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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Ainda há lágrimas por chorar, Hiroshima



Ainda há lágrimas por chorar
Hiroshima

Ainda há holocaustos por exorcizar
não é ainda a Paz
que os homens anima
é já tempo de parar

Tempo de por fim à fome e à guerra
à mentira e a miséria
à política falaz
que assola toda a Terra

Já é tempo de fazer valer a Verdade
tempo de quem já nada espera
voltar a ter tempo de acreditar
tempo de gritar
Liberdade

Tempo de os homens serem homens
e de os homens serem
Humanidade

É já tempo
antes que seja tarde



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O pecado original






Contesto o Teu critério, ó Criador
De expulsar Adão e Eva do Paraíso!
Se foi Eva a causadora do prejuízo
Porque não expulsá-la só a ela, Senhor?!

Continuaria, assim, o homem, sem dor
A viver no Éden, em seu perfeito juízo
E a mulher na Terra, se eu bem ajuízo,
Mais feliz do que é, sem o homem por tutor.

Ou será que Adão quis Eva acompanhar
Tão ardente era a loucura da paixão
E nem Vós, Senhor, os conseguistes separar?!

Se assim foi, então, tendes toda a razão!
Só àqueles que aprenderem a bem amar
Vós abençoais e concedeis a Salvação.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Para onde vás Luís Vaz





Não me admiro que Luís Vaz, o imortal Camões
tenha morrido na miséria

Indigente

Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique

a mítica  ilha do mar Índico
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade
no regresso do Oriente
onde se fez épico

Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto entre palhotas e palmeiras
sem utilidade alguma
para lá de servir de pouso aos pássaros
que lhe defecavam na cabeça

Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
nalgum armazém de históricas banalidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
que nele não viu outra utilidade

Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que a minha desilusão
mais arde

e os sentimentos de ser português
e de como Camões também pertencer
aos Vaz de Vilar de Nantes
mais se acendem
frustrantes

Luís Vaz enquanto poeta foi um inútil
embora tenha deixado de o ser
quando a genealidade da sua poesia
gerou ventos e marés
e construiu auto-estradas de sonho

Foi um verdadeiro indigente
que não ganhava nada com isso
mais mal pago que um qualquer operário
que com mais acerto, por certo
lavrava a terra ou caiava paredes

Era um sem-abrigo
semi-anjo
quasi-deus
um extraterrestre sem interesse
a quem o soldo não bastou para regressar
ao Portugal que o enjeitou

A Portugal
não à Pátria
porque que a Pátria de Camões
era onde era poeta e soldado


Era onde havia projectos de verdade

de sonho, amores e mistério
e poesia

que um dia
foram Império de humanidade

Hoje em dia sem utilidade
tanto quanto sei

Para onde vás, Luís Vaz
ou fores
lá estarei



domingo, 6 de agosto de 2017

Ceara ondulante, crina de mulher



Mar de virtude
e de puro engano

Oceano de perfume
em que mergulham meus dedos
e se afundam
em mil ternuras
sem medos
de se afogar

Ceara ondulante
liana enleante
crina de égua a relinchar
ululante
de prazer

Corda de cítara
a gemer
que me delicia dedilhar

Cabelo de mulher…

que sublime prazer
me dá
afagar



sábado, 5 de agosto de 2017

Cento e cinquenta e seis badaladas






Cento e cinquenta e seis badaladas concertadas
o dia tem
mais a melodia que o nosso coração
bate no ventre de nossa mãe
que ela ouve
mas nós não ouvimos não

Doze badaladas que o coração bate ao meio dia
como cão a latir

Ruidosas
apressadas
pressurosas
a fugir
a saltar fora do peito
a viver sem jeito
fora de si

Doze badaladas que o coração bate à meia-noite
como vento a rugir
já fora de tempo

Langorosas
arrastadas
pesarosas
até parar
e cair
no esquecimento

Mais as badaladas silenciadas
quando dormimos
ou não sentimos
o coração bater por ninguém

Cento e cinquenta e seis badaladas compassadas
o coração bate hora a hora
dia a dia
mundo fora
aqui
ali
além
embora não saibamos quantos dias
a vida
sofrida
tem