Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Palavras que devem ser ditas





Há palavras que devem ser ditas
escritas
reditas
bem ditas
sentidas e melhor ouvidas
ainda que o poema possa ser proscrito
amaldiçoado

Há uma legião imensa de pobres criaturas
a morrer com fome de pão
e sede de amor e de água
metamorfoseados em espectros
de miséria e morte

Enquanto doutra sorte
uma pequena parte Humanidade
ou o que dela resta
vive túrgida
anafada
sobrealimentada

Em permanente Entrudo
feito de tudo e de  nada
de paródia
ilusão
e vanglória

Lambuzada de vícios e de guerra
falsidade
vaidade
prepotência
intolerância
sexo
e escândalos sem nexo

Procuram a santidade alguns
é verdade
poucos
muito poucos
quase nenhuns

Um dia porém
no tempo e espaço de cada um
tudo acabará podre
putrefacto
feito em merda
fase derradeira
da mais cruel e disforme metamorfose final

O mais belo corpo de mulher
por mais sensual e bronzeado que seja
o mais caro perfume Chanel
o mais poderoso ditador
o jacto privado do machucho maior
o mais glorioso doutor
a obra poética mais festejada
tudo acabará em nada
espuma de coisa nenhuma

Nem os ossos se aproveitarão para os cães roer
transformados em cheiro nauseabundo
de cadáver a apodrecer
em escárnio e mal dizer
em esquecimento perdido no vento

E todas as bombas atómicas da Terra
valerão menos que um fotão perdido no Cosmos

Todas as alegrias e dores
sorrisos e lamentos
entrarão no esquecimento
varridos da memória
vazios de nada e de ninguém

Para os que não crêem na alma
a vida não passa de uma mera perda de tempo
ante a niilista metamorfose final

Salva-se a palavra de Cristo
porém
e salva-nos a nós
a esperança de que seremos outros
melhores e mais felizes em espírito
no Além

Por isso eu que sou livre
e tenho o coração liberto
de deslumbramento e ambição
e não venero nenhum césar na Terra
ou outro mito qualquer
apenas glorifico o Amor e louvo a Deus
qual gladiador a caminho para a morte

Deixemo-nos de jactância e vaidade
sejamos humildes
cultivemos a Temperança
e a Amizade
e pratiquemos a Caridade






domingo, 19 de novembro de 2017

À janela à espera da próxima revolução



Foi a vida

Foi a vida que lhe atou os pés
e as mãos

Não lhe vendou os olhos
nem lhe tapou os ouvidos
nem lhe calou a boca

Continua a ver
a ouvir
a falar
atenta ao mundo
embora sem nada mais poder
por agora
fazer

Mergulhada em inconformismo desconcertante
de amargura instalada no coração
angustiada
a esperança a mantém acordada
vigilante

Atenta
à janela
preparada para o que der e vier
à espera da próxima revolução

Que venha ela

Já!

Que seja de amor e salvação



sábado, 18 de novembro de 2017

A poesia de amor não passa de uma farsa




A poesia de amor não passa de uma farsa
de uma momice
de uma doce aldrabice

De uma mistificação
rimada
declamada
cantada
decantada
nem sempre bem intencionada

De um fingimento de sentimento
de uma falha da razão

De um chorrilho de fantasias
falsidades
meias verdades
falsas alegrias
piruetas e caretas
esgares próprios da paixão

A poesia de amor não passa de uma farsa
com que o poeta
com versos perversos se disfarça

A poesia de amor é um paradoxo
uma desgraça
um meio pouco ortodoxo
de redenção



terça-feira, 14 de novembro de 2017

No reverso do universo




Nada do que sonho
ou imagino
existe em lado nenhum

Dentro de mim há miríades de outras entidades
ideias
sonhos
fantasias
angústias
irrealidades
que eu não consigo expressar em nenhum dos poemas que escrevo
porque não existem na Terra
no umbigo do Sistema Solar
o mundo de verdade

Eu vivo no reverso do universo

É esta a raiz da minha crónica ansiedade


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

E a si, que lhe diz este poema?







Escrevo este poema
deliberadamente
sem nada ter em mente
sem ter nada que dizer
e sem querer dizer nada

Eu não quero dizer mesmo nada
tão pouco nada desdizer

Escrevo-o por escrever
não por inspiração ou frustração

Escrevo este poema só para dar o prazer
de ler o que lhe apetecer
a quem o quiser ler

Só para lhe dizer o quanto podemos dizer
sem dizer nada
ou nada dizer

Este o mor dilema!

Este poema a mim não me diz nada
mesmo nada
nada me diz
diz-me nada

Mas será que se nada me diz
já me estou a desdizer?

Que lhe diz, a si, este poema
ainda assim?

Muito
pouco
tudo
ou nada?

