Seja bem vindo/a. A mesa da poesia está posta. Sirva-se.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Um poema e dois dedos de angústia





Ando angustiado
por tudo
e por nada
embora esteja certo de não ser demente
nem estar doente
ou andar enamorado

Sinto-me sem valor
nulo
inseguro
com medo de tudo

Fico quedo
enfadado
tomado de desconhecido temor

Angustia-me o futuro
amargura-me o passado

Se tento não me angustiar
uma maior angústia larvar
acaba por se impor
contrária ao meu querer

Tem tudo a ver
com este mundo malvado



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Por tudo que não amei tanto quanto devia



Boas recordações me mortificam e desalentam
contra o tempo  e contra o vento
e me afastam de novos sonhos e ilusões

Não amei tanto quanto devia ter amado quem amei
não vivi tanto quando devia ter vivido tudo que já vivi

A saudade transforma-se em soledade e nostalgia
deixa-me aborrido
exangue
ferido
sem alegria
à procura de novo sentido para a vida ainda não vivida

A mesma saudade que se transmuta em apelo do futuro
em fé no devir
em razão de ser e sorrir

Por força de tudo que não vivi
mas ainda assim estou em tempo de viver

Por tudo que não amei tanto quanto devia
mas ainda assim poderei mais amar
com redobrada verdade e fantasia

Esta a nova elegia da saudade


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Luar




Passo um braço pelos seus ombros com doçura
e ela abraça-me pela cintura

Assim abraçados
e para Sul voltados
as nossas silhuetas recortam-se no luar
sob a abóbada celeste azul
cintilante
marchetada de estrelas
em incessante bruxulear

Diz-me que gostaria de viajar
até à estrela mais distante
a mim assim abraçada
e pergunta-me em que penso eu

Penso numa estrela mais próxima
cujo coração sinto cintilar
aqui
junto a mim
penso em ti
respondo
inebriado de paixão

A noite ilumina-se com o seu sorriso
abraçamo-nos ainda mais forte
voltados agora um para o outro
cada um para o seu norte
recortando o nosso amor
no luar



domingo, 29 de janeiro de 2017

Um Homem pregado numa Cruz



Bato a todas as portas do Universo
Todos os sábios da Terra questiono
Com os males do mundo me emociono
Por toda a parte o clima me é adverso

Leio todos os livros de prosa e verso 
A todas as bibliotecas eu assomo
Nos laboratórios perco o meu sono
Procurando um consolo incontroverso

Em todas as igrejas procuro a Luz
Força para sofrer e me manter de pé
Mas nenhuma evidência me seduz

Um Homem, porém, me diz, pregado na Cruz:
- Jamais deixes de bem Amar e de ter Fé.
Por ti, com Amor, sofri! Sou Cristo Jesus!





sábado, 28 de janeiro de 2017

Um poema e um prato de feijão




Gosto de feijoada à transmontana
ou à brasileira
embora aceite que não é comida ligeira
sobretudo ao jantar

Também gosto de declamar um bom poema
um soneto
uma odisseia
uma simples quadra que seja
que comporte alegria e uma ideia imaculada

Embora haja poesia que mete dó
e seres humanos que fazem doer o coração
porque morrem à míngua, tão só
por não terem um prato de feijão para comer
e nem um simples poema saibam ler

Não estou certo, porém
nem de longe nem de perto
que basta poesia e um prato de feijão
para se alcançar a salvação

Mas estou em crer com verdade
que um poema e uma feijoada
confecionados com arte
ou um simples naco de pão
resolveriam em grande parte
os problemas da Humanidade



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Deus faz barulho demais



Deus faz tanto barulho
que só não O ouve quem não quer

Aqui na Terra
porque lá no Céu
parece ser silencioso
porque não são precisos ouvidos para ouvi-Lo
nem olhos para enxergá-Lo
e há luz suficiente para nos iluminar

Por isso as estrelas nos piscam os olhos
e falam baixinho

Aqui na Terra, porém
Deus
faz barulho demais
para os ouvidos dos pobres mortais

Talvez para Se fazer ouvir

São os trovões
as tempestades
os vulcões
as ondas do mar

Será que Deus não tem
outras formas de Se revelar?

Eu diria que sim
que tem

Por mim
ouço-O na sinfonia do Amor
vejo-O no halo das Cores
cheiro-O no aroma das flores
imagino-O no Universo sem medida
e sinto-O no mistério da Vida
no magistério da Dor