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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Tantas coisas sem tino a vida tem



Tantas coisas sem tino a vida tem

Todas têm destino
porém

Na paz ou na guerra
cá na Terra ou lá nos céus
mesmo a morte
meu Deus!

Os golpes de má sorte
a dor que não acaba
a felicidade adiada
ou a paixão que chega ao fim
parecem não ter sentido
nem valerem de nada
qual vozes que o vento leva

Mas será que é assim?

A lembrança delével que o tempo releva
e na memória se tolda
poderá bem ser a transformação indelével
que nos molda
definitivamente

Tantas coisas sem tino a vida tem

Perceberemos com o tempo
porém
que tudo fica em nós
para sempre
e tudo levamos para o além
certamente


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A pensar que penso só porque penso que penso








Por vezes fico parado
a pensar

A pensar que penso
só por pensar que penso

Alheado por fora
fascinado por dentro

Sem me aperceber
sequer
do vento
que por dentro
me perpassa
vazio de sentimento
nem quente
nem frio

A olhar o vazio
sem graça
sem me deixar adormecer
a pensar que penso
só porque penso que penso

Fora de mim nada me diz
dentro de mim nada me digo
o coração nada sente
sem penas nem dilemas em minha mente

Entremente
rumino apenas poesia
regurgito poemas
somente

 A pensar que penso
simplesmente
só porque penso que penso




terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A mim sem mim me imagino







Nas nuvens cavalga o destino
disparando sobre mim
relâmpagos e trovões

Não sei que substância é a minha
que força move o meu pensamento
que sentimento me comove
temo a mim
anjo serafim
em mim
me perder

No meu cérebro bailam dilemas
que florescem em poemas
garantes da minha glória

Sinto medo de os esquecer
sem outro meio  de os escrever
que não seja na memória

Rendo-me ao vento divino
a mim
sem mim
me imagino


domingo, 17 de dezembro de 2017

Presépio…


   
   

Projecto épico do Menino Jesus
nascido de Deus envolto em luz
no ventre da Virgem Mãe
advento de um novo tempo
marco indelével da História

Chama de amor e de paz
brilha na escuridão da guerra
que oprime toda a Terra
e traz a Humanidade refém
no engano da fugaz fama

É Cristo que para nossa salvação
triunfa em cada Natal
sobre a dor e o sobre mal
e nos redime em cada ano
rumo à celestial vitória

   Henrique Pedro

B O A S  F E S T A S


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Nem sei se ainda por cá ando ou se já me fui embora







Esta melencolia que me assola
em dias de chuva aborridos
ou quando o sol poente
me deixa lânguido da saudade
de quem anda ausente
estando embora presente
é uma tristeza deliquescente
mais própria dos vencidos

Abandono-me à nostalgia emergente
e paro de me angustiar
viro as costas às perguntas do costume
que sei
de antemão
não terem respostas

É quando uma morrinha miudinha
me toma os sentidos
a ponto de não me sentir nada
nem ninguém
nem magma
nem matéria
em nada materializado 
em nenhum estado de espírito realizado
ocaso ou aurora

Fico sem saber se ainda por cá ando
ou se já me fui embora
se a poesia é coisa séria
ou não passa de uma pilhéria

Até que o ensejo de um bocejo
me faz despertar dessa sonolência demente
e retomar a vida corrente



terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O amor em redondilha maior e em decassílabo




(Heptassílabo ou redondilha maior)

É-nos dado, sim, saber
E sentir que o amor
É o oposto da dor
Vital no nosso viver

Seria bom, não sofrer
Sentir só d` amor calor
Sem haver dor ao redor
Viver só puro prazer

Não sabermos bem amar
Nem sabermos bem-fazer
É o amor aviltar

No sentir do sentimento
Ninguém se pode enganar
É puro conhecimento


(Decassílabo)

A todos nós nos é dado saber
E sentir aquilo que é amor
Porque é o contrário da dor
E parte vital do nosso viver

Melhor seria, sim, ninguém sofrer
Sempre sentir, do amor, o calor
Sem que houvera dor ao seu redor
Viver apenas de puro prazer

