 21 de Dezembro de 2016


domingo, 18 de dezembro de 2016

Um sonho universal




Sempre sonho
pelo Natal
este sonho universal

Que o calor da minha lareira
aquece a Humanidade inteira

Que a minha melhor comida
a todos é servida

Que o amor da minha família
por todo o mundo se irradia

Que a paz do meu lar
por toda a parte
se reparte

E sempre fico a desejar
que a ideia deste dia
não se aparte
do meu pensamento
e seja mais que poesia

Sempre sinto pelo Natal
este doce sentimento

E sempre fico a sonhar
que um dia há-de chegar
o Natal universal



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Amorosos lapsos de memória



Bebo café
em pé
ao balcão
de uma pastelaria qualquer

O meu espírito anda longe dali
os olhos passeiam-se absortos
por todo o lado
repousando vagamente em quem entra
e quem sai
sem segunda intenção

Neste ínterim
a empregada
linda mulher
traz-me um pastel de nata
e pergunta-me se quero canela

Não era para mim
mas de pronto respondo que sim
e digo mais sem pensar
que a quero a ela

Num vaporoso lapso de tempo
aconteceram dois amorosos lapsos de memória

Fiquei sem saber quem era
onde estava
o que fazia ali
qual era meu papel na história

Ante o meu embaraço
a empregada
ruborizada
sorri

Oh, que dilema!

De pronto recupero a lucidez
anoto o sorriso
perdão
o poema
num guardanapo de papel
sem mais demora
não vá ter outro lapso de memória

A empregada sorrir-me outra vez
agora descarada
mas eu sem mais nada
saio
venho-me embora



domingo, 11 de dezembro de 2016

Uma piedosa mentira de amor




Disse-lhe que a amava
ela acreditou

A mim alegrou-me a alegria
que o seu espírito extravasou
em gritos
beijos
e abraços

Muito mais do que eu esperava

de um amor que a espaços
eu vinha deitando a perder

Mesmo assim
ainda sinto remorsos

contrito
de não lhe ter dito
a verdade
o que mais a faria sofrer

A verdade é que a amo
não como ela me ama a mim
mas amo-a
ainda assim

Tanto que fico à espera que seja ela a descobrir
que não a amo
mas sem muito sofrer

Esta a virtude
que a mim
me ilude
se é que há virtude em mentir

Esta a razão de ser
desta amorosa
mentira
piedosa

Perdoa-me!



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Abra este presente





Ontem fiz anos!

E também fiz anos de facto
no ano transacto
e nos precedentes

Dia de anos é uma festa frequente
um dia de alegria
sem mácula de nostalgia
mais votada a viver que a morrer
a fazer anos que anos desfazer

Vivemos do encanto de quem amamos
por isso eu não os conto
nem desconto

Direi
portanto
que já nem sei há quanto
nem quantos conto ou desconto
quantos faço ou desfaço

Embora já tenha muito que contar
e continue a reclamar o quanto ainda não amei
o muito que ainda tenho para amar

Uma festa de anos é sempre um clamor de amor
que mede a idade da amizade
a força da alegria
a poesia da felicidade



Aqui deixo e não desleixo
o meu conselho
a quem for mais novo
ou da mesma idade
mais velho por feliz sortilégio

Não seja demente
faça anos sempre em festa
não conte os que lhe resta
nem ao passado remonte
que estar vivo é privilégio
e fazer anos um presente



terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O Universo é uma prisão




Paredes de ar e de pedra
opacas
translúcidas
iluminadas
ruidosas
e frias

E eu sem poder fugir para nenhum outro lugar
que não seja para dentro de mim
mergulhado no silêncio escuro da dúvida
e da angústia
sem outra sensação

Tendo como única certeza a morte
tento entender
a verdade
e alcançar a felicidade

Responde-me Deus
com as teias do Absoluto
tecidas de Infinito
de Eternidade

O universo é a uma prisão
cujas grades procuro em vão forçar
com engenho e arte

Tento a minha sorte
ainda assim
faço a minha parte



sábado, 3 de dezembro de 2016

Deus é como Deus é



Deus
é assim como o amor é

Só o vê
e sente
ou no Amor crê
aquele que vive
apaixonado

É como o Saber

Só sabe quem procura

Ou a Verdade

Só a tem quem a pratica

Ou ainda como a Felicidade

Só a alcança
quem a espera
com esperança

Deus é como Deus é

Só Deus sabe

Nós apenas desconfiamos

E acreditamos


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Quem é quem amo?




Muitas vezes me quedo parado
a olhar
com os olhos do rosto
e da alma
a quem amo de verdade

Depois dou por mim deslumbrado
sem que saiba porquê

Assim como
quando
fascinado
me deixo ficar extasiado
pelo nascer do sol
ou pelo sol-posto

Quem sou eu?

Donde venho?

E quem é quem amo?

