Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

sábado, 12 de novembro de 2016

A minha versão dos factos



Uma taça de cristal
sem fim
a transbordar
de água cristalina

Ramos de rosas
amorosas
em tálamo nupcial
perfumadas
armadas de espinhos

Se fosse outra
a flor
seria jasmim
da cor da aurora
a perfumar os caminhos

Poesia a florir em mil fractais
a alagar o Cosmos
de espiritualidade
e ais
de angústia
de uma eterna saudade

Ouve-se então
o tropel do coração

Nem anjos
nem deuses
nem diabos
em contrição

Não sabemos o que somos
mas é para anjos que vamos
ao fim e ao cabo
assim apaixonados

Pecamos com virtudes
santificamo-nos com pecados

Esta a minha versão dos factos

Seguramente a mais próxima
da verdade



in Anamnesis (Jan 2016-Ed. Autor)



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Naquela noite o céu pegou fogo



Entrou em guerra o Cosmos
naquela noite

Desapareceu do Espaço
a Terra
e pegou fogo
o Céu

Era o epílogo sagrado do virtuoso amor
de um homem e duma mulher
que congraçados na sua Fé
acordaram a doce dor
de guardar estreme castidade
e santa virgindade

Até casarem à luz dos sacramentos
e assumirem a sua condição de homem e de mulher
fiéis aos mandamentos

Naquela noite, porém
o Cosmos entrou em guerra
desapareceu do Espaço a Terra
e o Céu pegou fogo
também

Que nenhum anjo ou demónio
ousou apagar
porque era Deus o incendiário
o Amor o fogo
e o Céu o matrimónio



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Toda a poesia é de amor




Toda a poesia é de amor

Que o digam a Ilíada
a Odisseia
o Mahabharata
os Lusíadas e a Eneida
a Divina Comédia
ou a mais vulgar poética enciclopédia

Toda a poesia é poesia de amor

A poesia épica
que canta os maiores feitos da História
que guardamos na memória
é um hino
sim
ao triunfo do amor

E de que trata a poesia dramática
ainda assim
senão de dor
… e de amor?

Poderá ser épica
e lírica
e trágica
e dramática
a poesia
mas sempre trata de amor

Porque a poesia é um acto de fé
um grito de esperança
que mantém
o homem
de pé

Toda a poesia é de amor
e a que o não for
não passa de azia
de algum poeta amador

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Henrique Pedro

sábado, 5 de novembro de 2016

Não são as lágrimas dos homens que alagam a Terra




Não são as lágrimas dos homens
nem o seu suor
que alagam a Terra
transbordam os rios
e fazem subir o nível do mar

Nem é o seu temor
o bater dos seus corações
que a faz tremer
nem a sua febre
a sua ansiedade
que a faz aquecer
e secar

Tão pouco é o sopro do amor
que levanta ventos e tufões

São a ganância
a arrogância
a insana vaidade
a traição
a exclusão
a insaciável sede de prazer
a vã glória de mandar
o deliro do poder
a vertigem de mentir
a tentação de matar
a loucura da guerra
a febre de competir
que destroem a Terra
e tudo deitam a perder

Já é tempo de parar



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Arroubos místicos



Muitas vezes me dá para tal
e  não  é só à hora do crepúsculo

É quando menos espero

Dá-me para me abstrair de tudo
tudo misturando num estranho afecto
envolvente de profunda paixão interior
numa só ideia global sem sombra de mal
que mistura eterno e infinito
verdade e santidade

É uma ânsia interior de explodir em amor
uma imparável vontade de bem fazer
um desejo de me libertar
de ser do tamanho do Universo
e
no reverso
humilde e pequenino
como letrinha verso

São arroubos místicos
que não emanam da terra
nem dimanam do céu

Brotam dentro de mim
e são aquilo que sou


in Anamnesis (Janeiro-2016)



quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Célia Flor de Cerejeira



Ofereci a Célia uma flor de cerejeira
pela Primavera
por a achar serena
linda e perfumada como ela

A brisa primaveril espalhava pétalas mil
pela Natureza
com a mesma delicada leveza
com que o olhar
o sorriso
e o odor
se transformam em amor

Em breve a meiga cerejeira
que antes se enfeitara de brancas flores
se coroou de cerejas encarnadas
provocantes
luzidias
apetecidos sabores

Mas a flor que ofereci a Célia
por pura brincadeira
apenas sorriu nos lábios dela
algumas luminosas manhãs
menos tempo que as flores suas irmãs
duraram nos ramos da cerejeira

Num ápice as suas pétalas se evolaram
em etéreos beijos
e ternas apalpadelas

Tudo não passou de um fugaz amor
de um equívoco de Primavera
que murchou sem frutificar
porque aquela flor não me pertencia
e eu não deveria
sem a amar de verdade
tê-la dado a Célia

Pertencia sim à cerejeira de onde viera
mesa posta de fruta apetecida agora
oferecida pela Primavera
para ser fruída por todos os seres
que se alimentam de desejos
de beijos
de poemas
 e de cerejas

in Mulheres de Amor Inventadas ( Edição do autor-2013)