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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Para onde vás Luís Vaz





Não me admiro que Luís Vaz, o imortal Camões
tenha morrido na miséria

Indigente

Lembrei-me dele
quando
(já lá vão trinta e tantos anos)
também passei pela Ilha de Moçambique

a mítica  ilha do mar Índico
onde o poeta penou
de mão estendida à caridade
no regresso do Oriente
onde se fez épico

Dele restava um busto de bronze
erigido num recanto entre palhotas e palmeiras
sem utilidade alguma
para lá de servir de pouso aos pássaros
que lhe defecavam na cabeça

Não sei se ainda lá estará
se jazerá nalgum monturo de inutilidades
nalgum armazém de históricas banalidades
ou se ornamentará a palhota de algum nativo
que nele não viu outra utilidade

Foi lá
e então
que me ocorreu este poema
embora só agora o dê a lume
porque é agora que a minha desilusão
mais arde

e os sentimentos de ser português
e de como Camões também pertencer
aos Vaz de Vilar de Nantes
mais se acendem
frustrantes

Luís Vaz enquanto poeta foi um inútil
embora tenha deixado de o ser
quando a genealidade da sua poesia
gerou ventos e marés
e construiu auto-estradas de sonho

Foi um verdadeiro indigente
que não ganhava nada com isso
mais mal pago que um qualquer operário
que com mais acerto, por certo
lavrava a terra ou caiava paredes

Era um sem-abrigo
semi-anjo
quasi-deus
um extraterrestre sem interesse
a quem o soldo não bastou para regressar
ao Portugal que o enjeitou

A Portugal
não à Pátria
porque que a Pátria de Camões
era onde era poeta e soldado


Era onde havia projectos de verdade

de sonho, amores e mistério
e poesia

que um dia
foram Império de humanidade

Hoje em dia sem utilidade
tanto quanto sei

Para onde vás, Luís Vaz
ou fores
lá estarei



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