Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Um punhado de palavras



Tomo
na boca
um punhado de palavras
e atiro-as ao ar
deixando que seja o vento
a tresmalhá-las

Raras
sobem como estrelas
no céu
cintilando
noite adentro

Poucas
são levadas pelos aves
delicadamente nos bicos
para construir os ninhos
e alimentar as crias

Outras
são arrastadas pelos rios
para o mar
terminam nas redes dos pescadores
ou diluídas no seio da tempestade

A maior parte
porém
são estraçalhadas
pelas mandíbulas ferozes dos políticos

Na minha boca
regurgitam outros punhados de palavras
desejosas
do supremo sacrifício da poesia

Mas na minha mão vazia
resta-me a aflição

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Amor e ubiquidade







Diz-me
para me consolar
e iludir a minha saudade
que embora ausente
no seu coração estou sempre presente

Que sou omnipresente
vá para onde ela for
esteja eu onde estiver

Mas eu
dela distante
ando inclinado
oblíquo
sem a poder esquecer

Sou um viandante
sempre ausente

um desertor
“omniausente”
livre mas enjaulado

Gostaria antes de ser ubíquo
de poder estar lá
e aqui
ao mesmo tempo
em todo o lado

Vê-la
e tê-la
a ela
sempre abraçado

Amor
na verdade
é ubiquidade


terça-feira, 19 de julho de 2016

Ouvindo o silêncio em solidão



Dá-me prazer ouvir
o silêncio
em solidão

Prazer que advém da alegria interior
de procurar companhia
mais além
fora do mundo
e do tempo

De ouvir em meus ouvidos
o ruído que traz o vento
do cosmos profundo

De o sentir em todos os sentidos
e de o calar
bem fundo
dentro de mim
para aí o interpretar

Fora da razão
ainda assim

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Para amar precisamos de algo ou de alguém




É sofrendo
e amando
que o amor se vai firmando
e vencendo
a dor

Tantas vezes nos enganamos
julgando que amamos
só porque sentimos prazer
que o próprio amor
acabamos por perder
o que ainda mais nos faz doer

Para sofrer
bastamo-nos a nós
não precisamos de nada nem de ninguém
e mais sofremos
sós

Para amar
porém
precisamos de algo
ou de alguém

terça-feira, 5 de julho de 2016

O beijo de uma flor




É uma glória pequenina
do tamanho da minha vaidade
esta infinita felicidade
de ser beijado por uma flor

De ser aspergido com o seu pó de polen
perfumado do seu odor
e ficar para sempre enamorado
e ligado
a esta alegre
embora breve
história

Glória
ínfima
efémera

Sucesso eterno
que não perdura

Instante superno
de desejo
e de amor
o beijo
de uma flor