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terça-feira, 18 de outubro de 2016

À janela, a ver chover



Postado à janela
cismado
a ver chover
sem ter que fazer
nem para onde ir
entristeço

Nos campos sente-se a erva medrar
com tanto calor
e humidade

Os cães pararam de latir
os pássaros deixaram de voar
esmoreço
desolado
a ver
chover
no molhado

Há dias assim
sem alegria
nem beleza
dias em que até a poesia
induz tristeza

Amiúde deito a cabeça de fora
para espreitar o céu
com desejo de partir

E vou-me embora
sem sair
deixo-me ficar onde estou
até ver

Sem ter para onde ir
sem nada ter que fazer


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Será seu este Citizen Card?





De quem é não tem interesse
já se vê
nem a mim mesmo me interessa saber
sequer

De um simples Cartão de Cidadão se trata
(de um Citizen Card)
que a todos nos maltrata

Um nome e um apelido
uma minúscula fotografia do rosto 
sem alegria nem fantasia
(deveria estar, sim, nele retratado o coração dorido, afim ou malsão)

Um número de contribuinte, a tal identificação fiscal
(que por certo não terá quem for pedinte)
uma letrinha pequenina para o sexo
(ao que parece, irão pôr mais letras indicativas do género e da classe social)

A medida da altura
(que omite a nossa postura na vida e na sociedade, se falamos ou não verdade)
mais o número de utente do Serviço Nacional de Saúde
e da Segurança Social
seja são ou doente
e mais números ainda sem significado
trate-se de pessoa de virtude ou de pecado

Ao real humano ser que somos
nem se alude

Resumindo

Não importa o que somos ou o que fomos

Apenas uma dúzia de dados
para alguém dar ou vender
pois então
destinados a serem manipulados
repartidos
e abatidos
se acaso o Orçamento de Estado 
(ou a Segurança Nacional) 
para nosso mal e a Bem da Nação
assim o entender

Quem é você não tem interesse
já se vê
nem a mim mesmo me interessa saber
sequer

A mim só me importa saber o que sou
isso sim
porque isso eu não sei!

Embora saiba que sou mais que a estúpida amargura de não ser
aquilo que outros gostariam que eu fosse
ou que me impelem a que seja

Herói de banda desenhada
notícia desejada
cidadão eleitor
impostor
pagador de impostos
utente de qualquer coisa
e mais nada

Embora saiba que não sou aquilo que gostaria de ser
que não sei se sou
mas que poderei ser sem saber!


Vale de Salgueiro, quarta-feira, 28 de Abril de 2010

sábado, 15 de outubro de 2016

Silvas e rosas em flor




Silvas
daninhas
marginais
floridas de florinhas pequeninas
suavemente coloridas
emolduram os muros
que marginam
os caminhos
rurais

Espinhosas
como as rosas
que são mais vistosas
nos canteiros
dos quintais

As silvas dão amoras
saborosas
enquanto as rosas
de pendor mais romântico
se esvanecem em perfume
e cor
enigmático cântico
de dor
ciúme
e amor

Silvas e rosas
ambas espinhosas
ambas em flor
o mesmo hino
sibilino
de louvor
ao Criador


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Pira funerária



Ergo a minha própria pira funerária
na planície erma e desolada
em dia gélido de vento, neve e geada
quando o Outono já se confunde com o Inverno

Amontoo folhas secas perfumadas
(com as quais o vento se diverte
insuflando-lhes vida aparente)
esqueletos de roseiras decepadas
ramos de oliveiras
farrapos de bandeiras
livros e jornais inúteis
lembranças de amores vencidos
sucessos, insucessos e vãs glórias
histórias de encantar
confidencias de fazer corar

Coloco ideias loucas a servir de rastilho
ponho-me de pé no topo do monturo
em pose olímpica
qual estátua de Júlio César
de calvície coroada de folhas de louro
faço o meu próprio auto de fé

Já fumega a minha loucura
em breve surgirão as primeiras chamas

Torturam-me imagens das viúvas indianas
imoladas
dos relaxados nas fogueiras da Santa Inquisição
dos kamikaze da marinha do Japão
dos bombeiros imolados nas Torres Gémeas
das crianças moribundas que ardem de febre
abandonadas à sua morte

Quando as labaredas me alcançam
e ameaçam queimar-me
expludo!

É o meu espírito que estoura como fogo de artifício
e se reintegra no seio de Deus

De mim poeta nada resta
porque a minha inutilidade é total

Apenas uns versos soltos
fumos sem fogo
com as quais o vento se diverte
insuflando-lhes vida virtual




quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Deus lê poesia



E veio Deus
o Todo-poderoso Criador Inato
que não dorme em serviço
e que tudo sabe
embora nada comente…

E veio Deus
dizia eu
leu os milhares de poemas que até hoje escrevi
embora nem todos estejam ainda publicados…

Deus
para Quem eu não tenho segredos
mas que a mim nada me diz
torceu o nariz
e para meu espanto
e encanto
embora não seja eu o único destinatário
lavrou o seguinte comentário:
- Olá, Henrique! Lamento ter que te desiludir. Esquece tudo isto que escreves-te, porque nada se aproveita. Nem o ideário nem o valor literário. Para mim, apenas uma simples ideia-afecto, que se expressa numa única palavra, conta. Mas terás que ser tu e todos que escrevem e lêem poesia a descobri-la!

A minha primeira reacção
querido leitor
foi de furor
e de desânimo

Até que se me iluminou o coração
e ganhei outro ânimo

Deus tem razão!

Um só vocábulo tem sentido
e deve ser repetidamente usado
vertido e retrovertido
com muita alegria
e com muito tino
em toda a poesia
seja ela de rima livre
ou cruzada
de metro heróico
ou alexandrino

Um só vocábulo capaz de aplacar
toda a dúvida
e toda a dor
merece o aplauso de Deus Senhor

A palavra Amor



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Falar de amor por falar



Apraz-me falar de amor
por falar
alegremente
seja com que mulher for

Madura
balzaquiana
adolescente
mundana
casta
beata
rameira de vida indevida
casada
solteira
ou simplesmente nubente

Estando apaixonados
ou nem tanto

Sempre enamorados
pela vida e pela verdade
com o encanto do vento
que sopra tal encantamento
por nós a dentro
sem que sintamos ansiedade

Em tarde morna de Outono
ou em dia tórrido de Verão
enquanto tomamos chá
café ou laranjada
numa esplanada
ou à lareira para espantar o sono
sem outra condição
que não seja misturar
 amor, arte e fé

Ou quando passeamos à beira mar
de mãos dadas
mesmo sem nada dizer

Ou deitados desnudos
na praia
na cama
ou em qualquer outro lugar

Assumida que seja
entre nós
a uma só voz
a inocência cristalina
de ter
no amor
a razão única
que nos anima