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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Arroubos místicos



Muitas vezes me dá para tal
e  não  é só à hora do crepúsculo

É quando menos espero

Dá-me para me abstrair de tudo
tudo misturando num estranho afecto
envolvente de profunda paixão interior
numa só ideia global sem sombra de mal
que mistura eterno e infinito
verdade e santidade

É uma ânsia interior de explodir em amor
uma imparável vontade de bem fazer
um desejo de me libertar
de ser do tamanho do Universo
e
no reverso
humilde e pequenino
como letrinha verso

São arroubos místicos
que não emanam da terra
nem dimanam do céu

Brotam dentro de mim
e são aquilo que sou


in Anamnesis (Janeiro-2016)



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Célia Flor de Cerejeira



Ofereci a Célia uma flor de cerejeira
pela Primavera
por a achar serena
linda e perfumada como ela

A brisa primaveril espalhava pétalas mil
pela Natureza
com a mesma delicada leveza
com que o olhar
o sorriso
e o odor
se transformam em amor

Em breve a meiga cerejeira
que antes se enfeitara de brancas flores
se coroou de cerejas encarnadas
provocantes
luzidias
apetecidos sabores

Mas a flor que ofereci a Célia
por pura brincadeira
apenas sorriu nos lábios dela
algumas luminosas manhãs
menos tempo que as flores suas irmãs
duraram nos ramos da cerejeira

Num ápice as suas pétalas se evolaram
em etéreos beijos
e ternas apalpadelas

Tudo não passou de um fugaz amor
de um equívoco de Primavera
que murchou sem frutificar
porque aquela flor não me pertencia
e eu não deveria
sem a amar de verdade
tê-la dado a Célia

Pertencia sim à cerejeira de onde viera
mesa posta de fruta apetecida agora
oferecida pela Primavera
para ser fruída por todos os seres
que se alimentam de desejos
de beijos
de poemas
 e de cerejas

in Mulheres de Amor Inventadas ( Edição do autor-2013)



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Dulce, paixão adolescente




Hoje deixei a doce Dulce
minha paixão adolescente
impaciente
desleixada
abandonada num banco de jardim

Amanhã  Dulce azedará
irá ficar todo o dia zangada
enciumada
arrufada

Mas depois de amanhã será um outro dia
tudo recomeçará com igual magia
a mesma impaciência
a mesma rebeldia de adolescência

Dir-lhe-ei de novo que a amo
e ela o mesmo a mim me dirá

Era assim, agora me recordo…

Era deslumbrados
com aquela paixão de adolescentes
que sempre retomávamos os jogos inocente s
de beijos e desejos
e inesperados arrufos de namorados

Até que um dia aconteceu
 uma mais adulta impertinência

Paciência

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Levitação






Agora mesmo
como se não houvesse amanhã
nem tivesse havido ontem
nem a hora passada
e vivesse uma eternidade desmemoriada
no presente ausente

Sem um relevante pensamento
um apetite evidente
uma ideia emergente

Na tranquilidade absoluta
de quem não vai nem vem de luta alguma

Sem dar conta do tempo passar
sem um zunido sequer que me possa enervar
fora ou dentro dos ouvidos

Com todos os sentidos a funcionar esplendidamente
tanto que nem eles se dão conta de si
por nada terem que a mim me dizer

De corpo relaxado
e de espírito enlevado
de cérebro todo tomado pela consciência
e a consciência a monitorizar apenas a alma

Sem amor
sem ódio
fantasia ou contrição
tristeza ou alegria
teorema ou dilema
sem motivo de glória ou de frustração
saudade ou nostalgia

Em puro deleite de verdade 
e poesia
com o cordão umbilical bamboleante preso ao presente poema
leve como pluma vogando na bruma
venço a gravidade
entro em levitação

Voo até Deus sem dizer adeus

Vale de Salgueiro, sábado, 5 de Maio de 2012
Henrique Pedro



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Estes são os meus sinais



Desloco-me pelo mundo
deixando mil marcas deléveis
por onde passo

O rastro dos meus sapatos
a assinatura  térmica do meu espectro infravermelho
as sombras que projecto em superfícies opacas
os reflexos em superfícies espelhadas
os sulcos no solo em que ajoelho e me ergo

O suor
o sangue
o sémen
o pranto
outros humores e fluxos fisiológicos
e os demais sais minerais
ruídos
gritos
sorrisos
suspiros
e “ais”

Mais as indeléveis mensagens de amor
nos poemas que escrevo
nas árvores que planto
no calor humano que dispenso

Sonhos e enganos que me marcam a alma

Desloco-me apenas em parte do Planeta
área ínfima do Cosmos
mas deambulo por todo o Universo
sempre que viajo por mim adentro
tentando alinhar um verso

Estes são os meus sinais



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Amora silvestre



Recordo-a agora que é tempo de vindimas
de cânticos de meninos e meninas
que os silvedos que bordejam os caminhos floriram
e se emolduraram de botões de amora
doces
pequeninos

Nunca me dera por ela embora a tivesse ali
ao alcance das mãos que se apertavam
dos braços que por tudo e por nada se abraçavam
dos rostos que amiúde se tocavam
dos sorrisos que a toda a hora se trocavam
dos olhares que se conluiavam

Porém
naquela manhã louçã
na verde verdade da mocidade que não mente
certo e sabido que uvas
amoras
espigas
e raparigas
amadurecem simultaneamente
mas os rapazes só mais tarde

Na sequência da brincadeira
colocou ela uma amora silvestre
preta
aveludada
entre seus lábios carnudos
carmim
e de olhar lampejante de sedução
me desafiou a mim
matreira
a que lhe roubasse a doce drupa
não com a mão
mas com os lábios ávidos do coração

Percebi
não resisti
e lancei-me de imediato
na inocente disputa

Aconteceu o inesperado
porém

Quando os nossos lábios se tocaram
todos os sentidos falaram
soltando descargas eléctricas
magnéticas
por todo o lado

Segurei-lhe a cabeça pela nuca
para a agarrar com força
ela fez-me o mesmo a mim
donde resultou que sem querer
e sem eu saber
naquela mesma hora
se esborrachou a amora do amor
e os lábios
os rostos
coração
se pintalgaram
com o sumo da paixão


Vale de Salgueiro, quinta-feira, 6 de Novembro de 2008
Henrique Pedro