Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Uma rosa negra de tristeza



Marianinha anda triste…
…triste…triste…triste

Uma rosa negra de tristeza
lançou raízes em seu coração
capazes de o fazer morrer

Cravou espinhos agudos
em todos os seus órgãos
que a todos fazem doer
sem compaixão

E perfumou de tristeza
todo ar à sua volta

Só de tristeza
Marianinha anda envolta

Marianinha está triste
…triste…triste…triste

E ninguém a poderá consolar
o amor de Marianinha partiu
fugiu para o lado de lá do mar

Marianinha anda triste
…triste…triste…triste
de morrer

É uma rosa negra da tristeza
em toda a sua pureza
só o tempo a poderá alegrar
pôr sorrisos novos em seus lábios
no seu ventre filhos semear
fazer dela mulher


sábado, 22 de outubro de 2016

Sex-appeal



Cruza as pernas com sensualidade
como se a importunasse a virgindade

Solta sorrisos etéreos
desejos relutantes
em silêncio
mas nada me diz

Chispa olhares faiscantes
na alvorada
que ainda tarda
mas de nada me fala

Sopra novelos de fumo
que se evolam do cigarro
que mal leva aos lábios
mas que rola nos dedos  sábios
como se fossem malmequeres
floridos numa já tardia Primavera

Sacode os cabelos fazendo soltar
pós mágicos de perlimpimpim
bolas de sabão perfumadas
irisadas de erotismo radiante
que vêm explodir no meu rosto
e me sobem ao nariz
como vapores de vinho mosto

Enquanto faz ouvir as pedras de gelo a tilintar
no balde que em que resfria
o espumante
e acalenta estuante alegria
de me conquistar

Debalde

Entretanto é madrugada
ainda assim



terça-feira, 18 de outubro de 2016

À janela, a ver chover



Postado à janela
cismado
a ver chover
sem ter que fazer
nem para onde ir
entristeço

Nos campos sente-se a erva medrar
com tanto calor
e humidade

Os cães pararam de latir
os pássaros deixaram de voar
esmoreço
desolado
a ver
chover
no molhado

Há dias assim
sem alegria
nem beleza
dias em que até a poesia
induz tristeza

Amiúde deito a cabeça de fora
para espreitar o céu
com desejo de partir

E vou-me embora
sem sair
deixo-me ficar onde estou
até ver

Sem ter para onde ir
sem nada ter que fazer


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Será seu este Citizen Card?





De quem é não tem interesse
já se vê
nem a mim mesmo me interessa saber
sequer

De um simples Cartão de Cidadão se trata
(de um Citizen Card)
que a todos nos maltrata

Um nome e um apelido
uma minúscula fotografia do rosto 
sem alegria nem fantasia
(deveria estar, sim, nele retratado o coração dorido, afim ou malsão)

Um número de contribuinte, a tal identificação fiscal
(que por certo não terá quem for pedinte)
uma letrinha pequenina para o sexo
(ao que parece, irão pôr mais letras indicativas do género e da classe social)

A medida da altura
(que omite a nossa postura na vida e na sociedade, se falamos ou não verdade)
mais o número de utente do Serviço Nacional de Saúde
e da Segurança Social
seja são ou doente
e mais números ainda sem significado
trate-se de pessoa de virtude ou de pecado

Ao real humano ser que somos
nem se alude

Resumindo

Não importa o que somos ou o que fomos

Apenas uma dúzia de dados
para alguém dar ou vender
pois então
destinados a serem manipulados
repartidos
e abatidos
se acaso o Orçamento de Estado 
(ou a Segurança Nacional) 
para nosso mal e a Bem da Nação
assim o entender

Quem é você não tem interesse
já se vê
nem a mim mesmo me interessa saber
sequer

A mim só me importa saber o que sou
isso sim
porque isso eu não sei!

Embora saiba que sou mais que a estúpida amargura de não ser
aquilo que outros gostariam que eu fosse
ou que me impelem a que seja

Herói de banda desenhada
notícia desejada
cidadão eleitor
impostor
pagador de impostos
utente de qualquer coisa
e mais nada

Embora saiba que não sou aquilo que gostaria de ser
que não sei se sou
mas que poderei ser sem saber!


Vale de Salgueiro, quarta-feira, 28 de Abril de 2010

sábado, 15 de outubro de 2016

Silvas e rosas em flor




Silvas
daninhas
marginais
floridas de florinhas pequeninas
suavemente coloridas
emolduram os muros
que marginam
os caminhos
rurais

Espinhosas
como as rosas
que são mais vistosas
nos canteiros
dos quintais

As silvas dão amoras
saborosas
enquanto as rosas
de pendor mais romântico
se esvanecem em perfume
e cor
enigmático cântico
de dor
ciúme
e amor

Silvas e rosas
ambas espinhosas
ambas em flor
o mesmo hino
sibilino
de louvor
ao Criador


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Pira funerária



Ergo a minha própria pira funerária
na planície erma e desolada
em dia gélido de vento, neve e geada
quando o Outono já se confunde com o Inverno

Amontoo folhas secas perfumadas
(com as quais o vento se diverte
insuflando-lhes vida aparente)
esqueletos de roseiras decepadas
ramos de oliveiras
farrapos de bandeiras
livros e jornais inúteis
lembranças de amores vencidos
sucessos, insucessos e vãs glórias
histórias de encantar
confidencias de fazer corar

Coloco ideias loucas a servir de rastilho
ponho-me de pé no topo do monturo
em pose olímpica
qual estátua de Júlio César
de calvície coroada de folhas de louro
faço o meu próprio auto de fé

Já fumega a minha loucura
em breve surgirão as primeiras chamas

Torturam-me imagens das viúvas indianas
imoladas
dos relaxados nas fogueiras da Santa Inquisição
dos kamikaze da marinha do Japão
dos bombeiros imolados nas Torres Gémeas
das crianças moribundas que ardem de febre
abandonadas à sua morte

Quando as labaredas me alcançam
e ameaçam queimar-me
expludo!

É o meu espírito que estoura como fogo de artifício
e se reintegra no seio de Deus

De mim poeta nada resta
porque a minha inutilidade é total

Apenas uns versos soltos
fumos sem fogo
com as quais o vento se diverte
insuflando-lhes vida virtual