Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Luar




Passo um braço pelos seus ombros com doçura
e ela abraça-me pela cintura

Assim abraçados
e para Sul voltados
as nossas silhuetas recortam-se no luar
sob a abóbada celeste azul
cintilante
marchetada de estrelas
em incessante bruxulear

Diz-me que gostaria de viajar
até à estrela mais distante
a mim assim abraçada
e pergunta-me em que penso eu

Penso numa estrela mais próxima
cujo coração sinto cintilar
aqui
junto a mim
penso em ti
respondo
inebriado de paixão

A noite ilumina-se com o seu sorriso
abraçamo-nos ainda mais forte
voltados agora um para o outro
cada um para o seu norte
recortando o nosso amor
no luar



domingo, 29 de janeiro de 2017

Um Homem pregado numa Cruz




Bato a todas as portas do Universo
A todos os astros do Cosmos questiono
Nos antros do mundo eu me emociono
Por toda a parte o clima me é adverso

Leio todos os livros de prosa e verso
A todas as bibliotecas eu assomo
Nos laboratórios perco o meu sono
Procurando um consolo incontroverso

Em todas as igrejas procuro a Luz
Força para sofrer e me manter de pé
Mas nenhuma evidência me seduz

Um Homem, porém, me diz, pregado na Cruz:
- Não deves deixar de Amar e de ter Fé.
Vê! Por ti estou aqui! Sou Cristo Jesus!



sábado, 28 de janeiro de 2017

Um poema e um prato de feijão




Gosto de feijoada à transmontana
ou à brasileira
embora aceite que não é comida ligeira
sobretudo ao jantar

Também gosto de declamar um bom poema
um soneto
uma odisseia
uma simples quadra que seja
que comporte alegria e uma ideia imaculada

Embora haja poesia que mete dó
e seres humanos que fazem doer o coração
porque morrem à míngua, tão só
por não terem um prato de feijão para comer
e nem um simples poema saibam ler

Não estou certo, porém
nem de longe nem de perto
que basta poesia e um prato de feijão
para se alcançar a salvação

Mas estou em crer com verdade
que um poema e uma feijoada
confecionados com arte
ou um simples naco de pão
resolveriam em grande parte
os problemas da Humanidade



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Na rua do amor




Bati à porta dela
na rua do amor
com pancadas do coração

Espreitei pela janela
a casa estava vazia
e ela
ausente

Demente
decidi esperar
e pôr-me a sofrer
sem razão de ser

Fiz da minha sina
rima
do desejo verso
do gemer melopeia
do ensejo ideia
do universo poema
da paixão poesia
amor perverso
dilema
choro e cantar

Maior desgraça vai ser
se um dia
sua graça
voltar!



1966



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Deus faz barulho demais



Deus faz tanto barulho
que só não O ouve quem não quer

Aqui na Terra
porque lá no Céu
parece ser silencioso
porque não são precisos ouvidos para ouvi-Lo
nem olhos para enxergá-Lo
e há luz suficiente para nos iluminar

Por isso as estrelas nos piscam os olhos
e falam baixinho

Aqui na Terra, porém
Deus
faz barulho demais
para os ouvidos dos pobres mortais

Talvez para Se fazer ouvir

São os trovões
as tempestades
os vulcões
as ondas do mar

Será que Deus não tem
outras formas de Se revelar?

Eu diria que sim
que tem

Por mim
ouço-O na sinfonia do Amor
vejo-O no halo das Cores
cheiro-O no aroma das flores
imagino-O no Universo sem medida
e sinto-O no mistério da Vida
no magistério da Dor



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A alma tal qual a sinto




A alma tal qual a sinto
não é branca
ou negra
etérea
ou sequer vaporosa

É uma luz interior
cor-de-rosa

Um vórtice de amor dentro do meu ser
que anseia tudo abraçar em redor
ao som de uma cósmica orquestra sinfónica

