Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Porque se não liberta já a minha alma, de mim?


Fixo o olhar
sem contudo olhar
para nenhum lugar

Deixo o tempo correr


em silêncio
ouço o relógio do cosmos
a tiquetaquear
o cronómetro da vida
a gemer

A pedra em que reclino a cabeça
trilha-me a pele do crânio
o coração
espontâneo
entra a fibrilar

Porque se não liberta já a minha alma?
Porque não saio eu de mim?
Será que alma não tenho?

Porque continuo assim
prisioneiro de ossos e músculos
glândulas e vísceras
de ideias abstrusas

e sem nexo?

Porque me amarro ao espaço
e ao tempo
se o espaço se limita no infinito
e o tempo se esgota na eternidade?

Se não tivesse alma
também o meu corpo não tinha dono
e andava ao abandono
ao deus-dará

sábado, 18 de julho de 2015

Toda a poesia que sinto e não escrevo


 

Passa nas nuvens
nos sonhos
nos desejos
a correr
fugaz

Sob mil formas de amar
e de sofrer
de vento
e de contratempo

Toda a poesia que sinto e não escrevo

Que não escrevo porque não sei
não porque não quero

Que não escrevo não porque não tenha tempo

Que não escrevo porque não sou capaz

É poesia tudo que sinto
e não sei escrever

É angústia
é tormento

É epifenómeno do meu viver

terça-feira, 9 de junho de 2015

Assistindo ao pôr-do-sol pousado num fio de telefone




Ufa!
Ainda estou ofegante!
Vim a correr para lhes contar

Foi uma experiência esfusiante
verdadeiramente surreal
neste início de Primavera

Acabo de assistir ao pôr-do-sol
pousado num fio de telefone
a olhar o mundo de cima
lado a lado com as andorinhas
acabadas de chegar das terras do sul
e algumas rolas turquesas
que por aqui habitam todo o ano

Todos no mais devotado silêncio
apesar dos latidos dos cães
que não paravam de correr e saltar
tentando alcançar o nosso poleiro
para também eles se empoleirarem

Lindo foi quando o astro rei
amarelo como uma gema de ovo
mergulhou definidamente no horizonte

Nesse momento todas as andorinhas me olharam
e me confidenciaram
que já haviam sido galadas
e que traziam sóis como aquele no ventre

Depois bateram as asas e recolheram aos ninhos
sem contudo se comprometerem a voltar
amanhã de manhã
para assistir o nascer do sol

Eu, por mim, lá estarei, porém!

Espero que o Sol não falte!



domingo, 7 de junho de 2015

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!


 


(Para a Rosinha, o Nero, o Quim, o Hulk, o Duque e o Toga)

 
Dedicado aos meus cães
seus pais e suas mães
aqui solto um triplo latido
sentido
em verso
disperso

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!

Talvez eles preferissem que esta poesia
tivesse forma e substância
de osso
mas não duvido
que quando pressuroso
lhes assobiar este poema
com jactância
me ouvirão com atenção
abanando o rabo
sentados no chão

É certo que não o irão comentar
mas latirão de estrema alegria
quando eu terminar

Auuuuu… auuuuu… auuuuu! 

Muito tenho aprendido eu
com o meu irmão
cão
 
Encanta-me a sua afectividade
a sua lealdade
a sua disponibilidade
a sua ternura
a sua bravura
e a sua liberdade

Oh, como eu gostava de ser assim
forte e livre!

Poder como eles correr
sem tino
atrás das aves
e sem me perder
como quando menino

Dormir ao relento sem me constipar
poder fazer sexo
livremente
à vista de toda agente
sem complexo
auuuuu…
isso não…é só mesmo de cão!

Ficar enleado
com minha amada
em prolongado amplexo
e latir, latir, latir
até me fartar

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!

Não fora o caso de ter que ter dono
de ser deixado ao abandono
ou de outra maior selvajaria
chego mesmo a pensar
se não valeria mais ser cão
que um vulgar cidadão
a quem nada adianta ladrar
na actual democracia

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Moro no infinito. Existo na eternidade


.

 

Arrasto comigo o infinito
e a eternidade
para onde vou

Vá para onde for encontro espaço sem fim

Morra quem morrer
não se acaba o tempo

Aqui onde estou
no tempo em que vivo
é onde o infinito se inicia
e a eternidade começa

Vivesse noutro tempo
em qualquer outro lugar
com ar para respirar
e cérebro para pensar
sentiria a mesma sensação
o mesmo aperto de coração
o mesmo lapso de Razão

Por isso moro no Infinito

E existo na eternidade

terça-feira, 26 de maio de 2015

Onde é o além?


 

 

Deito-me
em decúbito dorsal
relaxado
livre do bem
e do mal

Envolto em perfeito silêncio
e escuridão
os olhos fechados sem nada ver
os ouvidos sem nada ouvir
sem sentir o coração bater
nem me dar conta de respirar
nem do tempo fluir

Sem me afectar a mais leve emoção
no  presente
a mais ténue saudade
do passado
a ansiedade mais débil
do futuro

De memória desmemorizada
de nada
e a consciência em total ausência
de tudo
 
Com o cérebro a “cerebrar”
que não a pensar
e que tento também, em vão
parar

Acabo por acordar
e deixar de sonhar

Num sopro saio do corpo

Passo a tudo ver
ouvir
e sentir

Fico sem saber
porém
para aonde ir
nem onde
é
o além