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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

É na escuridão mais escura que a alma mais luz




Abro o livro
e leio

O meu espírito espevita

Ouço a voz seca de Séneca
que em seu douto pensamento
há séculos
ao vento
grita:
“Deixarás de ter medo quando deixares de ter esperança.”

É a mim que me ouço feito criança
em desassossego

À luz do dia
tomado pelo instinto
tinto de emoção e ilusão
deixo de me ver
e de me ouvir

À luz do dia
de ambição imbuído
a ideia é ruído

No escuro
melhor  me oiço e mais bem vejo
sei o que procuro
e o que desejo

No escuro mais medo sinto 
mais a mente anseia
a esperança renasce
o silêncio é ideia
divino enlace

Abro o livro
e leio
e releio “ A Noite Obscura” de João da Cruz

É na escuridão mais escura
que a alma mais luz

 
Henrique Pedro
Vale de Salgueiro, 3 de Fevereiro de 2008

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Dissecando a alma de uma mulher virtuosa




Até a mais rubra rosa tem espinhos
e no espírito da mulher virtuosa
sempre existe
o espinho da vaidade

Tomei alfinetes de prata e de marfim
para lhe dissecar a alma
mas cabei por me retalhar a mim

Dei-lhe a beber o veneno da fantasia
que não mata
mas encanta
se diluído em poesia

Provoquei-lhe mil desejos
perdi-me em seus cabelos
olhos
seios
coxas
e humores

Povoei o meu ser de flores
roxas
e dos ensinamentos sábios
que bebi em seus lábios

Apenas quando
por fim
o sopro da verdade me percorreu o corpo
e a punção da sexualidade
me alterou o coração
se libertou em mim
o escopro da espiritualidade

De mil formas são as formas de vaidade
uma só a da verdade
mais espinhosos são os caminhos
se a rosa é vaidosa





segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sonho de Outono



Nestes dias anormais
esgaravato raízes de poemas
no húmus humedecido
pelas primeiras chuvas outonais

Agora que a Natureza de novo sorri
verdejante e florida
iludida
travestida de Primavera
quando o longo e frio Inverno
já a espera

Apenas desenterro dilemas
angústias e ansiedade
que exponho ao vento e à chuva
ao sol morno de Outono

Angústias sem razão de ser
dilemas de verdades
ansiedade sem casualidade

Mas nem o sol as seca
nem a chuva as dilui
nem o vento as leva para longe

As aves passam indiferentes
em seus voos sorrateiros
no céu cerúleo
maculado de nuvens

Procuram sementes nos terreiros
e não poemas
dementes

Ouço cães a ladrar com desnorte
porque o frémito da minha melancolia
lhe fere os tímpanos
e lhes causa frenesia

Ponho-me então a sonhar
para lá da morte

Sonhos que arrastam consigo todos os meus afectos
para espaços mais amplos e abertos
mas nem assim a angústia se dilui
e mais se concentra

Comprovadamente já não fui
que era suposto ser

Resta-me o sonho de que agora
pelo Outono
serei mais do que tudo que sonhei



sábado, 12 de novembro de 2016

A minha versão dos factos



Uma taça de cristal
sem fim
a transbordar
de água cristalina

Ramos de rosas
amorosas
em tálamo nupcial
perfumadas
armadas de espinhos

Se fosse outra
a flor
seria jasmim
da cor da aurora
a perfumar os caminhos

Poesia a florir em mil fractais
a alagar o Cosmos
de espiritualidade
e ais
de angústia
de uma eterna saudade

Ouve-se então
o tropel do coração

Nem anjos
nem deuses
nem diabos
em contrição

Não sabemos o que somos
mas é para anjos que vamos
ao fim e ao cabo
assim apaixonados

Pecamos com virtudes
santificamo-nos com pecados

Esta a minha versão dos factos

Seguramente a mais próxima
da verdade



in Anamnesis (Jan 2016-Ed. Autor)



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Naquela noite o céu pegou fogo



Entrou em guerra o Cosmos
naquela noite

Desapareceu do Espaço
a Terra
e pegou fogo
o Céu

Era o epílogo sagrado do virtuoso amor
de um homem e duma mulher
que congraçados na sua Fé
acordaram a doce dor
de guardar estreme castidade
e santa virgindade

Até casarem à luz dos sacramentos
e assumirem a sua condição de homem e de mulher
fiéis aos mandamentos

Naquela noite, porém
o Cosmos entrou em guerra
desapareceu do Espaço a Terra
e o Céu pegou fogo
também

Que nenhum anjo ou demónio
ousou apagar
porque era Deus o incendiário
o Amor o fogo
e o Céu o matrimónio



quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Toda a poesia é de amor




Toda a poesia é de amor

Que o digam a Ilíada
a Odisseia
o Mahabharata
os Lusíadas e a Eneida
a Divina Comédia
ou a mais vulgar poética enciclopédia

Toda a poesia é poesia de amor

A poesia épica
que canta os maiores feitos da História
que guardamos na memória
é um hino
sim
ao triunfo do amor

E de que trata a poesia dramática
ainda assim
senão de dor
… e de amor?

Poderá ser épica
e lírica
e trágica
e dramática
a poesia
mas sempre trata de amor

Porque a poesia é um acto de fé
um grito de esperança
que mantém
o homem
de pé

Toda a poesia é de amor
e a que o não for
não passa de azia
de algum poeta amador

Vale de Salgueiro, segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
Henrique Pedro