Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Pira funerária



Ergo a minha própria pira funerária
na planície erma e desolada
em dia gélido de vento, neve e geada
quando o Outono já se confunde com o Inverno

Amontoo folhas secas perfumadas
(com as quais o vento se diverte
insuflando-lhes vida aparente)
esqueletos de roseiras decepadas
ramos de oliveiras
farrapos de bandeiras
livros e jornais inúteis
lembranças de amores vencidos
sucessos, insucessos e vãs glórias
histórias de encantar
confidencias de fazer corar

Coloco ideias loucas a servir de rastilho
ponho-me de pé no topo do monturo
em pose olímpica
qual estátua de Júlio César
de calvície coroada de folhas de louro
faço o meu próprio auto de fé

Já fumega a minha loucura
em breve surgirão as primeiras chamas

Torturam-me imagens das viúvas indianas
imoladas
dos relaxados nas fogueiras da Santa Inquisição
dos kamikaze da marinha do Japão
dos bombeiros imolados nas Torres Gémeas
das crianças moribundas que ardem de febre
abandonadas à sua morte

Quando as labaredas me alcançam
e ameaçam queimar-me
expludo!

É o meu espírito que estoura como fogo de artifício
e se reintegra no seio de Deus

De mim poeta nada resta
porque a minha inutilidade é total

Apenas uns versos soltos
fumos sem fogo
com as quais o vento se diverte
insuflando-lhes vida aparente




Sem comentários:

Enviar um comentário