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domingo, 3 de junho de 2018

Agora outros galos cantam pela madrugada



Agora outros galos cantam pela madrugada

O relógio da sala tocou a nota musical introdutória
com poesia
embora igual para todas as horas certas
ou incertas
(os quartos e as meias têm outras melodia)
e depois deu doze sonoras badalas
espaçadas
metálicas
marteladas

Entristece-me que os mestres relojoeiros de relógios analógicos
não hajam construído mais relógios zoomórficos
para lá dos cucos a que damos corda
para que continuem a cucar
mesmo que não seja à hora certa
e o seu canto
pela certa
não vá ninguém
acordar

Concorrendo com os modernos “timers” digitais
dos anúncios de néon feéricos nas avenidas
de dígitos a piscar no ar
virtuais
com quantas casas decimais se pretender
em consonância com o que se quiser comprar
ou vender

Preferia ouvir os relógios analógicos badalar
em contraposição à insana inovação
que põe milhares de relógios digitais a piscar
por toda a parte
acelerando ainda mais o tempo
e obrigando as pessoas a correr
ainda mais

Ainda assim
quanto a mim
todos acabamos por andar
dessincronizados com o Cosmos

Por isso preferia ouvir os relógios analógicos badalar
crocitar
cucar
e porque não
balir
para me despertar
pela madrugada

Como quando era o galo
madrugador
que com seu estridente estertor
anunciava a alvorada

in Anamnesis (1.ª Edição: Janeiro de 2016)



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