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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sonho de Outono



Nestes dias anormais
esgaravato raízes de poemas
no húmus humedecido
pelas primeiras chuvas outonais

Agora que a Natureza de novo sorri
verdejante e florida
iludida
travestida de Primavera
quando o longo e frio Inverno
já a espera

Apenas desenterro dilemas
angústias e ansiedade
que exponho ao vento e à chuva
ao sol morno de Outono

Angústias sem razão de ser
dilemas de verdades
ansiedade sem casualidade

Mas nem o sol as seca
nem a chuva as dilui
nem o vento as leva para longe

As aves passam indiferentes
em seus voos sorrateiros
no céu cerúleo
maculado de nuvens

Procuram sementes nos terreiros
e não poemas
dementes

Ouço cães a ladrar com desnorte
porque o frémito da minha melancolia
lhe fere os tímpanos
e lhes causa frenesia

Ponho-me então a sonhar
para lá da morte

Sonhos que arrastam consigo todos os meus afectos
para espaços mais amplos e abertos
mas nem assim a angústia se dilui
e mais se concentra

Comprovadamente já não fui
que era suposto ser

Resta-me o sonho de que agora
pelo Outono
serei mais do que tudo que sonhei