Muito poucos, porém, sabem amar
E só porque não sabem bem-fazer
Acabam por o amor aviltar

Sofrer na pele e ter sentimento
É, sem ninguém se poder enganar
A melhor fonte de conhecimento



domingo, 10 de dezembro de 2017

Fado do mal amado





(Do meu baú de recordações) 
Nunca houve outro amor assim
Uma tão cruel paixão entontece
Entrega tão pura ninguém merece
Nem se a mulher for um querubim

Agora choro lágrimas sem fim
Meu pranto ao longe se esmorece
Como uma mal sucedida prece
Que amargamente se vai de mim

A fada cruel quebrou o encanto
Para sempre seu coração calou
Esta é a razão deste meu pranto

Mas a vil paixão de mim não voou
Por isso canto este triste canto
O fado amargo que me tocou

Chaves, 8 de Março de 1966




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O Amor



Só pela imaginação
não vai a lado nenhum
o homem

Não chega sequer a sair da sua própria mente

Só pelo Amor o homem sai de si
chega aos outros
os sente
os toma
ama
e retorna a si

Só pelo Amor o homem penetra no seu ser
percebe a sua razão de ser
e aprende a amar
e a sofrer

O Amor
é essa força interior
que tem raízes no espírito
o perfume do infinito
e o som do absoluto

O Amor
é um resplendor
semente e fruto
sabor da felicidade
sal da verdade
alivio da dor
fonte da paz

O Amor é uma flor
que floresce no coração
e frutifica na razão

Só pelo Amor
o homem voa pelos céus
e pela mão de Jesus
retorna a Deus

O Amor é essa Luz


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O mundo acaba no dia em que eu morrer



No dia em que eu morrer
apagar-se-ão todas as luzes da Terra
todas as estrelas do céu
o Sol pôr-se-á para não mais nascer
porque os meus olhos fechados nada mais poderão ver

O mundo acabará nesse dia
para mim

Quando eu morrer
calar-se-ão os todos os canhões
os corações deixarão de bater
os meus ouvidos silenciados
tão pouco o cântico das aves poderão escutar

Deixará de haver tempestades na terra e no mar
cães a latir
crianças a chorar
as flores deixarão de perfumar o ar
e de colorir os campos
porque eu não estarei lá para os apreciar e sentir

Todas as lembranças de criança
sonhos de glória
a história da minha vida sentida
se apagarão da memória nesse dia

O mundo cobrir-se-á de um manto de tristeza
sem sentido
porque morrerei sem ter sido tido nem achado
e embora viva apaixonado
ainda hoje não sei porque nasci
e também não saberei
porque morri

Resta-me contudo a esperança
a fugaz alegria
de que o mundo não se acabará no dia em que eu morrer
se uma só boa pessoa continuar a ler
a minha poesia



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

São rosas!





São rosas! Brancas, negras, rubras, amarelas
Aveludadas, rugosas ou multicores
Numa só, a magia de todas as flores
Outras não há assim tão lindas como elas

Perfumadas ou inodoras, sempre belas
Iluminam os olhares com seu amor
Alegram os corações com as suas cores
E perfumam os lares, campos e capelas

Mas as rosas têm certo jeito de amar
Por vezes malicioso e doloroso
Sempre arranjam forma certa de picar

Mesmo a quem as afaga, amoroso
Apenas com a ideia de as mimar
As rosas rejeitam com seu ar caprichoso


domingo, 3 de dezembro de 2017

Alzheimer




Amanhã…
vou fazer tudo ao contrário
andar de trás para a frente
virar os retratos de pernas para o ar

Vou tocar os sinos no campanário
pôr a boca no trombone
desligar o telefone

Vou sorrir a quem nunca me sorriu
deitar a língua de fora ao Papa
mostrar o rabo à Rainha 
chamar demente ao Presidente
alegrar os funerais
com bandas marciais
e mandar a crise para a puta que a pariu