A Terra
o Céu
as Estrelas e Galáxias
o Universo inteiro
e tudo devolver à vida
em explosão cósmica de amor

A alma tal qual a pressinto
é um sopro
de pensamento

Sou eu e meus eus
sem corpo
feitos vento
a voar
para Deus



domingo, 15 de janeiro de 2017

Efêmera é a flor do amor




Efêmera é a flor do amor-paixão
cujas pétalas as leva o vento
ao mais leve sofrimento

Efémeros são o seu odor
e a sua cor

São o perfume e o rubor
da dor

Efêmera é a flor do amor-paixão
com que nos perdemos

Murcha sem razão
sem avisar
e sem querer

Só para podermos aprender
a melhor
e mais
amar




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Será amor, a paixão?

















Entre homem e mulher
sempre poderá haver
uma relação de amor

Poderá ser amizade
de verdade
ou até acontecer
assolapada paixão

Mas será amor, a paixão
se reclama exclusividade
e é prisão?

Amor é partilha
ágape
liberdade
inclusão

A paixão
por si só
não é amor, não
é antes fonte de dor

Entre paixão, ódio ou indiferença
o amor faz a diferença




terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A alegria triste de Inverno



Inverno

Inferno frio
acinzentado

Céu coroado de nuvens
que me fazem refém
do silêncio denso
pesado
compassado
que se instala por mim a dentro

Frio fino que me morde a pele
me penetra e me pica
os ossos e os músculos

Inverno

Ténues crepúsculos são os meus dias
e as noites distendidas
nostalgias de labaredas
acesas
na alma

Tempo de calma
de reflexão
hora de resistir
de me despir por dentro
e me vestir por fora

Sangue a ferver no coração
a implodir de liberdade
e a explodir de caridade
e paixão

Inverno

Uma alegria triste
que em mim persiste



domingo, 8 de janeiro de 2017

Ofereço poesia. Aceite!




Arranco raízes da alma que embalo em versos
orvalho-as com o sangue fervente do coração
e lanço-os ao vento pensando nalguém
que as poderá apanhar
e sentir
que é toda gente

Outra coisa não tenho para dar a quem me pedir
apenas ideias e afectos
para oferecer
glórias ilusórias
nada que se possa comprar ou vender

Ofereço poesia ainda assim
dou tudo de mim
que é tudo quanto tenho




quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Sons surdos de saudade





Silêncios dilacerantes
rasgam-me o peito
e trazem-me desfeito
com o sentimento
de que a perdi

Ruídos que me roem por dentro
sons surdos de saudade
ecos de ansiedade
ondas de impaciência
geradas pela sua ausência

Abro os braços ao ar
na esperança que o vento
para ela me leve
a voar
ou assim a traga de novo
leve e livre
para mim

O vento do destino, porém
com desdém
só me deixa mais só
bobo
e sem tino



(*) Do meu baú de recordações
  
Cascais, 16 de Setembro de 1970

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Amar sem sentir o coração bater



A minha fé não vai além da minha angústia

Sinto que ainda não é
sequer
a minha crença
nem o meu querer

A minha fé
não passa de uma graça da desgraça

Ainda não é a luz do amor interior

Mas eu tenho a esperança
de um dia
poder
ver
sem precisar de olhos
para enxergar

Nem de ouvidos para ouvir
ou do cérebro para pensar

Sequer de sentir o coração bater
para a amar



domingo, 1 de janeiro de 2017

Quando a alma nos dói



O corpo
quando nos dói
dói-nos por partes
nunca nos dói todo
inteiro
apenas em parte
nos dói

Dói-nos um pé
uma mão
o peito
o coração
cada um com sua dor

E quando sentimos prazer
também sentimos por partes
distintas formas de gozar
cada uma com suas artes

Sentimos o tacto
o sexo
o sabor
o olfacto
o ouvido
o olhar

Mas a nossa alma
quando ama
ou sente dó
sofre e ama inteira
toda
verdadeira

Porque a alma é una
uma só