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quarta-feira, 24 de maio de 2017

O único reparo que faço a Deus




O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem substituir as estrelas no céu
sempre que alguma se avaria

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem polir
e dar mais brilho à Lua
sempre que o firmamento
se obscurece

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para as mães poderem acariciar os seus filhos
quando estão ausentes.

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem abraçar
de uma só vez
toda a Humanidade

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem plantar árvores
nos outros planetas que giram na galáxia

O único reparo que faço a Deus
é não ter dado aos homens braços mais compridos
para poderem apertar a Sua mão
lá no céu
a partir da Terra



sábado, 20 de maio de 2017

Há amar e amar, há partir e ficar







Especado no cais
hesito entre partir e ficar
ir atrás do seu olhar

Abstraio-me

Dou asas ao coração
mergulho na sua imagem
no reino da ilusão

Inunda-me uma vaga de desejo
venço a onda do embaraço
passo à acção
à palavra
ao beijo
ao abraço

Afirma-se a paixão

Sinto que ela me quer
que não é miragem

Será que existe?

Ela insiste

Especado no cais
hesito entre ficar
e partir
ir atrás do seu olhar

Não sei para onde me leva
nem para onde ela vai

Há amar e amar
há partir e ficar



sexta-feira, 19 de maio de 2017

A insana ânsia de imortalidade




Leva-nos para lá da morte

A ânsia de imortalidade

A insana procura da verdade
que nos leva a morrer
e a matar

É a insana ânsia de imortalidade
que nos faz cantar
bailar
amar
escrever
sofrer
tentar a sorte

É mais que vaidade
querer perlongar o viver
desejo de fama

Emerge do âmago do nosso ser

É Deus que nos chama



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Caí de um buraco do céu



O céu
é só o tecto do mundo
feito de nuvens e de sonhos
e ponteado de estrelas

Tecto com buracos por onde escorre a chuva
quando os anjos obreiros andam a lavar o além
a mando de Deus
e revoadas de pássaros se escapam do paraíso
para vir alegrar os ares

Foi de um desses buracos que eu caí
em dia de trovoada
numa noite iluminada
por relâmpagos de poesia



domingo, 14 de maio de 2017

Flores a florir o devir




Só será poesia
e ganhará voz
se germinar dentro de nós
e florescer no mundo

Se for pão
colhido na seara da vida
moído com fantasia
e amassado com o suor do rosto
e o mosto do coração

Se for pão cozido com dor
amor
e angústia

Flor
alegria
e alimento

Lembrança
esperança
verdade
ansiedade
e esquecimento

Flores a florir
o devir



domingo, 7 de maio de 2017

O amor dor de nossa mãe




Com beijos do nosso pai e da nossa mãe
No útero materno nós somos gerados
Pelo desígnio divino abençoados.
Porém, paridos com dor, amor nos mantém

Tudo do amor dor de mãe, por bem, advém:
O bom leite com que somos amamentados
As lágrimas dos dias mais angustiados
A esperança de que seremos alguém

Do paraíso que é o mátrio seio
Jamais dele seríamos nós separados
Se estivesse a Mãe de Deus pelo meio

Nem o acto donde toda a dor adveio
O bom Criador o teria consumado
Caso Eva já fosse mãe. Assim eu creio!






sexta-feira, 5 de maio de 2017

Este infausto acontecimento de me deixar apaixonar.



Ando a torcer
a retorcer
a espremer palavras
a bolsar ideias
iludido de que ando a pensar mas não penso
apenas sinto
a mim mesmo minto
e sôfrego
sofro

Dando asas a poemas
a este magno sentimento
infausto acontecimento
de me deixar apaixonar

Não de uma paixão qualquer
embora meta muito amor de mulher
a começar pelo amor de minha mãe

É o amor à vida
esta alegria de viver que me angustia
e me faz sofrer

É o medo da morte
e da má sorte
o temor do Além



segunda-feira, 1 de maio de 2017

E Deus disse: Dou-te a palavra!



E Deus disse:
- Dou-te a palavra, escreve o poema!

E a primeira palavra que Deus nos deu
foi a palavra “palavra”
inscrita no gesto e no olhar

Gesto e olhar
que apalavraram o primeiro verso
lavraram o primeiro poema
o primeiro convite a amar

Até que ao sétimo dia
Deus descansou
e nos deixou a nós
sós
de mente inquieta
a aprender a falar
a ler e a escrever

Para que fosse o poeta
com alegria e poesia
a despertar o espírito de Deus
que dorme em nós