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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Sempre me dizia que partia mas ficou




Mil vezes ela me dizia
que partia
mas sempre ficou
mais apaixonada

A toda a hora me dizia
que se ia
embora
e voltou

Eu sabia que sempre que ela partia
não tardava
que curta seria
a demora

Mil vezes o meu coração se partia
mas me dizia
que ela apenas pretendia
que lhe desse mais atenção
mais ainda da que agora
lhe dou

Vou continuar deixá-la dizer
que vai
e não vai
a ir e a vir
a partir e a ficar
a fazer o que quiser

Mais atenção ainda assim
ela a mim
me vai dar

E só não lhe digo que eu
também me vou
com o receio
que de permeio
ela se vá
e vá demorar



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Digam lá se isto não é poesia!




Digam lá se não é poesia
o começo da Primavera
o desabrochar de uma flor
a espera ansiada
e já com amor
da mulher amada
mesmo se ainda nem é
sequer
nossa namorada

Digam lá se não é poesia
o sorriso que a criança oferece
sem que se lho peça
mesmo se não se merece

Digam lá se não é poesia
tudo que recebemos
com alegria
mesmo se não nos apetece
aceitar

Digam lá se não é poesia
tudo o que oferecemos
com fantasia
mesmo se nada temos
para oferecer

Digam lá se não é a poesia
a mais linda forma de dar
e receber
que é
amar!



domingo, 19 de fevereiro de 2017

À paixão trá-la o desejo e leva-a o vento



Basta um ar
ameno
para se formar

Uma brisa
um aceno

Uma ideia imprecisa

Um olhar expressivo

Um falar melopeia

Um toque especial
um beijo impressivo

E o vendaval da desilusão
para a transmutar
em tormento

À paixão
trá-la o desejo
e leva-a
o vento



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Por saber que paixão não leva a lado nenhum




Deixo-me ficar parado
mudo
ensimesmado
a ver a chuva cair
embora sem a sentir

O meu pensamento, porém, anda por perto
bem por dentro de mim
e nem a mais forte rajada de vento
me faz acordar
e regressar
à realidade circunscrita

É como se eu fora um eremita
orando
resguardado das tempestades do tempo
e do trovão do seu coração

Que passa os dias parado
meditando
ensimesmado
a ver a chuva cair
embora sem a sentir
por saber que a paixão não leva a lado nenhum



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Tristeza deliquescente




Esta melencolia que me assola
em dias de chuva aborridos
ou quando o sol poente
me deixa lânguido da saudade
de quem anda ausente
estando embora presente
é uma tristeza deliquescente
mais própria dos vencidos

Abandono-me à nostalgia emergente
e paro de me angustiar
viro as costas às perguntas do costume
que sei
de antemão
não terem respostas

É quando uma morrinha miudinha
me toma os sentidos
a ponto de não me sentir nada
nem ninguém
magma
ou matéria
nem em nada materializado
em nenhum estado de espírito realizado

Fico sem saber se ainda estou aqui
ou se já vou além
se a poesia é coisa séria
ou não passa de uma pilhéria

Até que o ensejo de um bocejo
me faz despertar dessa sonolência demente
e retomar a vida corrente



sábado, 11 de fevereiro de 2017

Grito!



Consola-me constatar
que mesmo no escuro
consigo sentir

E pensar

Aprisionado nas frias masmorras da dúvida
e da angústia
onde apenas entra alguma luz
difusa
pelos olhos
e alguns sons
estereofónicos
pelos ouvidos
sinto-me amarrado a tudo que transporto comigo
e de nada me valem músculos e membros

Desesperado
agarro-me às grades e grito
no silêncio

Grito pelo carcereiro
na esperança de me fazer ouvir no universo inteiro
e de que alguém me virá libertar

Mas apenas ouço os meus gritos ecoar
e ressoar
dentro de mim
como em poço sem fundo

Porque é em mim que estou preso
numa prisão do tamanho do mundo

Apesar de tudo
consola-me constatar
que mesmo mudo
consigo gritar



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Um poema e dois dedos de angústia





Ando angustiado
por tudo
e por nada
embora esteja certo de não ser demente
nem estar doente
ou andar enamorado

Sinto-me sem valor
nulo
inseguro
com medo de tudo

Fico quedo
enfadado
tomado de desconhecido temor

Angustia-me o futuro
amargura-me o passado

Se tento não me angustiar
uma maior angústia larvar
acaba por se impor
contrária ao meu querer

Tem tudo a ver
com este mundo malvado



sábado, 4 de fevereiro de 2017

Quando, por encanto, me dei conta  





Ambos sentíamos uma doce dor
uma amorosa imanência
padecia ela com paciência
e de impaciência ma fazia padecer a mim

Quando
por encanto
me dei conta
de que também ela de mim gostava
já há muito tempo ela suspirava
para que eu lhe declarasse
o meu amor

Quer eu
quer ela sentia
que sofrer assim
era suprema forma de prazer

A causa daquela dor
era tão só
puro amor



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Por tudo que não amei tanto quanto devia



Boas recordações me mortificam e desalentam
contra o tempo  e contra o vento
e me afastam de novos sonhos e ilusões

Não amei tanto quanto devia ter amado quem amei
não vivi tanto quando devia ter vivido tudo que já vivi

A saudade transforma-se em soledade e nostalgia
deixa-me aborrido
exangue
ferido
sem alegria
à procura de novo sentido para a vida ainda não vivida

A mesma saudade que se transmuta em apelo do futuro
em fé no devir
em razão de ser e sorrir

Por força de tudo que não vivi
mas ainda assim estou em tempo de viver

Por tudo que não amei tanto quanto devia
mas ainda assim poderei mais amar
com redobrada verdade e fantasia

Esta a nova elegia da saudade