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terça-feira, 31 de outubro de 2017

Quando a alma nos cai aos pés





Alguém como eu condenado às galés
e que seguia à minha frente
por um caminho empedrado
inadvertidamente
deixou cair a alma
aos pés

Tilintou
saltitou
e acabou por se ocultar
sem se partir
como se fora um berlinde de cristal
incandescente

Em redor não se via vivalma
e não adveio daí
outro mal
ao mundo

Alguém que seguia a meu lado
por um caminho relvado
deliberadamente
deixou cair o coração
soltando-o da mão

Ouviu-se um baque surdo
e ali ficou plasmado
como se fora um pastel ensanguentado
vivo
a latejar

Alguém que vinha atrás de mim
por um caminho enlameado
irreflectidamente deixou cair o cérebro
no chão
por erro de lógica
sem razão

Fez plof!
Ainda esbracejou
como se ensaiasse nadar
mas acabou por se afundar
e ali ficar atolado
com a consciência à tona
por algum tempo
como se fosse uma azeitona
enquanto a memória
diluída no vento
apodrecia na História

O primeiro Alguém iluminou-se
sem combustão

O segundo apaixonou-se
ardeu
sem compaixão

O terceiro enlouqueceu
ninguém lhe valeu
restaram os ossos

Eu segui em frente
por entre, cacos e destroços
à procura do meu berlinde irisado
que andará por aí
perdido em qualquer lado
a cair sem se partir

Quando a alma nos cai aos pés
partimo-nos todos
espalhamo-nos
cada bocado para seu lado

Só nos levantamos por inteiro
se recuperamos a alma
primeiro
mesmo se perdemos a razão
e o coração



domingo, 29 de outubro de 2017

Beijos





Beijos

           na alma
           nas mãos
           na boca
           no cu
           no coração
           na face
           no rosto
           na testa
           em tudo que resta

         Na alma?
         só a alma os dá

         No coração?
         não penetra tão fundo a tesão

Beijos
          de amor
          de traição
          de verdade
          de amizade
          de bom tom
          beijos beneton

Beijos
        da morte
        da má sorte
        bafejos
        harpejos de infelicidade

Beijos
       de circunstância
       de primeira instância
       de Judas
       escusas
       antologia
       cinema
       fantasia
       de poema

Beijo
beijão
beijinho
público
privado
desdém
carinho
forçado
estudado
repetido
desinibido
       repenicado

Beijo

Abraço

Abração

Abraçadinho

Maior é o beijinho
pequenino
ternurento
sem embaraço
nem lamento

São os beiços que beijam
se o beijo é de desejo
mas beija o coração
se o beijo é de dor
ou de amor

Beijam os olhos
as mãos
os braços
os lábios
tanto faz
se o beijo for beijo de verdade e de paz



sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Lenda de Santa Comba e São Leonardo


Neste mesmo local
em que ora me assento
donde diviso todo o vale
perpassado pelo vento
da recordação

Vivo com emoção
o trágico momento
tempo da História
já fora da memória
com o coração a bater
a querer saltar do peito
sem jeito de se conter

Sinto a terra a arfar
a pulsar com a dor
do pastor Leonardo
morto ainda criança
trespassado pela lança
do mouro javardo
que acaba de o esventrar

E ouço os soluços
de sua irmã Comba
de bruços a chorar
naquela funesta manhã

O cavalo alfaraz
a relinchar
com os cascos a bater
qual tenaz
na fraga que se abriu
para esconder
a Comba cristã

Fraga que ainda guarda
a ferradura gravada
a quente
jura muito crente
que bem viu

Imagino agora eu
a casta adolescente
a voar
Comba feita pomba
a subir ao Céu

Par virar santa
venerada
moira encantada
que encanta
o povo que a canta
por toda a Terra Quente

in Anamnesis (Janeiro de 2016)



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Estarei no messenger, mais logo, para lhe falar



Aqui
O vento que se levantou ao fim do dia
Já veio tarde
Mas deu para limpar o céu
Das negras nuvens do fumo dos incêndios florestais

Ademais
O Firmamento está agora límpido
Cerúleo
Cristalino

Dá para ver na perfeição a Via Láctea
Que se distende na direcção Norte-Sul
E se me enrodilha na Razão
Salpicada de estrelas bruxuleantes
Rangendo de silêncio

Imagino que aí
Do lugar em que te encontras
Duma janela de um vigésimo terceiro andar
Dá para veres
Por certo e na perfeição
O arco da Baía de Guanabara
Em todo o seu esplendor
De som e néon

E ouvir
O bater do seu coração

Fantástica é a poesia
Que nos dá olhos para ver
E ouvir
Com amor e alegria
Coisas tão distintas
E ainda mais
O indistinto que certas coisas têm

E que diferença faz a pesada espiritualidade
Da minha vista
Da suave sensualidade
Do seu olhar?

Nenhuma

Na minha
Uma mulher nua
Láctea
Toca violino
Ao luar

Na sua
Um homem se despe
Doirado
No mar

Estarei no messenger
Mais logo
Para lhe falar


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O maior acontecimento da minha vida




Não sei onde estava quando nasci
nem donde vim
nem o que vim cá fazer
embora fosse o maior acontecimento da minha vida
e eu estivesse lá
acabadinho de nascer
vindo algures de além
vogando no ventre de minha mãe

Eu estava lá quando nasci
apesar de não me lembrar
e de estar certo de que todos se alegraram
e que foi minha mãe que sentiu maior alegria
apesar das dores de parto

Eu sei estava lá quando nasci
e que apenas eu chorei
porque me doía a vida
sem perceber
o que me estava a acontecer

De mim não me aparto
toda a minha vida morei comigo
hora a hora
na mesma rua
na mesma casa
no mesmo lugar
a saltar de terra em terra
em tempos de paz e de guerra
mas continuo a não me conhecer
a não saber quem comigo mora
e que muda
a cada instante

Não sei donde vim
nem onde estou
nem para onde irei a seguir
apenas sei que sou
um ser mutante

E também sei que já não estarei lá quando morrer
e que serei o único a sorrir



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Eyjafjallajokull



Lá na distante e fria Islândia
uma mulher frívola e fulva
linda como a Lua
cavalgava nua
montada no cavalo de desejo
à procura de alguém
que lhe desse um beijo

E tão forte era o seu desejo e o seu trotear
que o vulcão Eyjafjallajokull acordou
e de imediato se pôs a ejacular
lava e cinza vulcânica
que obscureceu os céus da Europa oceânica
com véus de ansiedade

Foi quanto bastou
para que os europeus não pudessem respirar
e os aviões deixassem de poder voar
até que vulcão Eyjafjallajokull amainou

A Mãe Natureza manda na Terra de verdade
pare o homem de a provocar