Ouço
sons ladrados no silêncio da noite
pios
fantasmagóricos de aves noctívagas
ruídos
de discotecas
sons de
tiros
chiar de
pneus
sirenes
de ambulâncias
gritos
de fome e de dor
clamor
de revolta
insultos
blasfémias
ódios
gritados
amores
martirizados
violência
doméstica
Abro a
porta de trás da alma
que dá
directamente para o mundo
Milhares
de mãos entendidas
no
umbral
forçam a
entrada
pedem nada
Pouco
mais tenho para lhes dar
Dou-lhes
poemas
do meu jantar
frugal
para
eles caviar
certamente
Reluzem
luzes semeadas na escuridão da Terra
tremeluzem
luzeiros na obscuridade do Firmamento
Acendem-se
angústias na penumbra do meu ser
tenho o
coração a arder
em chaga
viva
vejo-me pregado
no Crucifixo que trago dependurado ao peito
ofusca-me
a luz do arrebol
engulo a
saliva
Meu Deus
que raio de pesadelo!
Para
quando o Apocalipse?
Já no
próximo eclipse
do Sol?
Misericórdia!
Dai-nos
tempo para vestir a Lua
que vai
nua!