Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A Deus só agradeço as cerejas




Deus vai ficar descoroçoado comigo
certamente
mesmo zangado
talvez
mas eu só Lhe agradeço as cerejas

Já O imagino a interrogar-Se
e a questionar-me:
«Sou tão generoso contigo
e tu só me agradeces as cerejas?!
Será que é só cerejas que desejas?»

Mas eu, que já a tenho a resposta estudada
(senão para que escreveria esta poesia?)
respondo de pronto, sem ponta de aleivosia:
«Mais generoso sou eu, Senhor, que não Te pedi nada
e ainda assim Te agradeço as cerejas»

E Deus
como Ser infinitamente inteligente e bom que é
(se assim não fosse não me entenderia, certamente)
vai perceber que eu
para lá do amor
apenas agradeço aquilo de que gosto
na esperança de que Ele apenas me dê
coisas do meu agrado
já se vê
embora a minha fé
sem favor
vá muito para além das cerejas e das palavras

Assim sendo
sou eu que a todos os poetas peço, entusiasmado
que louvem ao Senhor, em seus poemas, com alegria
a dádiva de gostarmos de palavras e de poesia
e a particularidade de as palavras
serem como as cerejas
e os poemas como beijos



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Valquíria Sigrdrifa







Sinto-lhe o sopro
Finjo-me morto

Beija-me a pele
Besunta-me de fel

Beija-me os pés
Para mos decepar

Beija-me as mãos
Rói-me os dedos
Rouba-me os segredos

Beija-me os ouvidos
Para me ensurdecer

Beija-me a boca
Para me emudecer

Beija-me o sexo
Para me capar

Beija-me o coração
Exangue
Chupa-me o sangue

Beija-me os olhos
Para as lágrimas
Me sugar

Beija-me a face
Para me desfigurar

Está escrito
Resisto

Beija-me de morte
Sem me matar

Quer-me vivo
Nem morto nem vivo
Seu quero ser

Vá para onde eu for
Sigrdrifa me persegue
Com ardor

Beija-me a alma
Sugar-me o espírito
Não consegue

Sou um guerreiro invicto
Jamais um proscrito


in Mulheres de Amor Inventadas (1.ª Edição, Outubro de 2013)



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Quando a alma me dói




O corpo
quando me dói
dói-me por partes
nunca me dói todo
inteiro
apenas em parte
me dói

Dói-me um pé
uma mão
o peito
o coração
cada um com sua dor

E quando sinto prazer
também sinto por partes
com distintas formas de gozar
cada uma com suas artes

Sinto o tacto
o sexo
o sabor
o olfacto
o ouvido
o olhar

Mas a minha alma quando ama
ou sente dó
sofre e ama inteira
toda
verdadeira

Porque a minha alma é una

Única

Uma só




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

AQUI…




Aqui, cume do monte dominante
De um reticulado curvilíneo
De colinas moldadas no fascínio
Da alma do poeta diletante

Aqui, nasceu, em mim, a poesia
Pela magia do amanhecer
Com reflexos de fé e bonomia
Que também brilham ao entardecer

Aqui, sempre me quedo, radiante
À hora que o Sol se põe, sanguíneo
Por detrás do horizonte distante

Aqui, face ao Mundo a sofrer
Ao Senhor dos Aflitos eu pedia
Não deixasse, Ele, de lhe valer…

Vale de Salgueiro, domingo, 10 de Agosto de 2008
Capelinha do Senhor dos Aflitos (Alto da Serrinha)



terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ainda há lágrimas por chorar, Hiroshima



Ainda há lágrimas por chorar
Hiroshima

Ainda há holocaustos por exorcizar
não é ainda a Paz
que os homens anima
é já tempo de parar

Tempo de por fim à fome e à guerra
à mentira e a miséria
à política falaz
que assola toda a Terra

Já é tempo de fazer valer a Verdade
tempo de quem já nada espera
voltar a ter tempo de acreditar
tempo de gritar
Liberdade

Tempo de os homens serem homens
e de os homens serem
Humanidade

É já tempo
antes que seja tarde



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O pecado original






Contesto o Teu critério, ó Criador
De expulsar Adão e Eva do Paraíso!
Se foi Eva a causadora do prejuízo
Porque não expulsá-la só a ela, Senhor?!

Continuaria, assim, o homem, sem dor
A viver no Éden, em seu perfeito juízo
E a mulher na Terra, se eu bem ajuízo,
Mais feliz do que é, sem o homem por tutor.

Ou será que Adão quis Eva acompanhar
Tão ardente era a loucura da paixão
E nem Vós, Senhor, os conseguistes separar?!

