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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Abro a porta de trás da alma


 

Ouço sons ladrados no silêncio da noite
pios fantasmagóricos de aves noctívagas
ruídos de discotecas
sons de tiros
chiar de pneus
sirenes de ambulâncias
gritos de fome e de dor
clamor de revolta
insultos
blasfémias
ódios gritados
amores martirizados
violência doméstica

Abro a porta de trás da alma
que dá directamente para o mundo

Milhares de mãos entendidas
no umbral
forçam a entrada
pedem nada

Pouco mais tenho para lhes dar

Dou-lhes poemas
do meu jantar
frugal
para eles caviar
certamente

Reluzem luzes semeadas na escuridão da Terra
tremeluzem luzeiros na obscuridade do Firmamento

Acendem-se angústias na penumbra do meu ser
tenho o coração a arder
em chaga viva
vejo-me pregado no Crucifixo que trago dependurado ao peito
ofusca-me a luz do arrebol
engulo a saliva

Meu Deus que raio de pesadelo!
 
Para quando o Apocalipse?

Já no próximo eclipse
do Sol?

Misericórdia!

Dai-nos tempo para vestir a Lua
que vai nua!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Ao deus-dará


 

 

Adrede
caminho a esmo

Avanço

Mesmo que seja o vento
a traçar-me o caminho
a tecer a rede
a tramar-me o destino

Sem rumo

Ora por veredas que caiem a prumo
nas arestas da montanha
ora em terreno plano

Interno-me na floresta
do que me resta
de espírito lhano

A minha alma não sei por onde anda
à minha vontade
tanto se lhe dá

Caminho por aí
sem sair daqui
nem por ir além

Ao deus-dará

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Amar é bem-querer


 
 
Seja o amor paixão
amizade, fraternidade
ou compaixão
sempre é
admiração

Por isso eu admiro quem amo
porque com quem amo
me encanto

Embora nem sempre ame
quem admiro
porque me causa espanto

Também amo de quem me condo-o
porque não gosto de ver sofrer
e amar é
tão só...

bem-querer

sábado, 31 de janeiro de 2015

Poesia que sinto e não escrevo


 

Passa nas nuvens
nos sonhos
nos desejos
a correr
fugaz

Sob mil formas de amar
e de sofrer
de vento
e de contratempo

A poesia que sinto e não escrevo

Porque não sei
não quero
não tenho tempo
ou não sou capaz

A poesia que sinto
e não sei escrever
é angústia
é tormento

Epifenómeno do meu viver

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Canto e assobio baixinho


 

 
Quando caminho
pelo campo
sozinho
canto e assobio
baixinho
como quando menino

Como se sem querer quisesse
com a natureza melhor me identificar

Como se eu fora ave
no céu
a voar

Vento
aragem
miragem
sobre os campos
a pairar

Ideia
sonho
risonho
flor
a florir

Vontade de amar

Coração
a bater
sem mãos a medir

Poeta

Alma aberta

Razão
prestes
a explodir

sábado, 24 de janeiro de 2015

A quem me lê me confesso


 

Poeta assumido
sempre falo de mim
na poesia que escrevo
por não saber guardar segredo

Mesmo quando de mim
nada digo
porque de mim
pouco sei

E mais de mim digo
naquilo que de mim escondo
do que naquilo que de mim
tento não dizer
por querer
ou no que de mim
escondo sem saber

Mas quem me souber ler
com perspicácia
vencerá a minha audácia
em me esconder
e mais do que eu mesmo
de mim mais ficará a saber

De mim próprio apenas sei
confesso
que não sou não
o poeta que penso
nem o poeta professo
que ainda assim
gostaria de ser