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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Clepsidra


 
 


Chama-se poesia
a clepsidra
que marca o meu dia-a-dia

É a medida do meu tempo

É o vento da vida a passar
toque de realejo
vontade-desejo
de amar

Nela fluem afectos
ideias
grãos de areias
sonhos despertos
pedaços de Universo
formatados em verso
à medida que a vida
se esvai

Pinga
pinga
vai pingando
pingos de amor
de alegria
de dor
de pura amargura
nostalgia
e saudade

E pingo a pingo
um oceano de fantasia
sem fundura
se vai formando
de verdade

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A poesia é o que é e os poetas são o que são


 
 

A mais elástica
plástica
moldável
amorosa
amorável coisa

que se conhece
é a poesia

Forma-se
e deforma-se
em mil formas
de amor
dor
e apostemas
de todo o sabor

Dá para tudo!
 
Para todos os santos
e diabos
almas simples
espíritos iluminados
para o bem e para o mal
a todos serve
por igual

Com rima ou sem rima
tem gente que a adora
e a estima
e gente que a odeia
a abomina

Gente que a toma a sério
e gente que dela se ri

Gente crente
e descrente
agnósticos
ateus
gregos e arameus

Presta-se a cantar
declamar
ler
sofrer
amar
odiar
insultar
enaltecer
glorificar

irritar
serenar
ou tudo deitar a perder

Existe em tudo
e por todo o lado
em todo o tempo
faça chuva, neve, sol
ou vento
seja duro
ou seja mole

Na virtude
no vício
na vida
na morte
no deserto quente
no gelado
no desterro
encoraja
e causa medo

No céu
na terra
no mar e no ar

Na pena do erudito
no linguarejar do analfabeto
no espaço fechado
no campo aberto
no homem livre e no proscrito

na estética e na moral
nos dias de hoje
e de ontem
na data pretérita
no presente
do indicativo
e no futuro condicional

A poesia está por toda a parte
é omnipresente
por isso também se diz
que os poetas são anjos
e a poesia é divina

Nada disso


A maior parte são sim
grandes marmanjos
e a poesia que escrevem

desatina

Mas eu diria
que a poesia
não é nada disso
e os poetas não são ninguém
mesmo se nada devem


Diria que a poesia é fantasia
e os poetas são a poesia que fazem
e desfazem
em seu viver
de amar e sofrer
mesmo se a não escrevem


Eu diria que a poesia
não é nada disso
e é muito mais

E que os poetas não são nada

nem ninguém

Diria que a poesia
é o que é
e os poetas
são o que são

domingo, 19 de abril de 2015

Por não ter tempo a perder


 

 
Por não ter tempo a perder
a pensar

Tempo para me demorar
a ir
e a vir
do coração ao mundo
da razão ao cosmos
de mim à eternidade

Tempo para me perder no dia-a-dia
em tecnologia
em cálculos
em tramas
em enredos judiciais

Nos livros de contabilidade
nas páginas dos jornais
e em tudo o mais

Os meus poemas são atalhos
curto circuitos
auto-estradas mentais
entre mim e a verdade
pendente

Por não ter tempo a perder
a pensar
escrevo poesia
para prontamente
lá chegar

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Maravilhado ando eu com o Amor


 
 


Maravilhado
ando eu
com o Amor

Mais do que com o Sol ou a Lua
as estrelas
o Céu
a Terra
o mar
o trovão
as aves e os aviões
que voam nos ares
e atolam a Razão

O Amor
esse
extravasa a mente
e transborda o coração

É mais do que a gente sente

A mais generosa dádiva do Criador

O prodígio maior da Criação

 
in “Introdução à Eternidade”(henrique pedro-2013)

sábado, 14 de março de 2015

Medeia




Melhor seria
não ter olhos para te ver
e me deixar fascinar
pelo teu olhar

Melhor fora ser surdo e mudo
para não poder ouvir
teu canto de sereia
nem te poder responder
e me deixar enredar
em teus encantos de Medeia

Não ter braços
para não te poder abraçar
sem mais te largar

Nem ter sexo
para não te cobiçar
e tu
por reflexo
me poderes a mim
ciar

Melhor seria
que eu não tivesse coração
nem Razão
para não cair nesta cruel contradição

Mas a vida é assim
e assim sendo
não me arrependo

Mais vale sentir todos os sentidos
abertos e despertos
e não te poder largar
nem tu
a mim
me poderes deixar

Mais vale sentir-me Aquiles aprisionado
a teu lado
e saber-te uma sereia Medeia
falaz
a mim aprisionada

Ouvir
teu pranto
de mulher apaixonada
e
ser capaz
de resistir

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Eu sabia que um qualquer dia




Eu sabia
que um qualquer dia
havia
de lá tornar

Era o coração que mo dizia

E que ao lá voltar
tornava a outros lugares
separados no tempo
espalhados mas ligados
no mesmo fio de sentimento
numa estranha conexão
que só mais tarde compreendi

Só não sabia
que seria
assim tão de repente
sem razão visível
nem causa aparente
e que sentiria o que senti

Só não sabia
que encontraria
tudo assim tão diferente
tantos espaços desertos
tanta gente ausente
tantos silêncios abertos

Fiquei por isso parado
calado
no doce prazer de sofrer
a recordar
tomado de nostalgia

Daquela galega morrinha
que ainda agora
agorinha
me não mata
mas me mói

Doer
de verdade
dói a saudade