Se a si muito lhe disser
mais a mim me há-de dizer


domingo, 12 de novembro de 2017

Colhendo poemas directamente das árvores





O benefício maior de se viver no campo
é podermos ir ao pomar
colher poemas directamente das árvores
sempre que nos apetecer

Quando não são as aves que no-los trazem
adejando à nossa volta
e chilreando melodias

Ou o Sol
ou a lua
ou as estrelas
que com os seus raios de luz escrevem eles próprios
os versos
na nossa alma

enquanto nós nos limitamos
a ler
deslumbrados

E quando pela manhã abrimos a janela
e descobrimos que não temos nenhum sítio para aonde ir
nada mais que fazer
atiramos um punhado de milho aos pardais
e pomo-nos a escrever




sábado, 11 de novembro de 2017

Aponto-lhes um poema à cabeça e disparo




Acabo com eles
com poesia
e é de vez

Aponto-lhes um poema à cabeça
disparo
e pronto
tudo se consuma
em alegria
talvez

Que descansem em paz
e sem dor
os imundos senhores do mundo

Dissolvam-se-lhes os ossos no tempo
dilua-se-lhes o sentimento
na morte
triunfe o vento
do amor

Com um pouco de sorte
a liberdade continuará a soprar
sobre a Terra
enquanto houver ar
para respirar
pão para comer
poesia para compor
e sonhos para sonhar

Os maiores
são tão pequenos como nós

Só o Amor é grande

sábado, 4 de novembro de 2017

Se porventura não existis, ó Deus!



Ó Deus!
Triste é morrer sem saber porque se viveu

Se porventura não existis
(Para gáudio daqueles que em Vós não acreditam quando tal for evidente
Já que os crentes vão continuar a acreditar, existais ou não)
então eu Vos suplico:
- Criai-Vos!

Não mais deixeis a magna tarefa de Vos criar nas mãos dos homens
que apenas têm sabido imaginar diabos e mais diabos

(Quanto a mim
se algum dia tive tal veleidade
já a perdi
na verdade)

Porque compreendi a minha total incapacidade
para por ordem no Mundo
e para minimamente entender o Universo

Não passo de um pobre diabo,
Senhor!
Que não sabe o que é bem ou mal
e que anda no mundo por ver andar os outros

E que agora humildemente Vos suplica
e se lamenta:
- Se acaso não existis, ó Deus, então criai-Vos!

Para que ao menos possamos acalentar a esperança
de um dia sermos felizes num qualquer lugar
e de compreendermos os mistérios que nos envolvem

A começar pelo estranho princípio que nos faz nascer
sem que ninguém nos diga com que fim
e morrer
sem que ninguém nos pergunte se tal desejamos

Mas se acaso entenderdes que a Vossa existência não é relevante
então
mesmo assim
não permitais que sejam os homens a governar o Universo

Vede só, Senhor
o que os homens estão a fazer a si próprios
e à própria Terra que os sustenta

Ó Deus!
Se porventura não existis
eu Vos suplico:
- Criai-Vos!

Por misericórdia!




sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Palavras tresmalhadas pelo vento





Regurgito golfadas de poemas
desejosos do supremo sacrifício da poesia
apunhalado que foi o meu coração

Tomo um punhado e atiro-os ao ar
deixando que seja o vento
a tresmalhá-los em palavras

Raras
sobem como estrelas
no céu
cintilando
noite adentro

Poucas
são levadas pelos aves
delicadamente nos bicos
para construir os ninhos
e alimentar as crias

Outras
são arrastadas pelos rios
para o mar
terminam nas redes dos pescadores
ou diluídas no seio da tempestade

A maior parte
porém
são estraçalhadas
pelas mandíbulas ferozes dos políticos

Até que nas minhas mãos vazias
apenas resta aflição




quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Puro, nu e cru




Dispo-me da Alma
alijo-me da Razão
calo o Coração
e sigo em frente
puro, nu e cru
como se acabado de sair ventre de minha mãe

Sou apenas espírito

Numa massa amorfa
sem vida nem esperança
uma fraga
uma nuvem
gota
gás

Os poemas que escrevi
diluíram-se no vento
das rimas nada resta

Dos caminhos que trilhei
já o meu rastro se apagou

Se tento morrer
noto a impossibilidade de o fazer

Ninguém é capaz de se matar
e de apagar do cosmos

Por isso amanhã lá estarei de novo
a viver com poesia
a alvorada de mais um dia

E depois de amanhã também
indiferente ao vento
à chuva
e ao frio

Puro, nu e cru

E a sonhar!


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Quando a alma nos cai aos pés





Alguém como eu condenado às galés
e que seguia à minha frente
por um caminho empedrado
inadvertidamente
deixou cair a alma
aos pés

Tilintou
saltitou
e acabou por se ocultar
sem se partir
como se fora um berlinde de cristal
incandescente

Em redor não se via vivalma
e não adveio daí
outro mal
ao mundo

Alguém que seguia a meu lado
por um caminho relvado
deliberadamente
deixou cair o coração
soltando-o da mão

Ouviu-se um baque surdo
e ali ficou plasmado
como se fora um pastel ensanguentado
vivo
a latejar

Alguém que vinha atrás de mim
por um caminho enlameado
irreflectidamente deixou cair o cérebro
no chão
por erro de lógica
sem razão