Vou chamar os poetas de patetas
deixar de escrever poesia
por de lado a gramática
e viciar os cálculos de matemática

Amanhã…
vou voltar à infância
comportar-me como criança
correr
saltar
viver a vida com alegria
usar peruca
deixar crescer barba e bigode

Amanhã…
vou fazer tudo ao contrário

Dizem que é a melhor forma de me precaver

pelo menos até morrer

… do Alzheimer



quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Com versos e flores me iludia




Abri-lhe o coração de par em par
Sofrendo com o medo de a perder 
Por assim tanto e tão bem lhe querer
E sem saber como bem a conquistar

Oferecia-lhe flores de sonhar
Poemas, arte de bem escrever
Aborrecia-a, porém, sem querer
Com minha forma, pura, de amar

Ela não gostava de poesia
Pelas flores não sentia afeição
Não a conquistava, antes a perdia

Só o brilho das jóias a movia
Lhe fascinava olhos e coração
Eu, com versos e flores me iludia


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Fogo-de-artifício nuclear



Andam agora os homens a forrar o céu
com aviões
satélites
luzes de néon
rastos de luz e de fumo

Presumo que pretendem tapar o Sol com uma peneira
apagar as estrelas
soprar as nuvens
e aprisionar cometas

Já os políticos histriónicos
se julgam donos do Sistema Solar
como se  as estrelas estevessem ali
à sua mão de semear

Queira Deus que tudo não termine num sopro de ferro incandesce
num monumental fogo-de-artifício nuclear
tendo como música de fundo um acordeão atómico
coro de demónios a bailar


Oh, tanta mente demente!

Que sacrifícios agónicos iremos nós penar?


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

De barro e poesia



Com barro bruto o Criador criou o homem
Insuflando-o com a divina poesia
Para Sua simples recreação e alegria
E sem as dores que ora aos mortais consomem

Porém, tais graças com a poesia eclodem
Que barro vil, por Deus soprado, ganhou vida
Animou Adão e fez Eva apetecida
Dos maiores deleites que na Terra ocorrem

Ao barro, porém, nosso corpo retornará
Finando-se dores e prazeres com a morte
Só a mais pura poesia se salvará

Assim livre da matéria e da má sorte
O homem, com poesia, a Deus louvará
E amará, como Deus quer, Eva, a consorte


sábado, 25 de novembro de 2017

Eu? Um proto deus, um Prometeu




Sei aquilo que sinto
Sinto aquilo que sou
Sou aquilo que sinto
Sou aquilo sou
Proto deus
Prometeu

Cartesiano
Se minto
A mim me minto
A mim me engano

Eu acredito em Deus
Porque tenho consciência de mim
E em mim acredito

Sinto e penso com o coração, com as veias e as artérias, as células, o cérebro e razão, os instintos e os afectos.
Sinto dor em cada poro e sofro com cada pelo que cai.
 Sou algo que se abre como uma flor no meio de uma floresta de dor, de angústia, suposta felicidade e amor.
 Uma larva que se transforma em metamorfoses de alegria e sofrimento, de vida e fantasia.

Olho o Sol a contra luz
Do lado de cá da vidraça do Firmamento
E cego
Sem ver a Deus

Vislumbro apenas a sombra de mim
A sombra do meu espírito
Batido pela luz de Deus
Por isso me sinto um proto deus
Um Prometeu.

Agrilhoado à minha angústia
Devoro-me a mim mesmo






sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Terra Mater




Enlevam-se o meu olhar e o meu coração
Neste doce mar de oliveiras prateadas
Meu bendito berço de mil colinas encantadas
Toma-se o meu ser da mais santa comoção.

Bandos de aves livres voam em livre formação
Pela branda brisa do cair da tarde embaladas
São pela nossa Mãe Natureza abençoadas
Dão asas e graça à sua natural paixão

Terra sem igual sagrada pela oliveira
Aspergida por espiritual quietude
É ganha-pão de gente simples, pura e ordeira

Que nos úberes vales de rio e ribeira
Cultiva sua grata agrária virtude
Assim haja paz igual na Terra inteira