Este deslumbre de amor
não é racional

É um portal
da eternidade

É um divino fascínio
que me faz acreditar
e a mais
e mais
Amar



in Anamnesis (Ed. Autor- Jan 2016)







quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Penso que penso só por pensar




Por vezes fico parado
a pensar

A pensar que penso
só por pensar

Alheado
por fora
sem graça
fascinado por dentro

Sem me aperceber
sequer
do vento
que por dentro
me perpassa
vazio de sentimento
nem quente
nem frio

A olhar o vazio
sem me deixar
adormecer
a pensar que penso
só porque penso

Fora de mim nada me diz
dentro de mim nada me digo
o coração nada sente
não há fantasias
nem dilemas na minha mente

Apenas rumino poesias
apenas regurgito poemas

Simplesmente
a pensar que penso
só por pensar




terça-feira, 29 de novembro de 2016

E o meu espírito assim se redime





Sem querer
por vezes me desalento
desanimo
me esvazio de mim
me oco por dentro
caio em crise de fé
e mal me tenho de pé

(E quem
se não eu
se poderá esvaziar de mim?)

Momentos em que a angústia
me assalta a Razão
a ansiedade me toma o coração
e o meu espírito nele próprio se comprime

Já não é dor exterior
que sinto
é sim um sofrimento atroz
interior

Então o maior grito de fé
grito-o em silêncio
porque a maior dor
a sinto por dentro

E o meu espírito assim se redime




segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Não guarde para si a última bala



Não guarde para si
a última bala

A sua derradeira dor
fala
sorriso
beijo
abraço
o último bater do coração

Guarde apenas para si
o seu último poema
a poesia da vida inteira
para declamar perante o Criador

Para que seja Ele a decidir
se é
ou não
merecedor
de continuar a amar
a ler
e a escrever poesia

A dar
e a receber
amor
e a sentir alegria
mesmo depois de morrer



sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Um homem apaixonado




Sou um homem apaixonado
trago a paixão
por perto

Vivo de alma atada ao corpo
pelo sopro do amor
laços de afecto
amarras de ilusão
liames de fantasia

São abraços
beijos
desejos
laivos de poesia

Com que me embaraço
enlaço
e desenlaço

A minha alma voa em seu esplendor
flutua até à Lua
mas não cai
no chão
da rua

Faço das tripas coração



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Amar nunca é demais




Tanto sonho havemos de sonhar
que acabaremos por transformar
o sonho em realidade

Tanta ilusão havemos de construir
que acabaremos por cair
na realidade

Tanta coisa havemos de comprar
e vender
que acabaremos por aprender
o seu real valor

Tanta mentira havemos de urdir
que prenderemos a discernir
a pertinaz verdade

Tanto havemos de pensar
que acabaremos por ganhar
consciência plena de nós

Tanta guerra havemos de travar
que acabaremos por proclamar
a paz
de viva voz

Tanta dor havemos de sentir
que acabaremos por descobrir
o que nos faz sofrer

E tantas paixões venais
havemos de viver
que aprenderemos a reconhecer
o verdadeiro amor
e que amar
nunca é demais





quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Quando a minha alma em mim anda perdida




A casa vazia
o televisor aceso
sem som
silêncio constrangedor

Um cálice de vinho do Porto
semivazio
meio morto
que não bebo
nem encho
se esvazia
de filosofia
com poesia

Mergulho
mais e mais
na mais amarga solidão

Descubro
com emoção
que existo
quando a minha alma
anda perdida
em mim
e eu não sei que lugar ocupo
no Cosmos

Mas eis que o telefone toca!

É quem me ama que me chama!

Emerjo na piscina da alegria
qual campeão olímpico
ovacionado pela multidão
imagem de caleidoscópio

Agradeço os aplausos

Aplaudo-me a mim próprio



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

É na escuridão mais escura que a alma mais luz



Abro o livro
e leio

O meu espírito espevita

Ouço a voz seca de Séneca
que em seu douto pensamento
há séculos
ao vento
grita:

“Deixarás de ter medo quando deixares de ter esperança.”

É a mim que me ouço
feito criança
em desassossego

À luz do dia
tomado pelo instinto
tinto de emoção e ilusão
deixo de me ver
e de me ouvir

À luz do dia
de ambição imbuído
a ideia é ruído

No escuro
melhor  me oiço e mais bem vejo
sei o que procuro
e o que desejo

No escuro mais medo sinto
mais a mente anseia
a esperança renasce
o silêncio é ideia
divino enlace

Abro o livro
leio
e releio “ A Noite Obscura” de João da Cruz

É na escuridão mais escura
que a alma mais luz



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Dissecando a alma de uma mulher virtuosa




Até a mais rubra rosa tem espinhos
e no espírito da mulher virtuosa
sempre existe
o espinho da vaidade

Tomei alfinetes de prata e de marfim
para lhe dissecar a alma
mas cabei por me retalhar a mim

Dei-lhe a beber o veneno da fantasia
que não mata
mas encanta
se diluído em poesia

Provoquei-lhe mil desejos
perdi-me em seus cabelos
olhos
seios
coxas
e humores

Povoei o meu ser de flores
roxas
e dos ensinamentos sábios
que bebi em seus lábios

Apenas quando
por fim
o sopro da verdade me percorreu o corpo
e a punção da sexualidade
me alterou o coração
se libertou em mim
o escopro da espiritualidade

De mil formas são as formas de vaidade
uma só a da verdade
mais espinhosos são os caminhos
se a rosa é vaidosa