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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Arando poemas com um tractor agrícola



Ocorrem-me ideias loucas
e não poucas
sentado  num tractor agrícola
que pachorrento se arrasta
escarificando a terra em sulcos rectilíneos

Fazem-me companhia os meus cães
divertindo-se em correrias loucas
atrás das lavandeiras que graciosas
catam os vermes no húmus fresco

Os meus braços e pernas transformam-se
em alavancas e manivelas da máquina

Acabo por me abstrair e sair dali
a cismar

Deixo de ouvir o som rouco
monocórdico
do tractor
a gemer
de viva dor
de tanto se esforçar

Mas a vida é assim

Há quem dispute o domínio do mundo
e quem cometa adultério
quem desespere com o estado da Nação
quem esgaravate a terra à procura de pão

Cada vez mais a Civilização é despautério

Eu divirto-me remexendo o húmus do olival
que as oliveiras convertem em azeite doirado
indiferente ao vento gélido que sopra da serra da Padrela
por certo já polvilhada da primeira neve
indiciando o Inverno que se aproxima
uivante

Não estou seguro de que as ideias que fabrico
introvertido
em cima de tractor agrícola que lavra o olival
se concertarão em poema digno de ser lido

Mas vou ter prazer adicional de escrevê-lo
mesmo que fique inacabado
por falta de algum verso esquecido

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)

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