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sábado, 30 de janeiro de 2016

Aos derradeiros heróis


 

O derradeiro Império da História
de ainda fresca memória
os imolou

Se enterrou com eles
no ataúde comum
oco
vazio do vento
que já não soprava para lado nenhum

E os deixou por lá
abandonados
esquecidos
insepultos

Morreram de pé
às mãos da morte
e da má sorte

Ao som do rufar do batuque das sanzalas
nas malditas matas de Moçambique e de Angola
nas olas da Guiné
trespassados de balas
afogados em saudade
Oh, que cruel verdade!

Que evangelho ou sortilégio
que adulterada verdade
que insana vontade
que espúrio magistério
que cruel desígnio
lhes traçou o destino
e os abandonou por ali
inocentes?

Sem choros
lágrimas
ilusões
raivas
ou ranger de dentes

Somente o coração distante
de quem os amava
pai, irmão, amigo, amante
a bater
fremente

Ceifados na flor da idade
viveram com fugaz alegria
a sua trágica mocidade

Foram os heróis derradeiros
humildes guerreiros
do derradeiro Império
da História de má memória

A sua morte é uma vitória…
 
Inglória!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Lanço esta mensagem ao vento


 


Lanço esta mensagem ao vento
em forma de poético pensamento
apanhe-a a quem aprouver

Talvez uma ave a voar
leve no seu bico delicado
este poema chilreio
transformando o meu recado
em gorjeio de amor

Talvez uma criança sofrida
apanhe os meus versos do chão
como se fora uma flor
e logo apareça um anjo de amor
para a proteger e lhe dar guarida
para lhe estender sua mão

Talvez o próprio vento
agarre o dilema do poema
se transforme em furacão
varra continentes e oceanos
proclamando a Justiça e a Razão

Talvez um bando de aves de verdade
emplumadas com meus poemas
façam ninho nos jardins e beirais
dos boçais donos da Terra
e se acabe com a fome e a guerra

Lanço esta mensagem ao vento
em forma de poético pensamento
apanhe-a a quem aprouver

Sentir-me-ei mais feliz e inspirado
se o mensageiro for bem tratado
 
E me trouxer de volta como me apraz
um abraço entusiasmado
um sorriso alegre de criança
um reflexo de amor e esperança
um projecto universal de Paz

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Batendo à porta da felicidade




Montei tenda num descampado
ermo silencioso
isolado
além
onde me disseram
que não morava
ninguém

E sempre ia perguntando
a quem passava
se seria ali
que a felicidade
morava

Na verdade
nada
nem ninguém me garantia
que seria ali
que a felicidade residia
embora por toda a parte
fosse procurada

Um jovem que de tão apressado
me pareceu feliz
e bem informado
sorri
sôfrego
tão pouco pára
mas nada me diz

Mas um trôpego ancião
que caminhava devagar
porque já trazia à costas a vida morta
acabou por se sentar
e me dizer
que se eu queria saber
onde a felicidade morava
teria que bater
à sua porta
primeiro

E acrescentou
certeiro
fixando os olhos em mim:
«Se de dentro responderem
que sim
mais certo será
lá morar
a ilusão

Se ninguém responder
então
também ali não é
não»

E mais me disse o ancião
por fim
antes de partir:

«Com um pouco de ventura
encontrarás a felicidade
em qualquer lugar
precisas sim
de investir
enquanto a sorte dura»

Olhei à roda
e vi
uma porta entreaberta
de que antes me não dera conta
e entrei
com a confiança
de um aprendiz

Na esperança
tonta
de que naquele descampado
ermo
silencioso
isolado
estava destinado
a ser feliz

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

O amor é doce e inebria




Vivo num mundo secreto
um universo aberto
e sonho
um sonho de verdade

Onde o amor é doce
e inebria
e a paixão não impõe condição

Mundo de amor e poesia
onde o espaço se finda no infinito
e o tempo se esgota na eternidade

Mundo que é um templo de utopia
em que a fantasia
roça a realidade
e não tem sentido adormecer

Por isso me ponho a pensar:
se amar é sonhar
para quê
então
acordar
se acordar
for morrer?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Amor e verdade de mãos dadas





Mal diviso o fim da rua recta
artificialmente ruidosa
e iluminada
em que caminho

Desemboca no mar
da ilusão

O meu destino
não aponta para aí, porém
procuro a verdade
olho mais além

Terei que domar o coração
curvar já na próxima esquina
da liberdade

A verdade terá que ser grande e fina
ocupar todos os lugares da vida
e andar de mão dada com o amor

Amor que deve ser puro
imaculado
imenso
e tomar todos os espaços do Cosmos

Felicidade
é amor e verdade
de mãos dadas

sábado, 9 de janeiro de 2016

Amor, simplesmente amor.









Amo
as árvores que planto
oliveiras, tílias e pinhos
que com enlevo vejo crescer
os animais que me cercam
cães
aves
répteis
que fazem parte do meu viver

Amo, simplesmente
como se de seres vivos se tratasse
as pedras em que me sento
e as que com as próprias mãos
alinho em muros
que bordejam o caminho
de encontro ao vento

Amo, simplesmente
os poemas que escrevo
com enlevo
e amo quem os ler

Amo, simplesmente
a mulher por quem me apaixonei
e os filhos que criei

Amo, simplesmente
a verdade
a poesia
a alegria

Amo
a Humanidade

Amor, simplesmente amor.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Saudade é amor e solidão




Quereria ficar ela
eternamente sentados
na fraga debruçada sobre o lago
em que costumávamos namorar
em silêncio
abraçados
ao luar

Nas encantadas noites de Verão
quando o nosso lema era
apenas:
«Amor e solidão»

Ficávamos de amor abraçados
sós
e em silêncio
abandonados
em toda a amplidão do Universo
que em verso
se abria em nosso coração

Agora que estamos afastados
de amor apartados
continuamos sós
em toda a dimensão do Cosmos
que se fechou em nosso coração

Mas eu continuo a querer ficar com ela
eternamente sentados
na fraga debruçada sobre o lago
em que costumávamos namorar
abraçados
em silêncio
ao luar

Por isso escrevi esta poesia sem alegria
que é um estátua viva de saudade
esculpida na própria fraga
debruçada sobre o lago
em que costumávamos namorar
abraçados
em silêncio
ao luar

Estátua que ali vai ficar erguida
a gritar
para a eternidade
esta dor
sem remissão:

“Saudade é amor e solidão”