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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Em decúbito dorsal


Acordo
mas deixo-me ficar deitado
absorto
desperto
enlevado

Em posição de decúbito dorsal
de mãos atrás da nuca

a olhar o tecto
sem nada ver
nem sofrer
de outro mal
apenas a pensar
se dormia
porque despertei

Apenas à espera
que o despertador toque
à hora para que o regulei
antes de me deitar

Já a obscuridade do quarto
é rasgada pelos raios da aurora
já lá fora se ouvem chilreios
tomado eu dos anseios
da saudade
não sinto pressa de me levantar

E porque haveria eu
de sentir pressa de me levantar
antes do despertador
tocar?

Só porque acordei
antes da hora
para que o regulei?

É assim o amor
é assim a saudade

Um despertador
que nos desperta
sem hora certa
estejamos ou não acordados

Só com pressa de regressar

 
Mueda (Norte de Moçambique), Maio de 1973

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Gelo a arder



O novelo de lã apenas será meia
quando for fiado
e tecido
pela alma da tecedeira

O monte de caruma
somente será fogueira
se ateado pela chama
de quem precisar de se aquecer

A madrugada apenas será dia
quando o Sol raiar
e o presente apenas será futuro
quando houver passado que contar

O homem só será livre
liberto ou não das grades da prisão
quando se não tomar da mais leve angústia
nem sentir rancor no seu coração

O branco apenas será alvura
quando não tiver riscos de carvão
no seu coração

O preto apenas será negro
e o negro apenas será preto
quando não houver branco no seu olhar

E o viver apenas será vida
quando não houver ameaças de morte
nem sentimentos de má sorte

O emaranhado de palavras
apenas será poema
quando tiver ideia
for lido e sentido
mesmo sem ter
rima alguma

A Verdade apenas o será
se não contiver ideias obscuras

A luz será absoluta
se não for refractada por nenhum prisma
e não tiver a mais imperceptível franja de cor

A pedra de gelo
sem calor bastante para ser água
levantar fervura e ser vapor
apenas será transparente
aos olhos da gente
quando não tiver arestas

A ideia apenas será iluminação
se for gelo
a arder

Este poema é uma pedra de gelo
a arder
na imaginação

O amor apenas o é
sem condição

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Porque se não liberta já a minha alma, de mim?


Fixo o olhar
sem contudo olhar
para nenhum lugar

Deixo o tempo correr


em silêncio
ouço o relógio do cosmos
a tiquetaquear
o cronómetro da vida
a gemer

A pedra em que reclino a cabeça
trilha-me a pele do crânio
o coração
espontâneo
entra a fibrilar

Porque se não liberta já a minha alma?
Porque não saio eu de mim?
Será que alma não tenho?

Porque continuo assim
prisioneiro de ossos e músculos
glândulas e vísceras
de ideias abstrusas

e sem nexo?

Porque me amarro ao espaço
e ao tempo
se o espaço se limita no infinito
e o tempo se esgota na eternidade?

Se não tivesse alma
também o meu corpo não tinha dono
e andava ao abandono
ao deus-dará

sábado, 18 de julho de 2015

Toda a poesia que sinto e não escrevo


 

Passa nas nuvens
nos sonhos
nos desejos
a correr
fugaz

Sob mil formas de amar
e de sofrer
de vento
e de contratempo

Toda a poesia que sinto e não escrevo

Que não escrevo porque não sei
não porque não quero

Que não escrevo não porque não tenha tempo

Que não escrevo porque não sou capaz

É poesia tudo que sinto
e não sei escrever

É angústia
é tormento

É epifenómeno do meu viver

terça-feira, 9 de junho de 2015

Assistindo ao pôr-do-sol pousado num fio de telefone




Ufa!
Ainda estou ofegante!
Vim a correr para lhes contar

Foi uma experiência esfusiante
verdadeiramente surreal
neste início de Primavera

Acabo de assistir ao pôr-do-sol
pousado num fio de telefone
a olhar o mundo de cima
lado a lado com as andorinhas
acabadas de chegar das terras do sul
e algumas rolas turquesas
que por aqui habitam todo o ano

Todos no mais devotado silêncio
apesar dos latidos dos cães
que não paravam de correr e saltar
tentando alcançar o nosso poleiro
para também eles se empoleirarem

Lindo foi quando o astro rei
amarelo como uma gema de ovo
mergulhou definidamente no horizonte

Nesse momento todas as andorinhas me olharam
e me confidenciaram
que já haviam sido galadas
e que traziam sóis como aquele no ventre

Depois bateram as asas e recolheram aos ninhos
sem contudo se comprometerem a voltar
amanhã de manhã
para assistir o nascer do sol

Eu, por mim, lá estarei, porém!

Espero que o Sol não falte!



domingo, 7 de junho de 2015

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!


 


(Para a Rosinha, o Nero, o Quim, o Hulk, o Duque e o Toga)

 
Dedicado aos meus cães
seus pais e suas mães
aqui solto um triplo latido
sentido
em verso
disperso

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!

Talvez eles preferissem que esta poesia
tivesse forma e substância
de osso
mas não duvido
que quando pressuroso
lhes assobiar este poema
com jactância
me ouvirão com atenção
abanando o rabo
sentados no chão

É certo que não o irão comentar
mas latirão de estrema alegria
quando eu terminar

Auuuuu… auuuuu… auuuuu! 

Muito tenho aprendido eu
com o meu irmão
cão
 
Encanta-me a sua afectividade
a sua lealdade
a sua disponibilidade
a sua ternura
a sua bravura
e a sua liberdade

Oh, como eu gostava de ser assim
forte e livre!

Poder como eles correr
sem tino
atrás das aves
e sem me perder
como quando menino

Dormir ao relento sem me constipar
poder fazer sexo
livremente
à vista de toda agente
sem complexo
auuuuu…
isso não…é só mesmo de cão!

Ficar enleado
com minha amada
em prolongado amplexo
e latir, latir, latir
até me fartar

Auuuuu… auuuuu… auuuuu!

Não fora o caso de ter que ter dono
de ser deixado ao abandono
ou de outra maior selvajaria
chego mesmo a pensar
se não valeria mais ser cão
que um vulgar cidadão
a quem nada adianta ladrar
na actual democracia