Ergo a
minha própria pira funerária
na
planície erma e desolada
em dia
gélido de vento, neve e geada
quando
o Outono já se confunde com o Inverno
Amontoo
folhas secas perfumadas
(com as
quais o vento se diverte
insuflando-lhes
vida aparente)
esqueletos
de roseiras decepadas
ramos
de oliveiras
farrapos
de bandeiras
livros e
jornais inúteis
lembranças
de amores vencidos
sucessos,
insucessos e vãs glórias
histórias
de encantar
confidencias
de fazer corar
Coloco
ideias loucas a servir de rastilho
ponho-me
de pé no topo do monturo
em pose
olímpica
qual estátua de Júlio César
de calvície
coroada de folhas de louro
faço o
meu próprio auto de fé
Já fumega
a minha loucura
em
breve surgirão as primeiras chamas
Torturam-me
imagens das viúvas indianas
imoladas
dos relaxados
nas fogueiras da Santa Inquisição
dos kamikaze
da marinha do Japão
dos
bombeiros imolados nas Torres Gémeas
das
crianças moribundas que ardem de febre
abandonadas
à sua morte
Quando
as labaredas me alcançam
e ameaçam
queimar-me
expludo!
É o meu
espírito que estoura como fogo de artifício
e se reintegra
no seio de Deus
De mim poeta
nada resta
porque
a minha inutilidade é total
Apenas
uns versos soltos
fumos
sem fogo
com as
quais o vento se diverte
insuflando-lhes
vida virtual





