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quarta-feira, 8 de março de 2017

Há sempre uma mulher que me inspira




Sempre que o meu espírito se diverte
sem que nada diga
à Razão

E procura na poesia
a luz
o sorriso da alegria
o sentido da vida
um lampejo de paixão

Há sempre uma mulher que me inspira
que me conduz
me excita o coração

Uma mãe
uma amiga
uma amante
vivendo perto
longe
distante
no além

O seu olhar
o seu falar
o seu amor
a sua dor
a sua recordação
semeiam na minha mente
a semente do dilema
que se acende
e arde em poema

Pensamento pensado com emoção
qual laivo de vento
que é tormento
agora
mais tarde
agora já não


in “Mulheres de Amor Inventadas (Outubro-2013)



sexta-feira, 3 de março de 2017

Um poema poderá ser uma ave solitária




Um poema poderá ser uma ave solitária
ornada de penas

Que pousa
nas antenas dos telhados
ao lusco-fusco do fim do dia

E o seu canto o ciciar dos namorados
ao amanhecer
ou o simples roçagar de asas
do coração

Poderá ser uma ave solitária pensando na vida
a olhar  o mundo de cima
recortada no luar
à procura de que rumo tomar

Uma ave que solta um pio
levanta voo
e se perde no fumo
da imaginação

Um corvo sem alegria
da Lua enamorado
negro como a noite
à procura de um sol que o acoite

Um poema
bem poderá ser o que bem se quiser

Um pássaro
o Sol
a Lua
uma mulher nua poisada na rua
a poesia da criança a aprender a andar
para alegria dos pais

Um poema poderá ser tudo
aquilo que ao poeta aprouver
e ainda muito mais




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Sempre me dizia que partia mas ficou




Mil vezes ela me dizia
que partia
mas sempre ficou
mais apaixonada

A toda a hora me dizia
que se ia
embora
e voltou

Eu sabia que sempre que ela partia
não tardava
que curta seria
a demora

Mil vezes o meu coração se partia
mas me dizia
que ela apenas pretendia
que lhe desse mais atenção
mais ainda da que agora
lhe dou

Vou continuar deixá-la dizer
que vai
e não vai
a ir e a vir
a partir e a ficar
a fazer o que quiser

Mais atenção ainda assim
ela a mim
me vai dar

E só não lhe digo que eu
também me vou
com o receio
que de permeio
ela se vá
e vá demorar



domingo, 19 de fevereiro de 2017

À paixão trá-la o desejo e leva-a o vento




Para a paixão se formar
e nos prender
nas pernas da centopeia
nos queimar no lume
do ciúme
e fazer sofrer
basta um ar
ameno

Basta uma brisa
um aceno
uma doce melopeia
um toque de realejo

Um olhar expressivo
sem motivo
um gesto impensado
um sorriso calado

Um prazer a menos
e um desejo a mais

 A picada dum percevejo
um beijo 
uma inesperada emoção

E o adejar duma mosca
uma palavra tosca
um vento a destempo
para a transmutar 
em tormento
num vendaval de desilusão

À paixão
trá-la o desejo
e leva-a o vento

Vale de Salgueiro, quarta-feira, 6 de Abril de 2011
Henrique Pedro


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Por saber que paixão não leva a lado nenhum




Deixo-me ficar parado
mudo
ensimesmado
a ver a chuva cair
embora sem a sentir

O meu pensamento, porém, anda por perto
bem por dentro de mim
e nem a mais forte rajada de vento
me faz acordar
e regressar
à realidade circunscrita

É como se eu fora um eremita
orando
resguardado das tempestades do tempo
e do trovão do seu coração

Que passa os dias parado
meditando
ensimesmado
a ver a chuva cair
embora sem a sentir
por saber que a paixão não leva a lado nenhum



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Tristeza deliquescente




Esta melencolia que me assola
em dias de chuva aborridos
ou quando o sol poente
me deixa lânguido da saudade
de quem anda ausente
estando embora presente
é uma tristeza deliquescente
mais própria dos vencidos

Abandono-me à nostalgia emergente
e paro de me angustiar
viro as costas às perguntas do costume
que sei
de antemão
não terem respostas

É quando uma morrinha miudinha
me toma os sentidos
a ponto de não me sentir nada
nem ninguém
magma
ou matéria
nem em nada materializado
em nenhum estado de espírito realizado

Fico sem saber se ainda estou aqui
ou se já vou além
se a poesia é coisa séria
ou não passa de uma pilhéria

Até que o ensejo de um bocejo
me faz despertar dessa sonolência demente
e retomar a vida corrente