Se assim foi, então, tendes toda a razão!
Só àqueles que aprenderem a bem amar
Vós abençoais e concedeis a Salvação.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Para onde vás Luís Vaz





Não me admiro que Luís Vaz, o imortal Camões
tenha morrido na miséria

Indigente

Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique

a mítica  ilha do mar Índico
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade
no regresso do Oriente
onde se fez épico

Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto entre palhotas e palmeiras
sem utilidade alguma
para lá de servir de pouso aos pássaros
que lhe defecavam na cabeça

Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
nalgum armazém de históricas banalidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
que nele não viu outra utilidade

Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que a minha desilusão
mais arde

e os sentimentos de ser português
e de como Camões também pertencer
aos Vaz de Vilar de Nantes
mais se acendem
frustrantes

Luís Vaz enquanto poeta foi um inútil
embora tenha deixado de o ser
quando a genealidade da sua poesia
gerou ventos e marés
e construiu auto-estradas de sonho

Foi um verdadeiro indigente
que não ganhava nada com isso
mais mal pago que um qualquer operário
que com mais acerto, por certo
lavrava a terra ou caiava paredes

Era um sem-abrigo
semi-anjo
quasi-deus
um extraterrestre sem interesse
a quem o soldo não bastou para regressar
ao Portugal que o enjeitou

A Portugal
não à Pátria
porque que a Pátria de Camões
era onde era poeta e soldado


Era onde havia projectos de verdade

de sonho, amores e mistério
e poesia

que um dia
foram Império de humanidade

Hoje em dia sem utilidade
tanto quanto sei

Para onde vás, Luís Vaz
ou fores
lá estarei



domingo, 6 de agosto de 2017

Ceara ondulante, crina de mulher



Mar de virtude
e de puro engano

Oceano de perfume
em que mergulham meus dedos
e se afundam
em mil ternuras
sem medos
de se afogar

Ceara ondulante
liana enleante
crina de égua a relinchar
ululante
de prazer

Corda de cítara
a gemer
que me delicia dedilhar

Cabelo de mulher…

que sublime prazer
me dá
afagar



sábado, 5 de agosto de 2017

Cento e cinquenta e seis badaladas






Cento e cinquenta e seis badaladas concertadas
o dia tem
mais a melodia que o nosso coração
bate no ventre de nossa mãe
que ela ouve
mas nós não ouvimos não

Doze badaladas que o coração bate ao meio dia
como cão a latir

Ruidosas
apressadas
pressurosas
a fugir
a saltar fora do peito
a viver sem jeito
fora de si

Doze badaladas que o coração bate à meia-noite
como vento a rugir
já fora de tempo

Langorosas
arrastadas
pesarosas
até parar
e cair
no esquecimento

Mais as badaladas silenciadas
quando dormimos
ou não sentimos
o coração bater por ninguém

Cento e cinquenta e seis badaladas compassadas
o coração bate hora a hora
dia a dia
mundo fora
aqui
ali
além
embora não saibamos quantos dias
a vida
sofrida
tem



sexta-feira, 28 de julho de 2017

Pólen de poesia






Aguardo ansioso
o eclodir da próxima Primavera

À espera que as plantas desabrochem
para também eu espalhar poemas no ar
deixando que os meus versos
se diluam nas gotas do orvalho matinal
e se transformem em grãos de pólen
que levados pela brisa primaveril
nos bicos das aves
e nas patas das abelhas
penetrem nos gineceus das flores
e as engravidem

E assim a Primavera
quando florir o mês de Abril
terá a cor
a luz
o som
o sabor do amor juvenil
e a alegria
da minha própria poesia



terça-feira, 25 de julho de 2017

Lamúrias de amor da sibila Dores Roha



Apenas tu ser amado
não duvido
tens a ver com a felicidade
que vivo a teu lado

Se me assalta a angústia da separação
qual vento desalmado
te digo do fundo do coração
o sofrimento que adviria
nada teria a ver contigo

Porque ninguém ama por obrigação
ou continua a amar
por gratidão

Depende de mim continuar a apertar as tuas mãos
e de ti continuar a beijar
com teus lábios os meus
mas é no amar e desamar
que mais dependemos de Deus

Não deixaria de te amar
nem que te afastasses de mim
ainda que o amor fosse então
uma saudade sem fim

 in Códice da Pátria Luanca (Ver o Verso Edições, 2006)



domingo, 16 de julho de 2017

Mais me espanto comigo que com o mundo



Tudo que é dúvida reside em mim
e não no mundo

No mundo que caminha
vive
nasce
mata e morre
sem se deter
indiferente ao meu querer

No mundo que parece não ter dúvidas
caminhar sem hesitar
e nele tudo bater certo
desde o nascimento à morte