Fez plof!
Ainda esbracejou
como se ensaiasse nadar
mas acabou por se afundar
e ali ficar atolado
com a consciência à tona
por algum tempo
como se fosse uma azeitona
enquanto a memória
diluída no vento
apodrecia na História

O primeiro Alguém iluminou-se
sem combustão

O segundo apaixonou-se
ardeu
sem compaixão

O terceiro enlouqueceu
ninguém lhe valeu
restaram os ossos

Eu segui em frente
por entre, cacos e destroços
à procura do meu berlinde irisado
que andará por aí
perdido em qualquer lado
a cair sem se partir

Quando a alma nos cai aos pés
partimo-nos todos
espalhamo-nos
cada bocado para seu lado

Só nos levantamos por inteiro
se recuperamos a alma
primeiro
mesmo se perdemos a razão
e o coração



domingo, 29 de outubro de 2017

Beijos





Beijos

           na alma
           nas mãos
           na boca
           no cu
           no coração
           na face
           no rosto
           na testa
           em tudo que resta

         Na alma?
         só a alma os dá

         No coração?
         não penetra tão fundo a tesão

Beijos
          de amor
          de traição
          de verdade
          de amizade
          de bom tom
          beijos beneton

Beijos
        da morte
        da má sorte
        bafejos
        harpejos de infelicidade

Beijos
       de circunstância
       de primeira instância
       de Judas
       escusas
       antologia
       cinema
       fantasia
       de poema

Beijo
beijão
beijinho
público
privado
desdém
carinho
forçado
estudado
repetido
desinibido
       repenicado

Beijo

Abraço

Abração

Abraçadinho

Maior é o beijinho
pequenino
ternurento
sem embaraço
nem lamento

São os beiços que beijam
se o beijo é de desejo
mas beija o coração
se o beijo é de dor
ou de amor

Beijam os olhos
as mãos
os braços
os lábios
tanto faz
se o beijo for beijo de verdade e de paz



sábado, 28 de outubro de 2017

O Amor, o nosso Deus




Lê-se em todos os Livros Sagrados
dizem-no todos os grandes profetas
e místicos consagrados de todas as religiões
proclamam-no fiéis de todas as convicções
em seus cânticos de glória e louvor:
- Deus é Amor!

Pois seja!
Façamos então do Amor
… o nosso Deus!

Judeus e gentios
cristãos de todas as confissões
islâmicos e budistas
cátaros e hinduístas
espiritistas e mações
gente de toda a cor
a todos nos une o Deus Amor

Mesmo aqueles que em Deus
não acreditam
ao Amor não deixarão
por certo
de dar crédito

Pratiquemos portanto o Bem
no dia-a-dia
quando trabalhamos
amamos
ou escrevemos poesia

E sempre que alguém nasce
e nos enche de alegria
ou nos diz definitivo adeus
deixemos que o Amor nos tome
e comande
façamos do Amor o nosso Deus



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Lenda de Santa Comba e São Leonardo



Neste mesmo local
em que ora me assento
donde diviso todo o vale
perpassado pelo vento
da recordação

Vivo com emoção
o trágico momento
tempo da História
já fora da memória
com o coração a bater
a querer saltar do peito
sem jeito de se conter

Sinto a terra a arfar
a pulsar com a dor
do pastor Leonardo
morto ainda criança
trespassado pela lança
do mouro javardo
que acaba de o esventrar

E ouço os soluços
de sua irmã Comba
de bruços a chorar
naquela funesta manhã

O cavalo alfaraz
a relinchar
com os cascos a bater
qual tenaz
na fraga que se abriu
para esconder
a Comba cristã

Fraga que ainda guarda
a ferradura gravada
a quente
jura muito crente
que bem viu

Imagino agora eu
a casta adolescente
a voar
Comba feita pomba
a subir ao Céu

Par virar santa
venerada
moira encantada
que encanta
o povo que a canta
por toda a Terra Quente

in Anamnesis (Janeiro de 2016)



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Estarei no messenger, mais logo, para lhe falar



Aqui
O vento que se levantou ao fim do dia
Já veio tarde
Mas deu para limpar o céu
Das negras nuvens do fumo dos incêndios florestais

Ademais
O Firmamento está agora límpido
Cerúleo
Cristalino

Dá para ver na perfeição a Via Láctea
Que se distende na direcção Norte-Sul
E se me enrodilha na Razão
Salpicada de estrelas bruxuleantes
Rangendo de silêncio

Imagino que aí
Do lugar em que te encontras
Duma janela de um vigésimo terceiro andar
Dá para veres
Por certo e na perfeição
O arco da Baía de Guanabara
Em todo o seu esplendor
De som e néon

E ouvir
O bater do seu coração

Fantástica é a poesia
Que nos dá olhos para ver
E ouvir
Com amor e alegria
Coisas tão distintas
E ainda mais
O indistinto que certas coisas têm

E que diferença faz a pesada espiritualidade
Da minha vista
Da suave sensualidade
Do seu olhar?

Nenhuma

Na minha
Uma mulher nua
Láctea
Toca violino
Ao luar

Na sua
Um homem se despe
Doirado
No mar

Estarei no messenger
Mais logo
Para lhe falar