Mas comigo não é tanto assim

Eu sou um espanto
para mim

Mais me espanto com a minha angústia
e cada vez mais me surpreende não saber
porquê ou para que nasci
nem o que faço aqui
ou o que faria se estivesse em qualquer outro lugar

Mais me espanto comigo que com o mundo
e o meu espanto seria igual
estivesse eu em qualquer outro lugar
e fizesse fosse lá o que fosse

Mais parece que vivo um sonho
um pesadelo
um quebranto

De que tento
afanosamente
acordar



terça-feira, 11 de julho de 2017

Fim do infinito, termo da eternidade




O Absoluto é atributo de Deus
e instituto dos anjos

No qual crentes e ateus
infinito e eternidade
dúvida e verdade
se irão consumar

Por isso não tem sentido a eternidade
por não haver relógio para contar o tempo
sem cessar

Nem tem sentido o infinito
por não haver régua para medir o comprimento
sem se esgotar

Por isso pode o início do tempo
e o princípio do espaço
o homem sincronizar
jamais seu fim e seu termo determinar

Por isso o fim da dúvida é o princípio da verdade
e o fim da dor o começo da felicidade

E tudo se reduz ao amor
fim do infinito
e termo da eternidade



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Lugares recônditos da minha alma  




Há lugares
recônditos
da minha alma
aonde
eu próprio
raras vezes vou

Apenas quando sou assediado
por algum evento inusitado

São aposentos reservados
onde não sopra o vento
nem se faz sentir a fúria do mar
ou as tempestades do viver comum

Ali me refugio
me protejo
e me liberto
em ambiente de espiritualidade

Tranco portas e janelas
tapo os ouvidos aos ruídos da rua
apenas deixo acesa uma luz
suave como a da Lua
e por ali fico na obscuridade
de alma distendida
até me acalmar

São lugares recônditos da minha alma
túneis
labirintos de espiritualidade



sexta-feira, 30 de junho de 2017

Caí de um buraco do céu



O céu
é só o tecto do mundo
feito de nuvens e de sonhos
e ponteado de estrelas

Com buracos de tentação
por onde escorre a chuva
quando os anjos obreiros lavam o além
a mando de Deus
e revoadas de pássaros sem juízo
escapam do paraíso
para vir alegrar o ar

De um desses buracos caí
em dia de trovoada
numa noite iluminada
por relâmpagos de paixão
vaidade
e fantasia

Ao céu
onde mora a felicidade
procuro agora em vão
regressar
pela escada da poesia



sexta-feira, 23 de junho de 2017

Portugal morreu, a minha Pátria, não!




Portugal morreu!


Jaz morto às mãos da corrupção
e das teias que ela teceu

A minha Pátria, essa não!

Minha Pátria é o meu povo
a Língua que fala
a História que conta
a Verdade e a Democracia
e toda  a sua poesia

A minha Pátria não é afronta
terreiro de paço
espaço de intriga e traição
políticos,  banqueiros e outros vilões
os coveiros da Nação

A minha pátria é Camões
é Gama
Vieira e Pessoa
Santo António de Lisboa
do Quinto Império nostalgia
futuro que o povo reclama

É o meu Trás-os-Montes natal
suas lágrimas, suas fontes
meu Santo Graal

Portugal morreu
às mãos da corrupção
feito fogo e fumo
terra queimada
Nação emigrada
gente que chora
à procura de novo rumo

Portugueses, é agora!


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Ser livre é viver feliz







Eu próprio
em liberdade
me sinto numa prisão
infeliz

Numa gaiola maior
do tamanho da Terra
com grades de angústia

Por isso lhe daria a liberdade
se tivesse a garantia
de que livre
sobreviria

Porquê condená-la à morte
prematura
se a sei feliz a chilrear
enquanto viver
nesta postura?

Acabará por morrer

Pois então que morra
mas que morra livre
e verdadeira

Que aprenda que ser livre
é viver feliz
mesmo prisioneira



domingo, 18 de junho de 2017

Se eu fosse árvore, amor.



Se eu fosse árvore, amor
e tu me abraçasses
os meus poemas seriam flores
as folhas louvores
e os filhos frutos

Havia de florir pela Primavera
e dar guarida a todas as aves
que tu mimasses
e que nos meus ramos quisessem nidificar

Deixaria que a aragem
me agitasse a folhagem
convidaria os passantes
de terras distantes
perdidos na paisagem inclemente
a que sob mim se abrigassem
do Sol ardente

Se eu fosse árvore, amor
mas não merecesse o teu cuidado
murcharia desolado
pelo Inverno

Deixaria que o machado do lenhador
despedaçasse o meu tronco terno
e me apartasse os ramos em molhos
para alimentar outros fogos de paixão
que não este que ateias no meu coração
com o carvão dos teus olhos